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Cenário de devastação no município fluminense de Petrópolis na manhã de 16 de fevereiro de 2022 após chuva excepcional de quase 300 mm em apenas quatro horas que trouxe inundações, desabamentos e quase duas centenas de deslizamentos de terra que soterraram muitas dezenas de pessoas e deixam a cidade em situação de calamidade | CARL DE SOUZA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A situação sinótica (sistemas meteorológicos em atuação) será muito diferente, mas a natureza da chuva que trará volumes extremos para áreas do Nordeste do Rio Grande do Sul e o Sul e o Leste de Santa Catarina será a mesma que foi responsável pelo desastre do dia 15 de fevereiro em Petrópolis, na Região Serrana no estado do Rio de Janeiro com 230 mortos e muitos danos, e que se repetiu em março com menor proporção nas consequências, embora os volumes mais altos.

O que vai acontecer no Sul do Brasil? Uma área de baixa pressão alongada reforça a chuva hoje no Sul do país com intensificação das precipitações principalmente sobre a Metade Norte do Rio Grande do Sul que terá um dia de tempo encoberto com chuva a qualquer hora e que será forte a torrencial por vezes em alguns pontos, acompanhada de trovoadas.


Grande número de cidades da Metade Norte gaúcha terá chuva nesta segunda-feira ao redor ou acima de 50 mm com marcas de 75 mm a 100 mm e isoladamente superiores no Nordeste do Estado. A chuva afeta também grande parte de Santa Catarina e áreas mais ao Sul do Paraná.

Nesta terça-feira, um vórtice ciclônico (também conhecido em Meteorologia como baixa fria) vai se organizar e progredir do Nordeste da Argentina e avançar para áreas a Oeste do Sul do Brasil. O sistema vai contribuir para aumentar ainda mais a instabilidade e generalizar a chuva pelo Sul do Brasil com precipitação ao longo da terça-feira em quase todos os municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná.


A chuva durante a terça-feira, com o vórtice ciclônico passando a atuar no Sul do Brasil, vai ter período de moderada a forte em muitas cidades com precipitações localmente torrenciais que podem despejar altos volumes localizados em curto período. Entre o Nordeste gaúcho e o Sul de Santa Catarina a chuva ganha mais força.

Entre terça e quarta-feira, o vórtice ciclônico vai estar sobre o Sul do Brasil e entrará em fase com centro de baixa pressão em superfície, dando origem a um ciclone extratropical com a área de baixa pressão presente em baixos, médios e altos níveis da atmosfera. Com isso, a chuva vai se intensificar muito sobre o Nordeste do Rio Grande do Sul e o Sul e o Leste de Santa Catarina.

O ciclone extratropical trará vento por vezes moderado a forte do mar para o continente, o que popularmente é conhecido como “Lestada” pelos catarinenses, transportando grande volume de umidade da região oceânica em direção ao continente, criando o cenário para acumulados de precipitação excepcionalmente altos.

Será quando a chuva passará a ter natureza orográfica nas áreas com previsão de acumulados mais extremos de precipitação, junto a Leste da Serra e o setor mais Norte perto da Serra no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, e o Sul e o Leste de Santa Catarina. O intenso fluxo de ar úmido vindo do mar pela circulação ciclônica vai gerar chuva com volumes extremamente altos nestas áreas.

A chuva orográfica é a precipitação induzida pelo relevo. Umidade que vem do oceano, trazida por vento do quadrante Sul a Leste, em razão de uma massa de ar frio de trajetória oceânica ou um ciclone, ao encontrar a barreira do relevo da Serra do Mar, ascende na atmosfera e encontra temperatura mais baixa à medida que ascende na atmosfera com camadas mais frias. Isso leva à condensação e à ocorrência de chuva induzida pelo relevo.

Em um exemplo bem didático e simples de entender. O que acontece se você chega na frente de um espelho e soltar ar da sua boca? O espelho que tem uma superfície mais fria vai ficar embaçado (úmido) e molhado. Com a chuva orográfica ocorre o mesmo. O ar mais úmido e quente (analogia com ar que sai da boca) encontra um obstáculo físico que é o relevo (como o espelho) e ao chegar nesta barreira que são os morros sobe na atmosfera e encontra temperatura mais baixa, condensando-se o vapor de água e formando chuva.

Episódios de chuva orográfica são de alto risco porque costumam trazer acumulados de precipitação muito altos e que não raro até acabam superando as projeções dos modelos numéricos. Estas simulações computadorizadas estão a indicar volumes extraordinariamente altos para uma zona entre o Nordeste do Rio Grande do Sul, na borda do Parque Nacional dos Aparados da Serra e mais ao Norte no Litoral Norte gaúcho assim como no Sul e no Leste de Santa Catarina.

Veja que nas últimas projeções de chuva acumulada dos modelos Icon (Alemanha) e ECMWF (Centro Meteorológico Europeu) os volumes previstos para estas áreas mencionadas são por demais extremos com marcas de 200 mm a 300 mm e acumulados isolados tão altos quanto 400 mm a 500 mm. O modelo Icon, por exemplo, chega a indicar 500 mm a 600 mm isoladamente.

O nosso modelo de maior resolução, o WRF (Weather and Reserch Forecasting Model) prevê cenário quase idêntico com marcas até 21h de quarta-feira de 250 mm a 450 mm para o extremo Nordeste gaúcho e uma faixa que vai do Sul de Santa Catarina até a capital Florianópolis.

Santa Catarina, por ter a Serra do Mar no Leste do seu território, de Sul a Norte, diferentemente do Rio Grande do Sul que na sua faixa litorânea tem relevo a Oeste apenas mais ao Norte, acaba tendo um histórico de eventos de chuva orográfica com episódios extremos de precipitação e alguns com consequências trágicas.

O mesmo ocorre com frequência nos litorais de São Paulo e no Rio de Janeiro. No começo de abril, o maior volume de chuva da história da fluminense Angra dos Reis trouxe acumulados na região da Costa Verde do Rio de Janeiro tão absurdamente altos quando 700 mm a 800 mm com inundações e deslizamentos.

No desastre de 15 de fevereiro deste ano, Petrópolis teve a formação de um temporal enquanto uma frente fria passava pelo estado do Rio de Janeiro. Uma corrente de vento úmido que vinha do mar encontrou a barreira da Serra e choveu de forma extraordinária em curto período na cidade.

Alguns pontos de Petrópolis tiveram até 300 mm em tão-somente três horas enquanto em partes do município a precipitação foi muito inferior, com registros entre 50 mm e 100 mm. Os maiores volumes se deram justamente próximos de elevações, como o Morro da Oficina, onde se registraram os piores deslizamentos e grande parte das vítimas do desastre.

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