A maior tempestade de neve em anos nos Andes entre o Chile a Argentina transformou a cordilheira em um cenário de isolamento, resgates e caos logístico. A nevasca, que já dura mais de uma semana em alguns setores, deixou rodovias bloqueadas, comunidades isoladas, milhares de caminhões parados e exigiu uma ampla mobilização das equipes de emergência em diferentes províncias.

Fotos da neve nos Andes

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As áreas mais atingidas estão em Mendoza, San Juan, Catamarca, Neuquén e parte da Patagônia, no lado da Argentina. Em diversos pontos da alta montanha, a neve acumulada chegou a quatro metros de altura, soterrando acessos, bloqueando estradas e dificultando até mesmo o deslocamento das máquinas encarregadas da remoção da neve.

O principal impacto ocorre no corredor internacional Cristo Redentor, a mais importante ligação terrestre entre Argentina e Chile, por onde passam muitos caminhões vindos do Brasil com carga de importação de exportação. A passagem permanece fechado há cerca de dez dias em razão das condições extremas de neve, gelo e baixa visibilidade, interrompendo praticamente todo o transporte internacional de cargas entre os dois países.

O fechamento provocou um enorme congestionamento de caminhões. Segundo as autoridades da província de Mendoza, aproximadamente 1.550 veículos de carga aguardam a reabertura da fronteira. Parte deles permanece na região de Uspallata e da alta montanha, enquanto centenas foram deslocados para áreas de estacionamento e centros logísticos no leste da província.

Mesmo quando o corredor voltar a operar, a normalização não será imediata. O governo de Mendoza estima que serão necessários entre cinco e seis dias para liberar toda a fila de caminhões acumulada durante o fechamento. A passagem funciona com horário reduzido no inverno e, normalmente, consegue processar entre 500 e 600 caminhões por dia.

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Para evitar o colapso da Ruta Nacional 7, as autoridades prepararam áreas de contenção capazes de receber centenas de caminhões, permitindo que a liberação seja feita de forma escalonada conforme as condições de segurança na cordilheira.

Enquanto isso, o prejuízo econômico aumenta diariamente. Cada caminhão parado representa custos elevados com combustível, alimentação, hospedagem dos motoristas, seguros e atrasos nas entregas. O impacto também se estende às empresas que dependem das mercadorias transportadas entre Argentina e Chile, especialmente cargas refrigeradas e produtos com prazo de entrega rigoroso.

A tempestade também colocou em risco moradores e turistas. Em Mendoza, a Gendarmería Nacional realizou diversas operações de resgate em áreas isoladas pela neve. Um dos casos mais conhecidos envolveu duas famílias da província de Santa Fé que viajaram para conhecer a neve na região de Penitentes e acabaram presas pelo temporal.

Entre os turistas havia um bebê de apenas quatro meses. Durante a madrugada, a intensidade da nevasca aumentou rapidamente e, ao amanhecer, a neve já atingia a altura da cintura dos visitantes. Sem condições de retornar e com a necessidade de alimentar a criança, o grupo pediu socorro e foi retirado da montanha em segurança por equipes da Gendarmería.

Em outra operação, equipes de resgate localizaram uma mulher desaparecida nas proximidades do Cerro 21, perto de Esquel, na província de Chubut. Ela foi encontrada com sinais iniciais de hipotermia após horas de buscas sob vento forte e visibilidade muito reduzida.

O trabalho para restabelecer a circulação mobiliza um dos maiores esquemas de manutenção de inverno da Argentina. A Direção Nacional de Vialidade informou que o Plano Integral de Manutenção Invernal 2026 cobre mais de 7.800 quilômetros de rodovias nacionais em Mendoza e nas províncias patagônicas.

Mais de 450 agentes e cerca de 350 equipamentos trabalham continuamente na remoção da neve, aplicação de salmoura, monitoramento das condições meteorológicas, atendimento aos motoristas e limpeza das pistas. Em muitos trechos, porém, o objetivo deixou de ser manter a estrada aberta e passou a ser evitar acidentes diante da intensidade das nevascas.

Em várias localidades da cordilheira, moradores permanecem praticamente isolados. As equipes de emergência concentram esforços no abastecimento de alimentos, medicamentos e insumos básicos, além do atendimento a produtores rurais que enfrentam dificuldades para proteger rebanhos e acessar propriedades cobertas por espessas camadas de neve.

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No Chile, o maior temporal de neve dos últimos anos deixa acumulações extraordinárias que chegam a superar 5 metros em apenas seis dias. O episódio, provocado por sucessivos sistemas frontais alimentados por um intenso rio atmosférico vindo do Pacífico, mudou radicalmente o cenário das principais estações de esqui do país.

A estação de Portillo foi a mais afetada, registrando mais de 4,5 metros de neve nova. Prédios, teleféricos, máquinas e veículos ficaram parcialmente soterrados, enquanto equipes trabalham sem interrupção para remover a neve e restabelecer o funcionamento da infraestrutura. O acesso rodoviário ao complexo permanece restrito devido ao risco de avalanches.

Outras estações também receberam volumes excepcionais. Valle Nevado acumulou 2,44 metros de neve em sete dias, La Parva registrou mais de 3,6 metros durante o temporal e El Colorado contabilizou cerca de 2,8 metros. Embora as condições para a prática do esqui tenham melhorado de forma expressiva, a reabertura de pistas ocorre de maneira gradual após avaliações de segurança.

O temporal também provocou graves consequências fora das áreas turísticas. Na região de Atacama, uma mulher de 53 anos morreu após ser atingida por uma avalanche de neve, enquanto outra idosa foi encontrada sem vida em uma área isolada. Na Região Metropolitana de Santiago, equipes de resgate e policiais ainda salvaram um burro que permaneceu preso sob mais de 1,5 metro de neve.

Os serviços meteorológicos argentinos e chilenos alertam que novas nevadas ainda são esperadas na cordilheira nos próximos dias. Mesmo após o fim da tempestade, a recuperação será lenta. Grandes paredões de neve permanecerão às margens das estradas, haverá risco de formação de gelo e avalanches, e a circulação continuará restrita em diversos setores da alta montanha até que as condições de segurança sejam completamente restabelecidas.