Natal de 2022, no começo do inverno atual nos Estados Unidos, teve um ciclone bomba que despejou 1,4 metro de neve na cidade de Buffalo | JOEL VIERA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Os Estados Unidos tiveram dois grandes episódios de frio até agora neste inverno com frio muito extremo e recordes de precipitação, embora não seja um inverno rigoroso no país da América do Norte que tem na maioria dos estados temperaturas acima ou muito acima da média até o momento. Além dos dois eventos de frio extremo, o inverno norte-americano ainda tem neste ano em seu histórico semanas de chuva excepcional na Califórnia, o que seria comum sob El Niño e não com La Niña, como é o caso deste inverno setentrional.

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Entre os dias 21 e 26 de dezembro de 2022, um ciclone extratropical histórico sobre a América do Norte, na região do Grandes Lagos, trouxe uma grande tempestade de inverno, incluindo nevascas, ventos fortes e temperaturas extremamente baixas na maior parte dos Estados Unidos e Canadá. O frio atingiu o estado norte-americano da Flórida, onde chegou a nevar em algumas praias.

As áreas que experimentaram condições de nevasca incluíram partes de Minnesota, Iowa, Wisconsin, Michigan, Ohio, Nova York e Ontário, com a área de Buffalo em Nova York e as áreas de Fort Erie e Kingston, em Ontário. Foram quase dois dias inteiros de nevasca e visibilidade zero entre 23 e 24 de dezembro. Em 24 de dezembro, 110 milhões de pessoas em 36 dos 50 estados norte-americanos estavam sob alerta de frio intenso a extremo.


A tempestade e a onda de frio relacionada mataram pelo menos 100 pessoas. Quarenta e uma das mortes da tempestade ocorreram na área de Buffalo, estado de Nova York, onde a queda de neve pelo efeito do lago excedeu 1,40 metro em um período de cinco dias, enquanto outras mortes pela tempestade e a onda de frio ocorreram em 17 estados e a província de Ontário, no Canadá.

A tempestade causou grandes engavetamentos de veículos e fechamento de estradas, principalmente nas áreas afetadas por nevascas, com uma proibição total de dirigir imposta em Buffalo por cinco dias e meio.

Carros soterrados pela neve ao longo de uma avenida no Norte do estado de Nova York. Pessoas que ficaram presas e não puderam ser socorridas devido à ferocidade da nevasca acabaram morrendo congeladas em seus automóveis | NYSDOT WESTERN NY/DIVULGAÇÃO

Devido à tempestade do ciclone bomba, mais de 18 mil voos foram cancelados nos Estados Unidos entre 22 e 28 de dezembro, enquanto outras centenas foram canceladas no Canadá. O Aeroporto Internacional de Buffalo Niagara foi o mais afetado, pois ficou completamente fechado por cinco dias. Cerca de 6,3 milhões de residências nos Estados Unidos e 1,1 milhão no Canadá ficaram sem energia durante parte da tempestade.


Agora, neste começo de fevereiro, um novo evento de frio extremo. Uma onda polar com intensidade não vista ao menos em uma geração atingiu o Nordeste dos Estados Unidos e o Sudeste do Canadá com marcas históricas de frio, algumas não vistas por várias décadas e até com recordes de mais de um século. A temperatura e a sensação caíram a níveis perigosamente baixos, gerando alertas da Meteorologia que as pessoas poderiam sofrer congelamento em minutos.

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O escritório do Serviço Meteorológico Nacional (NWS) dos Estados Unidos que atende à região de Boston descreveu o frio como “um a onda de frio histórica do Ártico para a era moderna” e alertou que “está tão frio quanto é possível ocorrer”.

No topo do Monte Washington, no estado de New Hampshire, a sensação térmica atingiu 78ºC abaixo de zero durante a noite da sexta-feira (3), confirmou o Serviço Nacional de Meteorologia (NWS). Com quase 6.300 pés (1.920 metros), o Monte Washington é o pico mais alto do Nordeste dos Estados Unidos.

Já a temperatura mínima (não a sensação térmica) no Monte Washington neste sábado caiu a impressionantes 43,9ºC abaixo de zero. Trata-se de um novo recorde para fevereiro no estado de New Hampshire e empata com a temperatura mais baixa do estado em mais de 100 anos de registros.


O NWS afirmou que a brutal onda polar trouxe temperaturas até 15ºC a 20ºC abaixo do normal em partes do Nordeste dos Estados Unidos e na costa do Atlântico. Alertas de frio extremo abrangendo dezenas de milhões de pessoas estavam em vigor em grande parte da Nova Inglaterra, Quebec e Leste do Canadá.

A temperatura mínima no dia 4 de fevereiro em Montreal, no Canadá, chegou a 29,5ºC abaixo de zero. Foi a menor marca na cidade desde 1994. Os termômetros indicaram na cidade canadense mínimas de 31,8ºC negativos em 27 de janeiro de 1994, 35,2ºC abaixo de zero em 4 de janeiro de 1981 e 37,8ºC negativos em 15 de janeiro de 1957.

A sensação térmica desceu a 44ºC abaixo de zero no Aeroporto Internacional de Montreal. A empresa de energia Hydro Quebec disse que a onda polar provocou um consumo recorde de eletricidade na sexta-feira e pediu aos clientes que diminuíssem o aquecimento em um ou dois graus.

Em Boston, a mínima matinal caiu para -23,3ºC às 5h15 do dia 4, a temperatura mais baixa na cidade desde 15 de janeiro de 1957, quando Boston atingiu -24,4ºC. O episódio lembrou a onda polar brutal do Ártico no Dia dos Namorados, em 14 de fevereiro de 2016, quando o Aeroporto Logan caiu para -22,7ºC.

Então, fica a pergunta: o frio nos Estados Unidos é um sinal para o nosso inverno de 2023 no Sul do Brasil? Teremos eventos extremos (para os nossos padrões climatológicos) também?

A MetSul Meteorologia observa há muito tendência de repetição de padrões do inverno da América do Norte meses depois no inverno do Sul do Brasil. Anos de eventos muito extremos de frio em janeiro e fevereiro, de caráter histórico, acabaram tendo depois nos meses do nosso inverno também eventos de grande intensidade e marcantes no Sul do Brasil.

Casos do ano de 1918, ano de inverno incrivelmente rigoroso nos Estados Unidos e que depois teve entre junho e julho neve na cidade de Buenos Aires e o recorde de mínima de toda a série histórica de Porto Alegre com -4ºC. Ou 1962 que foi outro ano congelante no Hemisfério Norte e após teve um inverno rigoroso no Sul do Brasil.

Enfatizamos, contudo, que o clima não é linear e que um ou dois eventos de frio mais extremos nos Estados Unidos não significam que haverá uma repetição do padrão aqui. É preciso ter em conta, em primeiro lugar, que o padrão geral de circulação na atmosfera hoje no mundo é um e no nosso inverno tende a ser muito diferente. Hoje, a atmosfera ainda sob influência da La Niña, que impacta tanto o Brasil como os Estados Unidos, e no inverno de 2023 do Hemisfério Sul a possibilidade é que o El Niño esteja atuando.

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Há um segundo detalhe relevante. O evento do frio do Natal de 2022 nos Estados Unidos foi muito abrangente, semelhante a onda polar de maio de 2022 no Brasil, mas este agora do início de fevereiro foi muito limitado em abrangência e mais concentrado no Nordeste norte-americano.

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É necessário ter ainda em conta um terceiro fator. Estes dois eventos extremos de frio nos Estados Unidos foram episódicos. Pontuais. Não tem sido a regra deste inverno no país. Muito ao contrário. A temperatura nos Estados Unidos em dezembro ficou 0,3ºC acima da média e nas áreas afetadas pelo frio extremo neste início de fevereiro o mês de dezembro foi muito mais quente que a média. Em janeiro, grande parte do território norte-americano enfrentou marcas acima da média.

Não é possível esquecer ainda o que ocorreu na Europa, onde o inverno é tampouco rigoroso neste ano. Centenas de estações meteorológicas em toda a Europa tiveram suas temperaturas diária mais altas de todos os tempos nos meses de dezembro ou janeiro. Em 31 de dezembro de 2022, Dresden-Hosterwitz, Alemanha, atingiu 17,7°C e superou o recorde de 1961. Com 17,7°C, Praga, na República Tcheca, bateu o recorde de 17,4°C de 5 de dezembro de 1961. No dia 1º de janeiro de 2023, muitas cidades experimentaram recordes absolutos de máxima para janeiro. Casos de Bilbao, na Espanha, com 25,1 °C, e Varsóvia, na Polônia, com 18,9°C.

Então, os modelos de clima que fazem projeções para meses à frente indicam neste momento que o inverno no Sul do Brasil em 2023 deve ter temperatura acima da média. Aliás, quase todos os modelos hoje com dados que alcançam o inverno são indicativos da tendência de marcas superiores à climatologia histórica na média estacional (trimestre junho a agosto).

METSUL METEOROLOGIA

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Está longe de ser um cenário definitivo, mas com a perspectiva de instalação de um evento de El Niño as chances são maiores de uma estação com temperatura acima da média do que abaixo. O que pode ocorrer, e aí repetiria o padrão dos Estados Unidos, é um inverno com temperatura acima da média com um ou dois eventos pontuais de frio muito intenso ou extremo.

Outra marca deste inverno norte-americano que pode se replicar aqui é o aspecto tempestuoso com chuva extrema na Califórnia, tornados no Sul norte-americano e um grande ciclone bomba nos Grandes Lagos. Aqui, o risco seria maior frequência de episódios de tempo severo que nos últimos anos (vendavais, granizo e tornados) e a possibilidade aumentada de ciclogênese explosiva nas latitudes médias do Atlântico Sul.