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Temporal causou devastação em Porto Alegre | @ADAMAZAKI/X

O temporal violento que se abateu sobre Porto Alegre na noite de terça-feira não pode ser visto como uma surpresa. Era uma ameaça que se enxergava por meses. Além do risco ter sido antecipado nas previsões do tempo, nos dias que precederam a tormenta, o risco foi antecipado também por meses nas análises de clima de longo prazo por conta da atuação do fenômeno El Niño.

Desde que o fenômeno El Niño foi declarado, no começo de junho de 2023, as análises e projeções de clima da MetSul Meteorologia reiteradamente advertiram que o padrão de circulação atmosférica impactado pelo Pacífico quente levaria a uma condição de temporais mais frequentes na primavera e durante o verão.


Em 25 de junho de 2023, a MetSul publicou análise em que advertia que o ciclone de uma semana antes, o primeiro evento extremo do período de atuação do El Niño era só o começo. “Alerta: ciclone foi o primeiro de vários eventos extremos e de alto impacto”, era o título da análise.

Foi exatamente o que se viu no final do inverno e durante a primavera do último ano com um padrão meteorológico hiperativo de ciclones, tempestades severas e eventos de chuva extrema, que levaram a várias enchentes e algumas das maiores da história do Rio Grande do Sul com consequências trágicas em perdas de vida e patrimônio.


“Temporais tendem a ser mais frequentes do que o habitual neste verão com risco aumentado de vendavais. Estes temporais, muito intensos e por vezes destrutivos tendem a ocorrer principalmente em dias de calor excessivo. Um memorável é o de 29 janeiro de 2016 em Porto Alegre, sob forte El Niño, quando a capital teve vento extremamente forte, muitos estragos e a queda de milhares de árvores”, escreveu a meteorologista Estael Sias em dezembro no primeiro dia da atual estação.

Na última sexta-feira, em boletim sobre um cenário elevado de risco nesta semana, a MetSul observava que “padrão atmosférico atual na América do Sul favorece uma condição de tempo severo em áreas centrais do continente maior do que normalmente observada durante o verão”. Acrescentava que “a segunda metade de janeiro tem um risco aumentado de episódios de tempo severo (..) com um perigoso evento de chuva e tempestades entre a terça e quarta da semana que vem”.

O que ocorre? Quando há El Niño, a tendência é de a atmosfera ser mais quente em grande parte do Brasil e com maior umidade no Rio Grande do Sul. Calor e umidade são os ingredientes principais de tempo severo. Assim, mais umidade, mais calor, maior risco de tempo severo.

Assim, não é nenhuma coincidência que janeiro em 2016 e 2024 tenham registrado tempestade severa de grande impacto na cidade de Porto Alegre e outros municípios. Os dois eventos se deram sob El Niño de forte intensidade atuando no Pacífico.

Conforme a mais recente atualização de dados semanal da NOAA, publicada no boletim da segunda-feira, a anomalia de temperatura da superfície do mar era de 1,9ºC na denominada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Centro-Leste.

Esta região é a usada oficialmente na Meteorologia como referência para definir se há El Niño e ainda avaliar qual a sua intensidade. O valor positivo de 1,9ºC está na faixa de transição de El Niño forte (+1,5ºC a +1,9ºC) a muito forte (igual ou acima de 2,0ºC que é de Super El Niño).

No final de janeiro de 2016, quando do grande temporal que se abateu sobre a cidade de Porto Alegre, o Pacífico estava ainda mais que agora. O último boletim do Pacífico de janeiro de 2016 informava uma anomalia de temperatura da superfície do mar de 2,7ºC, ou seja, dentro do patamar de um Super El Niño.

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