Bombeiro trabalha para extinguir incêndio florestal próximo à vila de Tabara, perto de Zamora, Norte da Espanha, em 18 de julho, durante a brutal onda de calor na Europa Ocidental e que desencadeou uma série de incêndios de grandes proporções em diversos países. Calor extremo no continente europeu fez surgir o temor que o próximo verão seja escaldante também no Brasil e outros países da América do Sul. | MIGUEL RIOPA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A excepcional onda de calor na Europa Ocidental da última semana suscitou questionamentos se seria um indicativo de que o nosso próximo verão será muito quente e com calor extremo. Os gaúchos, uruguaios e argentinos têm na memória o último mês de janeiro, marcado por uma brutal e prolongada onda de calor que ocorreu em meio a uma seca severa e que foi responsável por um número recorde de incêndios na Argentina e extensas áreas queimadas no Oeste do Rio Grande do Sul.

A onda de calor na Europa foi um evento extraordinário sob a climatologia histórica. Centenas de recordes locais de máximas caíram e diversos países atingiram recordes nacionais de máxima absolutos ou para o mês de julho. Portugal, por exemplo, teve a maior temperatura da sua história em julho com 47,0ºC. Em diversos locais da Espanha as marcas superaram os 45ºC. A França quebrou centenas de recordes de temperatura máxima.

O Reino Unido teve a sua maior temperatura até hoje com 40,3 °C em Coningsby. A região de Londres pela primeira vez bateu na casa dos 40ºC com 40,2ºC no aeroporto de Heathrow. O calor causou tantos incêndios que os bombeiros londrinos tiveram o seu pior dia de ocorrências desde os bombardeios da Segunda Guerra Mundial.


Para se ter uma ideia do quão desviou do normal a temperatura em Londres, uma cidade que é despreparada para o calor, afinal só 3% das residências inglesas têm ar-condicionado e as casas são preparadas para aquecer, a temperatura máxima média histórica da capital inglesa pela série 1991-2020 do Met Office em julho é de 23,9ºC com base na estação de Heathrow. Assim, a marca de 40,2ºC na terça em Heathrow ficou 16,3ºC acima do normal.

Se a anomalia de temperatura máxima da terça na capital inglesa fosse registrada em Porto Alegre em janeiro, quando a média máxima é de 31,0ºC, a capital gaúcha registraria 47,3ºC em sua estação oficial do Jardim Botânico. O recorde oficial de calor em Porto Alegre desde o início das medições em 1910 é de 40,7ºC em 1º de janeiro de 1943.

A Inglaterra possui a série de temperatura mais antiga do mundo com observações do tempo diárias desde 1772, chamada de Central England Temperature (CET). Antes desta onda de calor, a média diária mais alta já registrada era de 25,2°C. Nesta onda de calor, chegou a 28,1°C.


Temperaturas máximas em todos os meses do ano na série histórica 1948-2022 na estação do Aeroporto de Heathrow em Londres e o pico de 40,2ºC de 19 de julho de 2022 | ROBERT RHODE/UNIVERSIDADE DE BERKELEY

A Escócia também teve o seu dia mais quente já observado com 35,1ºC em Floors Castle, dizimando o recorde prévio de 32,9ºC em 2003. Na segunda-feira, o País de Gales anotou a sua maior máxima já observada com 35,3ºC em Gogerddan. Também na segunda, a Irlanda foi a 33,0ºC, maior máxima desde os 33,3ºC de 1887, e mais alta no país até hoje em julho. Dublin registrou a maior máxima de sua história.

As temperaturas em 18 e 19 de julho ultrapassaram 38°C no Reino Unido, com apenas duas datas anteriores excedendo tal limite nos dados do Met Office: 10 de agosto de 2003 e 25 de julho de 2019. As quatro datas: 18 e 19 de julho de 2022, 25 de julho de 2019 e 10 de agosto de 2003 são as únicas ocasiões em que 38°C foram registrados no Reino Unido em observações que remontam a meados do século XIX.

Gráfico mostra os dez dias mais quentes da história do Reino Unido | MET OFFICE

As temperaturas em 18 de julho foram excepcionais, mas subiram mais 2ºC a 4°C em 19 de julho, tornando a data sem precedentes no contexto de registros climáticos de longo prazo do Reino Unido. Conforme o Met Office, o que é particularmente notável foi a abrangência do calor extremo na comparação as duas ocorrências anteriores de temperaturas superiores a 38°C no Reino Unido. Os recordes de temperatura tendem a ser quebrados por valores modestos e em apenas algumas estações desta vez caíram de forma generalizada e por enormes margens.

O recorde nacional de calor do Reino Unido de temperatura máxima diária mais alta de 36,7°C em Raunds, Northamptonshire, permaneceu por quase 80 anos antes de ser quebrado em 3 de agosto de 1990. O recorde nacional foi quebrado, então, mais três vezes desde a virada do século devido em parte a o aquecimento resultado da mudança do clima induzida pelo homem. Foi demonstrado cientificamente que as mudanças climáticas estão tornando as ondas de calor do Reino Unido mais frequentes, intensas e duradouras.


Comparação da intensidade e abrangência do calor nos dias mais quentes da história do Reino Unido nas grande ondas de calor de 1976, 2003, 2019 e 2022 | MET OFFICE

A Dinamarca teve seu dia de julho mais quente já registrado na quarta-feira. Abed registrou 35,9°C durante a tarde, batendo o recorde nacional anterior de julho de 35,3°C em Erslev/Mors & Studsgård v/Herning em julho de 1941. Foi também o segundo dia mais quente já registrado na Dinamarca, só atrás do recorde histórico de 36,4°C em agosto de 1975. Na Bélgica, Holanda e Luxemburgo, as máximas só ficaram atrás da onda de calor de 2019. Com 39,5°C, Maastricht na Holanda ficou a 0,1°C do recorde de todos os tempos na cidade. Com 37,1°C, Roterdã também teve máxima só 0,1°C inferior ao recorde de 2019.

Na Alemanha, dezenas de recordes absolutos de máxima caíram com uma máxima nacional de 40,3ºC em Mergentheim. O mais notável ocorreu na cidade de Hamburgo que pela primeira vez enfrentou temperatura de 40ºC na sua história com 40,1ºC, batendo o recorde prévio de 37,0°C em 9 de agosto de 1992 (o recorde anterior de julho foi de 36,8°C em 2006). Na Suécia, recorde nacional de temperatura máxima com 37.2°C in Målilla.

A grande onda de calor do último verão

Se europeus agora enfrentam calor sem precedentes em diversos países, o Rio Grande do Sul, parte da Argentina e o Uruguai experimentaram uma onda de calor de proporções históricas no último verão. Janeiro foi marcado por um episódio de calor extremo que trouxe vários recordes e máximas jamais vistas em algumas cidades gaúchas, uruguaias e argentinas. O recorde oficial de calor do Rio Grande do Sul que resistiu por quase 80 anos acabou caindo.

Anomalia de temperatura no mês de janeiro de 2022 no Brasil | INMET

Na rede do Instituto Nacional de Meteorologia foram 13 dias consecutivos em que as máximas bateram em 40ºC no Rio Grande do Sul em janeiro de 2022. Fez 41,5ºC em Quaraí no dia 12; 41,7ºC (recorde absoluto de 110 anos) em Bagé no dia 13; 40,8ºC em Bagé no dia 14; 40,6ºC em Uruguaiana no dia 15; 41,8ºC em Uruguaiana dia 16; 40,2ºC no dia 17 em Teutônia; 41,1ºC em Santa Rosa em 18 de janeiro; 41,5ºC em São Luiz Gonzaga no dia 19; 42,1ºC em Uruguaiana no dia 20; 41,8ºC dia 21 em Uruguaiana; 41,6ºC dia 22 em Uruguaiana; 42,1ºC dia 23 em São Luiz Gonzaga; 41,2ºC dia 24 em São Luiz Gonzaga; 39,6ºC dia 25 em São Luiz Gonzaga; e 39,5ºC dia 26 em Campo Bom.

Já estações automáticas particulares e de outros órgãos apontara marcas de 42,3ºC em Santa Rosa no dia 25 de janeiro e de 40,7ºC em Parobé no dia 26 de janeiro, quando a rede oficial não apontou máximas superiores a 40ºC. Com isso, o Rio Grande do Sul completou 15 dias seguidos em que as temperaturas máximas no território gaúcho ultrapassaram a marca dos 40ºC, o que muito provavelmente não tenha precedentes desde o começo das medições meteorológicas regulares no Estado em 1909.

No dia 27 de fevereiro, o Rio Grande do Sul registrou a maior máxima de sua história com 42,9ºC na estação do Instituto Nacional de Meteorologia em Uruguaiana. A marca passa a ser o novo recorde oficial absoluto de temperatura máxima no Rio Grande do Sul, superando os recordes anteriores de 42,6ºC em Alegrete em 19/1/1917 e em Jaguarão em 1º de janeiro de 1943. Trata-se também do novo recorde oficial de calor para fevereiro no Rio Grande do Sul. E, ainda, recorde absoluto de máxima para fevereiro e qualquer mês do ano em Uruguaiana, batendo as marcas de 42,2ºC de1986 e 42,0ºC de 1943.

O Uruguai teve em 14 de janeiro a maior temperatura da sua história. De acordo com o Instituto Uruguaio de Meteorologia (Inumet), a temperatura máxima em Florida chegou a 44,0ºC, o que igualou o recorde absoluto nacional de máxima de 44,0ºC de 20 de janeiro de 1943. Na Argentina, a cidade de Buenos Aires teve dois dos três dias mais quentes de toda série histórica em apenas uma semana em janeiro.

Seca como feedback de calor extremo

A onda de calor de janeiro no Cone Sul da América do Sul e a onda de calor da Europa agora em julho têm em comum enormes déficits de chuva. As bacias do Rio Paraná e da Prata enfrentaram em 2021 a maior seca desde a década de 40 antes do verão escaldante deste ano no Sul do país, Uruguai e Argentina. Quando a onda de calor de janeiro ocorreu, a região estava sob estiagem forte a severa em muitos locais com índices excepcionais em alguns pontos.

O calor extremo destes dias na Europa também se dá sob uma seca severa, a pior em mais de meio século em alguns países em um dos verões mais secos que se tem memória. Alertas de seca foram emitidos para grande parte do continente, incêndios expulsaram os moradores de suas casas e grandes rios estão secando. “Estamos vendo, realmente, uma seca sem precedentes em muitas partes” da Europa, disse Carlo Buontempo, diretor do Serviço de Mudança Climática Copernicus da União Europeia.

As temperaturas extremas secam ainda mais o solo superficial já com umidade escassa. A onda de calor também faz com que árvores suguem água do subsolo mais profundo enquanto tentam sobreviver, esgotando o lençol freático do qual agricultores, cidades e natureza dependem como reserva durante os períodos de seca. Na bacia do rio Po, no Norte da Itália, que abriga um terço da população do país, chove pouco ou nada há mais de 200 dias. A seca ainda afeta Portugal, Espanha, Reino Unido, Alemanha e Suíça.

Vista aérea do rio Zêzere na Pampilhosa da Serra, Centro de Portugal, com quase todo o país numa situação de seca “grave” ou “extrema”, a pior em mais de meio século, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) | CARLOS COSTA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Foto aérea das ruínas geralmente submersas da antiga vila de Aceredo, surgindo do reservatório da usina hidrelétrica de Lindoso devido ao baixo nível de água, perto de Lobios, província de Ourense, Noroeste da Espanha. A aldeia Aceredo deixou de existir em 1992 para a construção do reservatório que inundou a antiga localidade. | CARMELO ALEN/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Imagem do baixo nível de água no reservatório de Scammonden, a Oeste de Huddersfield, no norte da Inglaterra, que igualmente enfrenta condições de seca neste verão | OLI SCARFF/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Leito seco do rio Po em Boretto, Nordeste de Parma, com a seca que afeta a bacia e é considerada a pior e mais longa dos últimos 70 anos | PIERO CRUCIATTI/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Poça d´água em meio ao leito quase seco do rio Reno, em Colônia, Oeste da Alemanha, com a grave e extensa seca que atinge o continente europeu | INA FASSBENDER/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Leito seco da parte do Lac des Brenets do rio Doubs, uma fronteira natural entre o Leste da França e o Oeste da Suíça | FABRICE COFFRINI/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Ondas de calor intensas ocorrem nos meses quentes do ano com ou sem estiagem, em verões secos ou chuvosos, mas, historicamente, se observa que os episódios de calor mais extremo se dão durante estiagens ou secas. Isso por um processo de interação terra-atmosfera em que a estiagem deixa a atmosfera ainda mais seca e, com o ar mais seco, a temperatura se eleva mais em mecanismo de feedback positivo. A literatura técnica explica tal processo:

“A compreensão atual da física por trás das secas meteorológicas e ondas de calor sugere que anomalias de circulação em grande escala persistentes semelhantes são críticas para o início de ambos os eventos, o que explica em parte por que os extremos frequentemente coincidem. Feedbacks terrestres-atmosféricos semelhantes têm sido sugeridos como centrais em sua evolução, mesmo se as secas e ondas de calor frequentemente abrangem escalas temporais diferentes, sendo as últimas tipicamente mais curtas (dias a semanas) do que as primeiras (meses a anos). Esses feedbacks são intuitivos: conforme o solo e a vegetação secam, a evaporação da terra (ou evapotranspiração) é reduzida, portanto, o ar se torna ainda mais seco, o que pode diminuir ainda mais a probabilidade de chuva e favorecer a ocorrência de secas meteorológicas. Concomitantemente, conforme a evaporação declina progressivamente, uma fração maior da radiação incidente é empregada para aquecer o ambiente, o que leva a um acúmulo de calor sensível na atmosfera que pode evoluir para uma onda de calor ou exagerar sua magnitude”. (Miralles D G, Gentine P, Seneviratne S I and Teuling A J 2019 Land–atmospheric feedbacks during droughts and heatwaves: state of the science and current challenges Ann. N. Y. Acad. Sci. 1436 19–35)

Foi exatamente o que ocorreu na extraordinária onda de calor que assolou o Noroeste dos Estados Unidos e British Columbia (Canadá), com centenas de mortes em junho do ano passado, para muitos especialistas a onda de calor mais excepcional já documentada pelos imensos desvios da temperatura em relação à média. O episódio se deu em meio a um ciclo de seca excepcional e incêndios que afetava o Oeste da América do Norte. O calor exacerbou a seca e agravou os incêndios que agravaram o calor.

Na própria Europa, o continente registrou a mais alta temperatura da sua história com 48,8ºC em Siracusa, na Sicília, no Sul da Itália, no mês de agosto, em 2021. O recorde se deu durante uma poderosa onda de calor que foi batizada localmente de Lúcifer e em meio a um quadro de seca e grande número de incêndios na costa do Mediterrâneo. Verkhoyansk, uma cidade na Sibéria, registrou 38ºC em 20 de junho de 2020. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que a cidade siberiana, 115 quilômetros ao Norte do Círculo Polar Ártico, experimentou a temperatura mais alta já registrada no Ártico. O recorde se deu com seca severa na região.

Os sinais para o nosso próximo verão

Muito se ouviu falar nos últimos dias com a onda de calor na Europa que “este verão escaldante é o mais frio que você vai experimentar no restante da sua vida”, dando a entender que a cada verão a temperatura será mais alta que no anterior. A afirmação é enganosa. A tendência de longo prazo, pelo aquecimento global, é que os verões fiquem cada vez mais quentes, mas isso não significa que a cada verão a temperatura fique mais alta que no anterior.

Se a onda de calor na Europa for vista por um contexto de aquecimento planetário que favorece ondas de calor mais intensas e frequentes, é sinalização de que o nosso verão pode voltar a ser muito quente e com risco de novos extremos de temperatura, embora não necessariamente com a mesma proporção de janeiro de 2022. A estatística é clara em mostrar uma tendência de aquecimento cada vez maior em países como Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Anomalia de temperatura ano a ano por décadas entre 1961 e 2020 na Argentina | SMN

As condições de circulação global da atmosfera agora, quando da onda de calor na Europa, porém, não serão as mesmas em dezembro de 2022 a fevereiro de 2023, quando do nosso verão climático, de forma que não se pode automaticamente afirmar que teremos um verão tórrido simplesmente porque a Europa teve um verão escaldante seis meses antes. Seis meses separam o auge do verão europeu do pico do verão do Cone Sul da América.

Ocorre que um padrão de enorme importância de escala global presente hoje e que favorece escassez de chuva em muitas regiões deve estar ainda presente no final de 2022 e possivelmente no início de 2023. Trata-se do fenômeno La Niña. A esmagadora maioria das projeções indica que no final deste inverno e na primavera haveria uma nova intensificação do resfriamento das águas do Pacífico, agravando o risco de déficit de precipitação.

Assim, com o risco agravado de nova estiagem ao menos em parte da próxima estação pela continuidade do fenômeno La Niña até o fim do ano ou o começo de 2023, sob um contexto global de aquecimento de longo prazo que favorece verões mais quentes, cresce também a possibilidade de ondas de calor de intensidade muito forte.

Modelos climáticos de longo prazo, a propósito, desde já sinalizam uma perspectiva que o verão de 2023 no Centro-Sul do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai sejam mais uma vez de marcas acima da média com anomalias positivas significativas em algumas áreas, cenário que se crê não deve se alterar nas atualizações das simulações ao longo dos próximos meses.

Portanto, a tendência é que o Centro-Sul do Brasil e os países do Prata voltem a enfrentar um verão de temperatura acima da média com marcas possivelmente muito acima da média em algumas áreas, contexto que favorece ondas de calor e que podem ser muito intensas, embora não se possa predizer com a mesma magnitude do episódio de janeiro de 2022.

Antes mesmo do verão, agora no final do inverno e começo da primavera, a tendência é de temperatura muito acima da média em estados do Centro-Oeste e do Sudeste do Brasil, o que pode levar a marcas extremas de calor no final da estação seca e talvez recordes em algumas cidades. A sequência de meses com temperatura acima da média no Brasil Central pode levar a episódios de calor atípico e com grande desvio da climatologia, apesar de curta duração, no Sul do Brasil.