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Argentina enfrentou grandes ondas de calor no começo e no final deste ano com recordes históricos, marcas sem precedentes de máximas. seca e graves incêndios | STR/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A onda de calor recorde que atingiu o Centro e o Norte da Argentina, Uruguai, o Rio Grande do Sul (Brasil) e o Paraguai no começo deste mês de dezembro foi cerca de 60 vezes mais provável devido às mudanças climáticas causada pelo homem, de acordo com um novo estudo de atribuição rápida divulgado hoje por uma equipe internacional de pesquisadores.

Entre os dias 4 e 2 de dezembro, recordes de temperatura caíram em cidades argentinas. A estação argentina de Rivadavia, localizada perto da fronteira com a Bolívia e o Paraguai, registrou temperatura máxima de 46°C em 7 de dezembro, a mais alta marca oficial no mundo naquele dia. No Rio Grande do Sul, a máxima oficial foi de 40,5ºC em Quaraí no dia 9, mas estações particulares não oficiais chegaram a indicar 41ºC a 42ºC no Oeste gaúcho.


Cientistas da Argentina, Colômbia, França, Nova Zelândia, Dinamarca, Estados Unidos, Holanda e Reino Unido colaboraram para avaliar até que ponto as mudanças climáticas induzidas pelo homem alteraram a probabilidade e a intensidade da onda de calor do início de dezembro. Usando métodos revisados por pares publicados (peer-reviewed), analisaram como a mudança climática induzida pelo homem alterou a probabilidade e a intensidade do evento.

O serviço World Weather Attribution (WWA) constatou que, na região de estudo, uma onda de calor de uma semana com a intensidade vista poderia ser esperada uma vez a cada 20 anos no clima atual. Acrescenta que a mudança climática tornou a onda de calor 1,4°C mais quente. E se o aquecimento global atingir 2°C acima dos níveis pré-industriais, uma onda de calor dessa intensidade deve ocorrer uma vez a cada quatro anos, segundo o estudo.


Os impactos do forte calor foram agravados pela seca que assola a região há anos. A Argentina está em seu terceiro ano consecutivo de seca, enquanto o Chile enfrenta uma “mega seca” de uma década. A equipe da WWA disse em uma coletiva de imprensa que este é seu primeiro estudo de atribuição rápida sobre calor extremo na América do Sul. Eles acrescentam que conduzirão um estudo separado de atribuição rápida sobre a seca na América do Sul no próximo ano.

Em toda a América do Sul, 2022 tem sido um ano de temperaturas extremas. O ano começou em janeiro com uma onda de calor como poucas vezes vista na qual a maior parte da Argentina, Uruguai, Sul do Brasil e e Paraguai registraram alguns dos seus dias mais quentes da história.

Em toda a Argentina, mais de 50 cidades registraram temperaturas acima de 40°C, e cinco registraram as temperaturas mais altas em pelo menos 50 anos. Por um período em janeiro de 2022, a Argentina foi o país mais quente do planeta. A onda de calor “histórica” provocou incêndios florestais incontroláveis, centenas de milhares de pessoas enfrentaram cortes de energia e o governo anunciou estado de emergência agrícola.

No Rio Grande do Sul, janeiro teve 15 dias seguidos com máximas acima de 40ºC. Na rede do Instituto Nacional de Meteorologia foram 13 dias consecutivos em que as máximas bateram em 40ºC no Rio Grande do Sul em janeiro de 2022. Fez 41,5ºC em Quaraí no dia 12; 41,7ºC (recorde absoluto de 110 anos) em Bagé no dia 13; 40,8ºC em Bagé no dia 14; 40,6ºC em Uruguaiana no dia 15; 41,8ºC em Uruguaiana dia 16; 40,2ºC no dia 17 em Teutônia; 41,1ºC em Santa Rosa em 18 de janeiro; 41,5ºC em São Luiz Gonzaga no dia 19; 42,1ºC em Uruguaiana no dia 20; 41,8ºC dia 21 em Uruguaiana; 41,6ºC dia 22 em Uruguaiana; 42,1ºC dia 23 em São Luiz Gonzaga; 41,2ºC dia 24 em São Luiz Gonzaga; 39,6ºC dia 25 em São Luiz Gonzaga; e 39,5ºC dia 26 em Campo Bom.

Já estações automáticas particulares e de outros órgãos apontara marcas de 42,3ºC em Santa Rosa no dia 25 de janeiro e de 40,7ºC em Parobé no dia 26 de janeiro, quando a rede oficial não apontou máximas superiores a 40ºC. Com isso, o Rio Grande do Sul completou 15 dias seguidos em que as temperaturas máximas no território gaúcho ultrapassaram a marca dos 40ºC, o que muito provavelmente não tenha precedentes desde o começo das medições meteorológicas regulares no Estado em 1909.

No dia 27 de fevereiro, o Rio Grande do Sul registrou a maior máxima de sua história com 42,9ºC na estação do Instituto Nacional de Meteorologia em Uruguaiana. A marca passa a ser o novo recorde oficial absoluto de temperatura máxima no Rio Grande do Sul, superando os recordes anteriores de 42,6ºC em Alegrete em 19/1/1917 e em Jaguarão em 1º de janeiro de 1943. Trata-se também do novo recorde oficial de calor para fevereiro no Rio Grande do Sul. E, ainda, recorde absoluto de máxima para fevereiro e qualquer mês do ano em Uruguaiana, batendo as marcas de 42,2ºC de1986 e 42,0ºC de 1943.

O Uruguai teve em 14 de janeiro a maior temperatura da sua história. De acordo com o Instituto Uruguaio de Meteorologia (Inumet), a temperatura máxima em Florida chegou a 44,0ºC, o que igualou o recorde absoluto nacional de máxima de 44,0ºC de 20 de janeiro de 1943. Na Argentina, a cidade de Buenos Aires teve dois dos três dias mais quentes de toda série histórica em apenas uma semana em janeiro.

De 4 a 12 de dezembro, 45 estações em toda a Argentina registraram condições de ondas de calor, de acordo com o Serviço Meteorológico Nacional da Argentina. As temperaturas ultrapassaram os 40°C em 24 desses locais e ultrapassaram os 45°C em quatro deles. Durante a onda de calor, as temperaturas subiram 10°C acima do normal da época do ano por vários dias em muitas regiões, e nove locais no Norte da Argentina registraram sua maior temperatura máxima em dezembro desde pelo menos 1961.

Para colocar a onda de calor em seu contexto histórico, os autores analisaram uma série temporal de dados observacionais de temperatura ao longo de 1950-2022. O Serviço Nacional de Meteorologia da Argentina forneceu à equipe da WWA dados de temperatura de sete estações meteorológicas na região de estudo.

Os gráficos abaixo mostram as temperaturas máximas anuais de sete dias em cada estação ao longo de 1960-2022. A linha preta mostra os dados da estação, enquanto as linhas vermelha e verde mostram estimativas de temperatura usando o conjunto de dados de reanálise ERA5 – que combina modelo e dados observacionais – para a célula da grade mais próxima da estação meteorológica e para toda a região de estudo, respectivamente. Os gráficos destacam como as temperaturas máximas aumentaram nos últimos 60 anos.

Para cada uma dessas estações, os autores avaliam a probabilidade da onda de calor de dezembro de 2022 em seu contexto histórico. Eles descobriram que, nas sete estações, a onda de calor de uma semana de dezembro teve um “período de retorno” variando de 4 a 40 anos, refletindo a frequência com que tal onda de calor seria esperada no clima de hoje, que é cerca de 1,2°C mais quente do que antes DOS tempos industriais.

No geral, o estudo conclui que um evento como a onda de calor do começo de dezembro é esperado uma vez a cada 20 anos no clima atual. Isso é 60 vezes mais provável do que se os humanos não estivessem aquecendo o mundo. Os autores acrescentam que a mudança climática tornou a onda de calor 1,4°C mais quente.

“Sem a mudança climática induzida pelo homem, seria muito improvável que esse tipo de onda de calor ocorresse”, disse a professora Paola Arias – professora da Escola Ambiental da Colômbia da Universidade de Antioquia e coautora do estudo – na coletiva de imprensa. Os autores também observam que, se as temperaturas globais subirem mais 0,8°C, para atingir um aquecimento total de 2°C, uma onda de calor dessa intensidade seria esperada a cada quatro anos. Enquanto isso, um evento em 20 anos seria 0,7-1,2°C mais quente do que hoje.

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