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Violenta onda de tornados atingiu seis estados do Centro e do Sul dos Estados Unidos na noite de sexta para sábado, deixando um impressionante rastro de destruição e um número ainda indeterminado de vítimas que as autoridades cogitam pode ficar acima de 100 mortos.

Tornados são comuns e ocorrem em qualquer época do ano no país, entretanto os muito graves episódios com dezenas de ocorrências e tornados intensos de longa duração não costumam ocorrer fora da temporada que tem pico entre março e junho.


O sábado no Oeste do estado norte-americano do Kentucky amanheceu com cidades destruídas e que viraram um monte de escombros como se tivessem sido alvos de uma bomba atômica. Caso de Mayfield, de população de 10 mil habitantes, onde praticamente todos os prédios e casas vieram abaixo ou simplesmente sumiram com apenas o assoalho para identificar que naquele lugar um dia havia uma residência.

O tornado que atingiu Mayfield pode ter percorrido 340 quilômetros e quatro estados (Arkansas, Missouri, Tennessee e Kentucky) em quatro horas do seu ponto de formação até a dissipação com uma célula de tempestade de duração e intensidade incomuns.


Se confirmado que foi um único tornado que percorreu tal distância será um recorde na história dos Estados Unidos e será conhecido como Quad-State, o tornado de quatro estados, superando o recorde de tornado de mais longa extensão que foi o Tri-State Tornado que atingiu três estados em 1925.

Os danos observados no Oeste do Kentucky são condizentes com um tornado EF-5, o máximo da escala. As equipes do Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos ainda avaliam os danos e, se vier a se confirmar que se tratou de um tornado EF-5, terá sido o mais intenso em dezembro desde 1957. Historiadores do tempo afirmam que nunca onda de tornados matou mais de 80 pessoas foram do auge da temporada e este será o primeiro episódio.

As mudanças climáticas e os tornados

As mudanças climáticas afetam diferentes eventos climáticos extremos de maneiras diferentes. Alguns, como aumentos de episódios de calor extremo, redução de frio extremo e aumento em casos de precipitação extrema, são fáceis de compreender e atribuir a um clima em mudança. Outros, como as fortes tempestades convectivas que produzem tornados, são muito mais difíceis no processo de atribuição.

A Quarta Avaliação Nacional do Clima dos Estados Unidos, de 2018, tem reservas semelhantes sobre quaisquer ligações entre mudanças climáticas e tornados. Conforme o relatório, que é o mais completo já produzido sobre os efeitos das mudanças climáticas no território norte-americano, “aumentos futuros observados e projetados em certos tipos de clima extremo, como chuvas fortes e calor extremo, podem estar diretamente ligados a um mundo mais quente”.

Por outro lado, o documento afirma que ”outros tipos de condições meteorológicas extremas, como tornados, granizo e tempestades, também estão exibindo mudanças que podem estar relacionadas às mudanças climáticas, mas a compreensão científica ainda não está detalhada o suficiente para projetar com segurança a direção e magnitude das mudanças futuras”.

Isso porque parte da variabilidade ano a ano nos números de tornados é influenciada pelas condições do El Niño e La Niña. A ciência já descobriu que que há mais tornados nos Estados Unidos em anos de La Niña. Outros tipos de variabilidade natural também podem afetar a ocorrência de tornados como, por exemplo, A Oscilação de Madden-Julian que é uma oscilação periódica de 30 a 60 dias de instabilidade que começa no Oceano Índico e circunda a Terra pelos trópicos.

Devastador tornado atravessou a área central de Mayfield e prefeita da cidade do Kentucky diz que sua cidade desapareceu | SCOTT OLSON/GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Dezenas de pessoas morreram com a passagem dos tornados pelo Oeste do estado norte-americano do Kentucky que teve cidades inteiras destruídas na noite de sexta-feira | BRENDAN SMIALOWSKI /AFP/METSUL METEOROLOGIA

Embora o número total de tornados relatados nos Estados Unidos tenha dobrado desde 1950, essa estatística é altamente enganosa. Até a década de 1990, os registros de tornados baseavam-se principalmente em alguém que observou um tornado e relatou ao Serviço Nacional de Meteorologia.

Como a maioria dos tornados são pequenos e duram apenas alguns minutos, o número observado e relatado era no passado consideravelmente menor que o número real. O aumento de tornados ao longo do tempo é em grande parte devido ao advento dos modernos sistemas de radar meteorológico “Doppler” na década de 1990, que podem detectar tornados fracos e aqueles em áreas escassamente povoadas que podem não ter sido relatadas anteriormente. Se os tornados fracos são excluídos da série histórica, não se observa tendência detectável de aumento de tornados

Se apenas os tornados mais fortes forem considerados (F3-F5 ou EF3-EF5), há evidências até de declínio nos números nas últimas décadas. No entanto, os especialistas alertam contra a leitura de um aparente declínio no número de tornados severos. Eles ressaltam que a classificação de tornados fortes não tem sido consistente ao longo do tempo.

Apesar das poucas evidências sobre um aumento no número de tornados, há sinais claros de que o padrão de ocorrência de tornados está mudando. Um estudo de 2014 na revista Science descobriu que tem havido um número consideravelmente maior de tornados por episódio de tempo severo nas últimas décadas. Em outras palavras, há mais dias em que ocorrem vários tornados, mas menos dias no cômputo geral com registros de tornados.

Os autores do estudo sugerem que essa tendência é robusta, mas não têm uma boa explicação do motivo. Os pesquisadores não conseguem identificar nenhuma razão pela qual esse comportamento seria impulsionado pelas mudanças climáticas observadas, mas ao mesmo tempo dizem que não podem excluir as mudanças climáticas como um fator contribuinte.

O que diz o relatório do IPCC sobre os tornados

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o mais completo e rigoroso documento científico já produzido no mundo sobre clima, vai no mesmo caminho que a correlação entre mudanças climáticas e tornados é frágil pelo conhecimento hoje existente.

Em seu capítulo 3, o IPCC AR6 afirma que “Há baixa confiança nas tendências observadas DE fenômenos de pequena escala, como tornados e granizo, devido à falta de homogeneidade dos dados e inadequações no monitoramento”. Acrescenta que a baixa confiabilidade se deve à competição física nos processos que podem afetar tendências futuras assim como a incapacidade de os modelos climáticos simularem tais fenômenos.

Quase nada sobrou de pé por os tornados passaram com devastação absoluta em vários pontos do Oeste do estado norte-americano do Kentucky | JOHN AMIS/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Os tornados precisam de mais do que ar quente e úmido. Eles se formam em um ambiente muito completo de condições propícias como forte cisalhamento do vento vertical (ventos que mudam e se fortalecem com a altura) e uma camada dois a seis quilômetros acima da superfície que é quente e seca, mas não muito quente.

Tais componentes são difíceis de identificar em modelos de previsão para o dia seguinte e muito menos em modelos de clima com tendências para décadas. No entanto, o rápido progresso no desenvolvimento dos modelos com o aumento da capacidade de processamento pode levar a mais informações sobre tornados e mudanças climáticas nos próximos anos, conforme evoluem as pesquisas.

“Tempestades, tornados e fenômenos relacionados não são bem observados em muitas partes do mundo. Ocorrência de tornado desde 1950 nos Estados Unidos, por exemplo, apresentam uma tendência crescente que principalmente reflete o aumento da densidade populacional e o aumento do número de pessoas em áreas remotas. Tais tendências fazem aumentar a probabilidade de que um tornado seja observado”, diz o IPCC.

O painel do clima observa os fatores físicos que competem e dificultam enxergar uma tendência de tornados futura impactada pelas mudanças climáticas. Se por um lado há um aumento nas concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa que causam algumas das condições atmosféricas propícias para tornados, como instabilidade atmosférica pelo incremento da temperatura e da umidade, por outro diminui o cisalhamento vertical pelo menor gradiente de temperatura Polo-Equador resultante do aquecimento planetário.

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