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Um leão-marinho permanece no gelo na Baía de Chiriguano, nas Ilhas Shetland do Sul, na Antártida, onde no Leste do continente gelado hoje a temperatura está 35ºC acima do normal para esta época do ano | JOHAN ORDONEZ /AFP/METSUL METEOROLOGIA

Uma onda de temperatura elevada – para os padrões locais – com desvios absurdamente altos da climatologia histórica atinge neste momento o planalto do Leste da Antártida, no setor do continente gelado voltado para a Austrália. A temperatura na região está 30ºC a 35ºC acima do que é normal.


Para se ter ideia do nível absurdo do desvio da climatologia que se observa no momento no Leste da Antártida, se ocorresse uma temperatura 35ºC acima da média em janeiro em Porto Alegre a máxima na capital gaúcha à sombra seria de 65ºC, uma vez que a média máxima histórica da cidade é de 30ºC.

Gaétan Heymes, especialista em neve do programa antártico do serviço meteorológico MetéoFrance, da França, afirma que “este é um evento climatológico de magnitude tão extraordinária quanto a intensa onda de calor na Columbia Britânica em junho de 2021”.


Para muitos especialistas, o calor registrado na província canadense e no Noroeste dos Estados Unidos em junho de 2021 foi o mais extremo evento de temperatura alta já observado pela Meteorologia.

O Canadá teve seu recorde de temperatura máxima de todos os tempos com 49,6ºC na cidade de Lytton, logo depois destruída por um incêndio florestal dias após o recorde de quase 50ºC.

Recordes de máximas

O aquecimento excepcional derruba uma série de recordes históricos. A base Vostok, que detém o recorde de temperatura mais baixa já registrada no planeta, com -89,2ºC em 21/7/1983, teve nesta sexta uma temperatura máxima de -17,7ºC.

Quase 18ºC abaixo de zero é muito frio, mas o recorde de hoje de máxima na estação a 3.500 metros de altitude na Antártida bate o recorde anterior em impressionantes 15ºC. Vostok mantém dados por 60 anos.

Outras estações na Antártida também tiveram recorde de máxima absoluta. Concordia (a 3234 metros de altitude) anotou -12,2ºC, marca quase 40ºC acima do normal. A estação Dome C II, a 3250 metros, teve recorde de máxima com -10,1ºC. O mesmo ocorreu em D-47 (1560 metros) com -3,3ºC e na base Terra Nova com 7ºC positivos.

O aquecimento extraordinário que se observa no momento no Leste da Antártida se deve a um padrão de escoamento da atmosfera gerado por uma poderosa crista (centro de alta pressão atmosférico) que levou um rio atmosférico com umidade e ar mais quente da Austrália para o continente gelado.

Menos gelo na Antártida

A temperatura absurdamente alta não afetará o gelo no Planalto do Leste da Antártida porque segue muito abaixo de 0ºC, entretanto em áreas de menor altitude pode levar ao derretimento de geleiras, ao colapso de blocos de gelo e perda de gelo marinho no oceano.

A cobertura de gelo marinho na Antártida, aliás, atingiu neste verão o seu menor mínimo desde que tiveram início as observações por satélite no final da década de 70. Pela primeira vez a extensão caiu abaixo de 2 milhões de quilômetros quadrados, atingindo uma extensão mínima de 1,92 milhão de quilômetros quadrados em 25 de fevereiro.

A taxa média de degelo durante a maior parte de fevereiro ficou em cerca de 40.000 quilômetros quadrados por dia, mas o declínio diminuiu significativamente para cerca de 15.000 quilômetros quadrados por dia no final do mês.

Após a extensão máxima do gelo marinho incomumente precoce e acima da média em 1º de setembro de 2021, houve um rápido declínio na extensão do gelo marinho durante a primavera do ano passado e o verão austral de 2022, com a característica mais notável sendo o desaparecimento do gelo de setores dos mares de Ross e Amundsen durante janeiro e fevereiro assim como a perda de gelo da região Noroeste do Mar de Weddell.

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