Os oceanos do planeta vivem um momento sem precedentes nas observações modernas. Há mais de 50 dias consecutivos, a temperatura média da superfície dos mares permanece em níveis recordes para esta época do ano, evidenciando um acúmulo excepcional de calor no sistema climático terrestre e reforçando os sinais de um planeta em acelerado aquecimento.

Mapa de anomalia de temperatura dos oceanos

NASA

A sequência de recordes começou no mês passado, quando a temperatura média diária da superfície dos oceanos superou as máximas registradas para o mesmo período do calendário em anos anteriores.

Desde então, os valores permaneceram acima de todos os registros históricos para a época, estabelecendo uma das mais longas sequências de calor oceânico já observadas. A temperatura média global da superfície dos oceanos, excluindo as regiões polares, alcançou cerca de 21°C, um valor extremamente elevado para uma média que engloba praticamente todos os mares do planeta.

O dado preocupa porque não representa apenas um pico isolado de temperatura, mas uma condição persistente. Em vez de um breve episódio de aquecimento, os oceanos permanecem excepcionalmente quentes por semanas consecutivas, indicando que continuam absorvendo enormes quantidades de energia.

Para os climatologistas, a persistência dos recordes é muito mais significativa do que um valor extremo registrado em apenas um ou dois dias. Os mares funcionam como o principal regulador térmico da Terra. Eles cobrem cerca de 71% da superfície do planeta e absorvem mais de 90% do excesso de calor provocado pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

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Sem esse gigantesco reservatório natural, a temperatura do ar já teria aumentado muito mais. Em compensação, o conteúdo de calor dos oceanos vem crescendo continuamente, estabelecendo novos recordes em diferentes indicadores.

CLIMATE REANALYZER

A temperatura da superfície do mar, conhecida internacionalmente pela sigla SST (Sea Surface Temperature), corresponde ao calor presente nos primeiros centímetros da água. Embora represente apenas uma fina camada superficial, ela exerce enorme influência sobre o funcionamento do clima global.

É dela que dependem processos fundamentais como a evaporação, a formação de nuvens, o desenvolvimento de tempestades, a intensidade dos ciclones tropicais e as trocas de calor entre o oceano e a atmosfera.

Quando essa camada superficial permanece muito aquecida durante semanas ou meses, os oceanos passam a fornecer muito mais energia para a atmosfera. O resultado é um ambiente mais favorável à ocorrência de eventos meteorológicos extremos, como chuvas torrenciais, tempestades severas, ciclones tropicais mais intensos e episódios de precipitação excepcionalmente elevados. Quanto mais quente a água, maior a evaporação e maior a quantidade de vapor disponível para alimentar esses sistemas.

O fortalecimento do El Niño no Oceano Pacífico Equatorial contribui para esse cenário, elevando ainda mais as temperaturas da superfície do mar. Entretanto, os cientistas destacam que o fenômeno natural não explica sozinho o calor observado.

O El Niño atua sobre uma tendência de longo prazo de aquecimento dos oceanos provocada pelas mudanças climáticas. Em outras palavras, o fenômeno intensifica um sistema que já se encontrava aquecido antes mesmo de sua instalação.

As temperaturas acima da média não se limitam ao Pacífico. Grandes áreas do Atlântico Norte, do Mediterrâneo, do Oceano Índico e de outras regiões apresentam extensas ondas de calor marinhas, algumas das mais intensas já documentadas. Em alguns setores do Mediterrâneo, por exemplo, a temperatura da água se aproxima dos 30°C, valores normalmente encontrados apenas em mares tropicais.

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As consequências desse aquecimento vão muito além da atmosfera. Ondas de calor marinhas favorecem o branqueamento de corais, alteram a distribuição de espécies de peixes, reduzem a disponibilidade de nutrientes em algumas regiões e aumentam a mortalidade de organismos sensíveis às mudanças de temperatura.

Os impactos atingem diretamente a biodiversidade marinha e atividades econômicas como a pesca e o turismo. Outro efeito importante está relacionado ao nível dos oceanos.

À medida que a água aquece, ela se expande, fenômeno conhecido como expansão térmica. Esse processo, somado ao derretimento acelerado de geleiras e mantos de gelo continentais, contribui para a elevação do nível médio do mar, aumentando o risco de erosão costeira, inundações, ressacas e perdas de áreas litorâneas em diversas partes do mundo.

Os oceanos também respondem muito mais lentamente às mudanças climáticas do que a atmosfera. Enquanto a temperatura do ar pode variar significativamente de um ano para outro, o calor armazenado nas águas permanece durante décadas. Por isso, uma sequência superior a cinquenta dias consecutivos de recordes é considerada um dos sinais mais robustos de que o planeta continua acumulando energia em ritmo acelerado.

Os próximos meses serão decisivos para avaliar a intensidade desse aquecimento dos oceanos. Historicamente, a temperatura média global da superfície dos oceanos costuma atingir seus maiores valores entre julho e agosto. Caso a sequência de recordes prossiga, 2026 poderá consolidar um novo marco histórico para o calor dos mares, reforçando a evidência de que os oceanos entraram em um patamar sem precedentes nas observações modernas.