Os megaincêndios florestais que atingem a França, a Espanha, Portugal, Itália e outros países europeus neste verão são resultado da combinação de sucessivas ondas de calor, seca prolongada, vegetação extremamente ressecada e condições atmosféricas que favorecem a rápida propagação das chamas. A soma desses fatores criou um cenário considerado ideal para incêndios de grandes proporções, capazes de avançar rapidamente e desafiar até mesmo os mais modernos sistemas de combate ao fogo.

Foto mostra megaincêndios na França

LILIAN AUFFRET/HANS LUCAS/AFP/METSUL

O verão europeu de 2026 vem sendo marcado por uma sucessão incomum de ondas de calor. Em muitas regiões da Europa Ocidental, esta já é a terceira grande onda de calor desde maio, com temperaturas frequentemente acima dos 40°C. Na França, diversas áreas registraram valores muito superiores à média histórica durante semanas consecutivas, reduzindo drasticamente a umidade da vegetação.

Mas o calor, sozinho, não explica a dimensão dos megaincêndios. O principal combustível das chamas é a vegetação seca. Árvores, arbustos e gramíneas perderam grande parte da água armazenada em seus tecidos após meses de déficit hídrico e evaporação intensa. Quando um foco de incêndio surge — seja por causa natural ou por ação humana — o fogo encontra material altamente inflamável e se espalha com enorme velocidade.

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Os cientistas chamam atenção para um fenômeno que vem ganhando importância na Europa: as chamadas “secas quentes”. Diferentemente das secas tradicionais, provocadas principalmente pela falta de chuva, esse novo tipo de estiagem é impulsionado pelo calor extremo. Mesmo em locais onde a precipitação não ficou muito abaixo da média durante o inverno e a primavera, as temperaturas excepcionalmente elevadas fazem a atmosfera retirar água do solo e da vegetação em ritmo muito acelerado.

Esse processo é conhecido como aumento da demanda evaporativa da atmosfera. Em termos simples, quanto mais quente o ar, maior sua capacidade de retirar umidade do ambiente. Os solos secam mais rapidamente, rios e reservatórios perdem água por evaporação e a vegetação entra em estresse hídrico semanas antes do que ocorria no passado. É justamente essa combinação que transforma florestas inteiras em combustível para incêndios.

Na França, mesmo regiões que tiveram um inverno relativamente úmido viram o solo e a cobertura vegetal secarem rapidamente durante as sucessivas ondas de calor. O calor persistente acelerou a evaporação e reduziu a umidade disponível na vegetação, deixando grandes áreas florestais extremamente vulneráveis ao fogo.

Outro fator importante é o vento. Durante grandes incêndios, ventos moderados ou fortes fornecem oxigênio às chamas, transportam brasas por centenas de metros e favorecem o surgimento de novos focos muito à frente da linha principal de fogo. Em incêndios mais intensos, o próprio calor gerado pelas chamas pode criar correntes de ar capazes de tornar o comportamento do fogo altamente imprevisível e dificultar o trabalho das equipes de combate.

Além das condições meteorológicas, mudanças na ocupação do território também aumentaram o risco de megaincêndios. O abandono de áreas rurais em diversos países europeus permitiu o acúmulo de vegetação seca nas últimas décadas. Esse excesso de combustível favorece incêndios muito maiores do que os registrados no passado, principalmente quando coincide com calor extremo, baixa umidade e vento.

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Mapa de onda de calor na Europa

Onda de calor excepcional atingiu a Europa na segunda metade de junho | COPERNICUS

Outro aspecto observado pelos pesquisadores é que as ondas de calor estão ocorrendo com maior frequência e duração. Elas chegam mais cedo, permanecem por mais tempo e se repetem diversas vezes durante o verão, impedindo que a vegetação recupere parte da umidade entre um episódio e outro. Como consequência, a temporada de incêndios se estende por semanas ou até meses, ampliando significativamente o período de risco.

Os cientistas também apontam que o aquecimento global está alterando a circulação atmosférica sobre a Europa, favorecendo verões mais quentes e, em muitas regiões, mais secos. Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas intensifica a evaporação e reduz ainda mais a disponibilidade de água no solo, criando um ambiente cada vez mais propício à ocorrência de incêndios de grandes proporções.

O resultado é que as temporadas de fogo estão se tornando mais longas, mais intensas e mais destrutivas. Países como a França vêm registrando incêndios em regiões onde esse tipo de evento era raro há poucas décadas, enquanto áreas tradicionalmente vulneráveis do sul da Europa enfrentam temporadas cada vez mais severas. A combinação de calor extremo, seca persistente e vegetação altamente inflamável transformou os incêndios florestais em uma das maiores ameaças ambientais e climáticas do continente europeu.