Um estudo publicado na revista Science encontrou evidências de que os grandes episódios de El Niño das últimas quatro décadas estão fora do padrão observado durante grande parte do último milênio. A pesquisa, baseada em registros preservados em corais das Ilhas Galápagos, indica que os eventos recentes foram, em média, quase 40% mais intensos do que os registrados na era pré-industrial.

El Niño de 2023-2024 provocou maior enchente da história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul | ANSELMO CUNHA/AFP/METSUL
Os pesquisadores concluíram ainda que os El Niños ocorridos nos últimos 40 anos foram mais fortes do que qualquer episódio identificado nos mil anos anteriores a aproximadamente 1850, período que marca o início da influência humana significativa sobre o clima por meio do aumento das emissões de gases de efeito estufa.
O resultado ganha importância adicional diante do atual cenário do Pacífico tropical. Um novo El Niño de intensidade excepcional está em desenvolvimento em 2026, em um planeta que já apresenta temperaturas médias muito acima dos padrões históricos. Para os cientistas, isso levanta uma questão importante sobre a interação entre a variabilidade natural do clima e o aquecimento provocado pelas atividades humanas.
O El Niño é a fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul, conhecido como ENSO, que ocorre naturalmente a cada poucos anos. Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo da faixa equatorial do Pacífico, transportando águas superficiais quentes em direção à Indonésia e à Austrália.
Quando esses ventos enfraquecem, parte desse enorme volume de água quente se desloca para leste, em direção à costa da América do Sul. O aquecimento do Pacífico tropical modifica a circulação atmosférica e altera a distribuição das áreas de chuva, produzindo efeitos que podem ser sentidos a milhares de quilômetros de distância.
Uma das principais mudanças ocorre na distribuição das chuvas. Durante episódios de El Niño, a convecção e as precipitações tendem a se deslocar do oeste do Pacífico para áreas mais centrais e orientais do oceano. Esse rearranjo modifica os padrões atmosféricos e pode provocar secas em algumas regiões e chuva excessiva em outras.
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O fenômeno está associado a importantes alterações climáticas em diferentes partes do mundo, com impactos sobre agricultura, disponibilidade de água, incêndios florestais, enchentes e ecossistemas. Por isso, compreender se os grandes El Niños estão ficando mais intensos é fundamental para avaliar os riscos climáticos das próximas décadas.
Uma história preservada nos corais
O desafio para os pesquisadores é que as medições instrumentais detalhadas da temperatura do oceano abrangem apenas um período relativamente curto. Para investigar o comportamento do El Niño em épocas anteriores, a equipe liderada pela climatologista Julia Cole utilizou corais das Galápagos, uma região particularmente sensível às mudanças provocadas pelo fenômeno.
Foram analisados 13 testemunhos de corais, incluindo colônias vivas e fragmentos de corais antigos. Esses organismos crescem lentamente, depositando camadas de carbonato de cálcio que preservam informações sobre as condições do ambiente marinho no momento em que cada camada foi formada.
Os pesquisadores estudaram os testemunhos milímetro a milímetro e analisaram a composição química do esqueleto dos corais. Entre os indicadores utilizados estava a proporção entre estrôncio e cálcio, que varia conforme a temperatura da água, além da relação entre diferentes isótopos de oxigênio.
Os registros permitiram reconstruir as variações da temperatura do oceano nas Galápagos durante períodos muito anteriores à existência de estações meteorológicas e instrumentos modernos. Como os eventos extremos de El Niño deixam uma assinatura térmica nos corais, foi possível identificar e comparar episódios ocorridos ao longo de aproximadamente mil anos.
O padrão encontrado foi considerado particularmente claro pelos pesquisadores. Durante grande parte do período analisado, os El Niños apresentaram intensidade relativamente semelhante e mais baixa. A partir das últimas quatro ou cinco décadas, porém, surgem eventos muito mais fortes, coincidindo com o período de maior aceleração do aquecimento global.
Fatores naturais não explicam a mudança
Os cientistas também investigaram se a intensificação poderia ser resultado de fatores naturais. Para isso, utilizaram modelos climáticos capazes de reproduzir as condições do último milênio, incluindo informações sobre grandes erupções vulcânicas e variações na atividade solar.
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Os modelos não apresentaram mudanças na intensidade do El Niño de magnitude semelhante à observada nos registros dos corais. Segundo os pesquisadores, isso indica que as oscilações naturais conhecidas não parecem suficientes para explicar o fortalecimento dos eventos observado nas últimas décadas.
A conclusão não significa que cada El Niño individual seja causado pelo aquecimento global. O fenômeno continua sendo uma parte natural do sistema climático. O que a pesquisa sugere é que o aquecimento do planeta pode estar alterando o ambiente no qual o ENSO ocorre e favorecendo episódios de maior intensidade.
A mudança tem consequências importantes porque os efeitos do El Niño podem se somar ao aquecimento global. Um evento forte normalmente provoca um aumento temporário da temperatura média mundial, mas esse aquecimento ocorre agora sobre uma atmosfera e uma superfície oceânica que já estão mais quentes do que no passado.
Isso pode contribuir para que determinados extremos climáticos atinjam níveis ainda maiores. Secas prolongadas, chuvas intensas, enchentes, ondas de calor e incêndios podem ser agravados pela combinação entre a variabilidade associada ao El Niño e uma temperatura média global mais elevada.
Os registros das Galápagos, portanto, acrescentam uma perspectiva histórica fundamental ao debate. Em vez de analisar apenas algumas décadas de observações instrumentais, os pesquisadores conseguiram comparar o comportamento recente do El Niño com aproximadamente mil anos de história climática preservada nos oceanos.
O resultado aponta que os grandes El Niños das últimas quatro décadas são excepcionais no contexto desse período. Para os cientistas, a descoberta reforça a necessidade de compreender melhor como o aquecimento global está modificando o ENSO e quais poderão ser as consequências de eventos extremos mais intensos em um planeta cada vez mais quente.