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Litoral do Peru teve um súbito e acentuado aquecimento a partir dos primeiros dias de 2017 com a caracterização de Um El Niño costeiro | NOAA

O verão 2021/2022 começa nesta quarta-feira às 18h48 (hora de Brasília). A estação tem início com o Pacífico Equatorial Central ainda sob a influência do fenômeno La Niña, caracterizado pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico Equatorial e que tanto impacto trouxe no clima nos últimos meses.

É o terceiro verão seguido que começa com La Niña, mas que já atingiu seu pico de intensidade em outubro. A última vez em que três verões consecutivos tiveram início sob a influência da La Niña foi entre 1998/1999 e 2000/2001.


A tendência não é de a La Niña persistir o verão inteiro, como nos últimos dois verões, e o fenômeno deve chegar ao fim no decorrer da estação com o Pacífico entrando em neutralidade (sem La Niña ou El Niño).

Isso, contudo, não significará que seu efeito cesse de imediato. Neutralidade não é normalidade e pode trazer características de El Niño e La Niña. O clima é complexo e dependendo da área do Pacífico que aquece ou se resfria os efeitos no Sul do Brasil vão variar.


Nas últimas três semanas, águas mais quentes começaram a emergir nas costas do Peru e do Equador. Nesta área do oceano, conhecida entre nós meteorologistas como Niño 1+2, a anomalia divulgada pela NOAA nesta semana era de -0,1ºC. Nunca, desde março passado, foi tão pouco negativa.

Esta parte do Pacífico é a de mais difícil previsão e muitas vezes modelos de clima não foram aptos a antecipar mudanças radicais. O comportamento das anomalias de temperatura da superfície do mar nesta região é muito errático e pode apresentar alterações bruscas.

Independentemente se houver El Niño ou La Niña presente no Pacífico Central, aquecimento ou resfriamento neste setor do Pacífico Leste perto dos litorais do Peru e do Equador acabará tendo impacto na chuva no Sul do Brasil.

Em 2005, por exemplo, havia El Niño que em tese deveria proporcionar um verão chuvoso, mas o que se teve foi uma brutal estiagem no Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul, à medida que o Pacífico Leste ficou frio enquanto o Pacífico Central seguia quente.

No sentido oposto, no verão de 2017 o Pacífico Central estava mais frio do que a média e o grande temor entre os produtores do Sul do Brasil era de um verão de estiagem, mas na virada do ano se iniciou na costa peruana um evento de El Niño costeiro que resultou em um verão mais chuvoso no Sul do Brasil com uma grande safra.

Se houver aquecimento mais pronunciado desta região Niño 1+2, o impacto da La Niña que persiste no Pacífico Central seria atenuado e acabaria chovendo chove mais no Sul do Brasil que os modelos de clima de longo prazo indicam neste verão.

Hoje, a maioria projeta um verão no Rio Grande do Sul com chuva entre a média e abaixo da média, conforme a parte do estado. Seria um fator surpresa e positivo para a agricultura se houvesse um aquecimento maior desta área do Pacífico.

O modelo de clima CFS, da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a agência de tempo e clima do governo dos Estados Unidos, projeta esta área do Pacífico adentrando o terreno positivo apenas em março, mas já na inicialização agora em dezembro se observa que a anomalia está acima do que o modelo previa.

O modelo europeu, por sua vez, aponta um cenário distinto com aquecimento antecipado em relação ao norte-americano CFS e acelerado agora entre janeiro e março. Sob este cenário de aquecimento, a chuva ficaria acima do que a maioria dos modelos de clima indica no Sul do país.

Assim, o recente ingresso de águas mais quentes junto ao litoral peruano com uma acentuada redução das anomalias negativas na região Niño 1+2 e mesmo o aparecimento de bolsões de águas superficiais mais quentes do que a média terá que ser atentamente monitorado ante a possibilidade de mexer com o clima e surpreender com mais chuva.

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