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Evento do clima mais lembrado em Porto Alegre foi sua grande enchente de abril e maio de 1941 com as águas do Guaíba invadindo a cidade e alagando o Centro a ponto de barcos chegarem ao que é hoje o Largo Glênio Peres e a subida da Borges de Medeiros  | SIOMA BREITMAN/ FAROL SANTANDER/ REPRODUCAO/ CP MEMÓRIA

Os morros de Porto Alegre amanheceram cobertos de neve em 27 de julho de 1870, mas não se sabe qual foi a temperatura naquele dia. As medições meteorológicas somente se iniciaram na cidade no final do século 19 no prédio do Forte Apache, no Centro, hoje pertencente ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, mas as leituras foram descontinuadas.

Porto Alegre possui dados do tempo contínuos desde 1910, o que permite saber a temperatura que fazia na tarde de 24 de agosto de 1984 quando a neve encantou a capital ou quanto choveu em 1941 na grande enchente. A série histórica de 112 anos começou com estação na Faculdade de Engenharia e, na sequência, as leituras passaram a ser feitas na Redenção pelo Instituto Coussirat de Araújo. Desde a década de 70, as observações ocorrem no Jardim Botânico pelo Instituto Nacional de Meteorologia.


Neste último século, o clima da cidade se transformou com maior urbanização e as mudanças climáticas mundiais. As normais climatológicas 1991-2020 divulgadas pelo Inmet nesta semana lançaram um novo olhar sobre como o clima da capital dos gaúchos mudou ao longo das últimas décadas. E, surpreendentemente, não foi muito.

Nos últimos 100 anos, Porto Alegre ficou mais quente e mais chuvosa. A média de precipitação anual na série 1931-1960 era de 1316,6 mm. Em 1961-1990, o total anual foi a 1347,4 mm. No período 1991-2020, entretanto, a média anual de chuva da cidade se elevou para 1494,6 mm.


No período 1931-1960, os três meses mais chuvosos do ano, na média, foram junho (139,7 mm), julho (128,0 mm) e setembro (123,8 mm). No período 1961-1990, junho (132,7 mm), agosto (140,50 mm) e setembro (139,5 mm). Na série 1991-2020, julho (163,5 mm), setembro (147,8 mm) e outubro (153,2 mm).

O trimestre de inverno, que costuma ser o mais chuvoso da climatologia anual, possuía total de precipitação média de junho a agosto de 394,4 mm no período 1961-1990. Já no período de 1991 a 2020, a soma da chuva média dos três meses do inverno climático se elevou para 414,0 mm, ou seja, os invernos ficaram mais úmidos e chuvosos.

O começo da primavera experimentou um notável aumento da precipitação. O bimestre dos meses de setembro e outubro na série 1961-1990 tinha na média um total de chuva de 253,8 mm. Nas normais climatológicas 1991-2020 a precipitação média do bimestre saltou para 301,0 mm.

O trimestre de verão nas três décadas das normais 1961-1990 apresentava uma média de chuva de dezembro a fevereiro de 309,9 mm. Por sua vez, nas últimas três décadas (1991-2020), a precipitação do trimestre de verão se elevou para 343,6 mm.

A temperatura média anual 1931-1960 era de 19,5ºC. No período 1961-1990 manteve-se igual. Na série 1991-2020, entretanto, subiu a 19,9ºC. O trimestre de inverno (JJA) tinha média de 14,9ºC entre 1931 e 1960 e a de 1991 a 2020 foi idêntica. Já o trimestre de verão (DJF) anotou média de 24,2ºC no período 1931-1960 e na série 1991-2020 a média subiu para 24,5ºC.

No inverno, as noites ficaram menos frias em junho com média mínima de 10,7ºC na série 1961-1990 e de 11,3ºC nas normais de 1991-2020. Julho, por sua vez, experimentou noites mais frias com média mínima de 10,7ºC na série 1961-1990 e 10,4ºC na 1991-2020. Agosto, por fim, quase nada mudou com 11,5ºC no período 1961-1990 e 11,6ºC no de 1991-2020.

Os invernos ficaram menos frios nos últimos 30 anos principalmente pela temperatura da tarde, ou seja, as máximas. Junho tinha média máxima na série 1961-1990 de 19,2ºC que subiu para 19,7ºC nas últimas três décadas. Julho foi de 19,6ºC para 19,7ºC, ou seja, foi o mês de inverno em que o clima menos mudou na temperatura na história recente. Já agosto teve um forte aquecimento com máxima média na série 1961-1990 de 20,3ºC e nas normais climatológicas 1991-2020 de 21,8ºC, um aumento impressionante de 1,5ºC que tem conexão, dentre outros fatores, com agosto de 2012 em que a capital gaúcha teve máxima média com desvio positivo de 6ºC em um mês bizarramente quente para o inverno.

Os verões de Porto Alegre ficaram mais quente nas últimas décadas. Os três meses da estação (dezembro, janeiro e fevereiro) apresentaram alta na comparação das médias máximas entre as séries históricas de 1961-1990 e de 1991-2020. Dezembro foi de 29,5ºC para 30,0ºC, janeiro de 30,4ºC para 31,0ºC, e fevereiro de 30,0ºC para 30,5ºC. Desde que as medições se iniciaram no Jardim Botânico na década de 70, máximas somente superaram 40ºC em 2014, 2019 e em 2022, ou seja, os três dias mais quentes da cidade de Porto Alegre no verão no último meio século ocorreram todos nos últimos dez anos.

Curiosidades do clima de Porto Alegre

Dia mais frio – A menor temperatura já registrada em Porto Alegre ocorreu em 11 de julho de 1918 durante uma poderosa onda de frio que assolou a América do Sul em um inverno que foi de extremo rigor. A cidade teve extremas de 2,6ºC a 9,7ºC no dia 7; 0,0ºC a 8,6ºC no dia 8; -0,8ºC a 9,2ºC no dia 9; -1,0ºC a 9,6ºC no dia 10; e -4,0ºC a 13,2ºC no dia 11.

Dia mais quente – A maior temperatura máxima em Porto Alegre ocorreu no primeiro dia do ano de 1943 em meio a uma forte seca e em um janeiro que foi escaldante no Rio Grande do Sul com recordes que somente seriam superados em 2022. Fez 40,7ºC em 1º/1/1943 (recorde absoluto e de janeiro); 40,6ºC em 6/2/2014 (recorde de fevereiro); 40,4ºC em 17/2/1929; 40,3ºC em 14/2/1958, 31/12/2019 e 16/1/2022; 40,0ºC em 2/1/1949; 39,9ºC em 5/2/2014, e 39,8ºC em 25/12/2012 (recorde de dezembro) e em 7/2/2014.

Chuva – O evento climático mais conhecido da cidade de Porto Alegre foi a enchente de 1941, o maior desastre natural da história da cidade que deixou dezenas de milhares de pessoas fora de casa com as águas que chegaram ao Mercado Público e à Rua da Praia, e que inundou o Menino Deus e o Quarto Distrito. Choveu 791 mm na soma de abril e maio de 1941. O maior acumulado de precipitação em 24 horas foi 149,6 mm em 3 de maio de 2008. Estações do antigo Sistema Metroclima chegaram a registrar acumulados acima de 200 mm em 24 horas na zona Sul em bairro como a Restinga. A chuva extrema foi consequência de um ciclone que trouxe também vento acima de 100 km/h por muitas horas e grandes estragos na cidade.

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