O que causou o dilúvio na Europa? As imagens que chegam da Europa Ocidental de cidades devastadas e sob as águas de inundações na Alemanha, Bélgica e Holanda impressionam o mundo. As chuvas no Oeste da Alemanha foram as mais intensas em pelo menos um século e o saldo de vítimas não para de aumentar com mais de 150 mortos e um número ainda indeterminado de desaparecidos que chegariam a centenas.

Carros e caminhões submersos neste sábado na rodovia federal B265 em Erftstadt, oeste da Alemanha, depois que fortes chuvas atingiram partes do país com inundações generalizadas e grandes danos. | Sebastien Bozon/AFP/MetSul Meteorologia
A chuva que castigou a região não foi provocada por nenhum fenômeno ou uma condição meteorológica nova que não sejam conhecidos ou não tenham atingido antes a Europa e outras partes do mundo.
Foi uma condição sinótica envolvendo massas de ar de alta pressão que favoreceu uma área de baixa pressão segregada (cut-off low) que resultou na chuva.
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Baixa segregada, de aspecto ciclônico, responsável pela chuva extrema, atuando na Europa Central na metade da semana | Meteosat
Nesse sentido, o padrão atmosférico na última semana no continente europeu durante a semana foi caracterizado por bloqueios atmosféricos que permitiu o surgimento de uma área de baixa pressão segregada (em altitude) da corrente de jato (corrente de vento muito forte a cerca de 10 a 12 mil metros de altitude).
As correntes de jato são mais fracas no Hemisfério Norte nesta época do ano e ondulam mais, o que proporcionou a extrema onda de calor no Noroeste dos Estados Unidos e no Canadá, e agora a formação desta área de baixa pressão segregada sobre a Europa Central.
Esta área de baixa pressão em altura ficou “espremida” entre duas zonas de maior pressão de bloqueio atmosférico. Houve um excessivo ingresso de umidade a Oeste desta área de menor pressão atmosférica com valores altíssimos para a climatologia local de água precipitável, o que resultou numa grande quantidade de chuva.
A instabilidade associada a esta área de menor pressão atmosférica foi responsável ainda por causar tempo severo em diversos países da Europa entre terça e quarta-feira com tempestades fortes que assolaram a Itália, os Bálcãs, a região alpina e o Leste da Alemanha, mas os volumes extremos de chuva se deram no setor Oeste da Alemanha e na Bélgica, por onde ingressava ar muito úmido.
Chuva extrema foi prevista e alertada
Ademais, a chuva extrema não surpreendeu os meteorologistas europeus que alertavam para a situação de alto risco de precipitações extremas. Modelos meteorológicos de alta resolução projetavam volumes excessivamente altos para a parte ocidental da Alemanha e a Bélgica.
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Modelos meteorológicos de alta resolução na Alemanha indicavam que haveria um evento de chuva extrema | Deutscher Wetterdienst (DWD)
O Deutscher Wetterdienst (DWD), o serviço meteorológico alemão, emitiu diversos alertas em que advertiu para tempestades com chuva muito volumosa, excessiva e extrema, para os estados mais a Oeste do território alemão, notadamente Renânia do Norte-Vestfália e Renâmia-Palatinado que foram os mais castigados pela chuva e as inundações.

Serviço Meteorológico da Alemanha advertiu para chuva muito intensa em estados do Oeste alemão | Deutscher Wetterdienst (DWD)
Volumes generalizados de 100 mm a 150 mm foram registrados no Oeste da Alemanha em 24 horas entre quarta e quinta-feira. Os volumes são superiores às médias do mês de julho inteiro na região. Colonia, por exemplo, anotou 154 mm em apenas 24 horas, quase o dobro da sua média mensal histórica de precipitação de 87 mm.
Acumulados muito superiores foram registrados isoladamente nos estados do Oeste alemão. Na localidade de Reifferscheid, o acumulado de precipitação em apenas nove horas foi de 207 mm, o que acabou produzindo inundações repentinas muito graves na região. Houve medições locais de até 300 mm ou mais.