O calor beira níveis insuportáveis no Sudoeste dos Estados Unidos com marcas tão extremas que pessoas desmaiam e até morrem nas ruas sob a canícula persistente com máximas perto de 50ºC em alguns dias. A população pobre e moradores de rua são os mais vulneráveis com a maioria das vítimas na onda de calor. Hospitais registram movimento como não se via desde o auge da pandemia em Phoenix, no Arizona.

Dee Lee, de 34 anos, tenta se refrescar em meio ao calor escaldante em Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos | BRANDON BELL/GETTY IMAGES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Não bastassem os valores extremos de temperatura, o calor é extremamente prolongado e foge ao habitual. Phoenix nesta terça atingiu um marco meteorológico nada menos que miserável: foi a primeira vez que a cidade mediu 19 dias consecutivos de temperaturas de 110ºF (43,3ºC) ou mais, quebrando um recorde de 18 dias estabelecido em 1974.

As pessoas no Sudoeste dos Estados Unidos estão acostumadas a verões brutais e ao calor extremo, mas nada comparado ao que vem se enfrentando. Normalmente, as monções de verão trazem chuva que aliviam o calor, mas não neste verão em que uma bolha de calor impede a ocorrência de chuva. A cidade de Phoenix não registra precipitação mensurável desde 1º de abril.


As temperaturas são “muito extremas”, disse Matt Salerno, meteorologista do Serviço Nacional de Meteorologia, em Phoenix. “Estamos falando de marcas muito acima do normal”, afirma. A bolha de calor associada a um centro de alta pressão leva a muitos dias seguidos de tempo seco e extremamente quente com a piora do calor à medida que a bolha se fortalece.

Em 2022, 425 pessoas morreram de mortes associadas ao calor no condado de Maricopa, onde está Phoenix, a quinta maior cidade dos Estados Unidos, um aumento de 25% em relação a 2021, de acordo com o último relatório do Departamento de Saúde Pública de Maricopa.

O calor é particularmente brutal em um extenso acampamento de moradores sem-teto no centro de Phoenix, conhecido como “The Zone” (“A Zona”). A cidade retira lentamente as tendas quarteirão a quarteirão, uma medida polêmica que gera ações judiciais.


Profissionais de saúde que trabalham na área afirmam por suas contagens que o número de pessoas que vivem lá permaneceu o mesmo ou até aumentou. Quase não há árvores e pessoas sofreram queimaduras de segundo grau depois de desmaiar ou adormecer no asfalto quente e nas calçadas.

Morador de rua recebe água de voluntários na região das barracas nas ruas conhecida como “A Zona” de Phoenix | BRANDON BELL/GETTY IMAGES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

População de rua é a mais exposta aos riscos do calor extremo | BRANDON BELL/GETTY IMAGES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

As drogas agravam a crise. As pílulas de fentanil são baratas e difundidas nas ruas de Phoenix, e algumas pessoas que vivem nas ruas dizem que recorrem a opioides e metanfetamina para lidar com as condições brutais de se viver ao ar livre no verão. O uso de drogas foi um fator em mais da metade das 425 mortes relacionadas ao calor registradas no ano passado no condado.

Mas as duas últimas semanas de dias ininterruptos de marcas de 40ºC a 45ºC tornaram tudo pior. Voluntários e bombeiros lutam para resgatar moradores de rua que desmaiam em suas tendas, trabalhadores que colapsam ao sol nas ruas e idosos vulneráveis que tentam sobreviver e respirar dentro de casas sufocantes. Muitos são paramédicos treinados e estimam que cerca de 80% das chamadas do departamento dos bombeiros são emergências médicas.

Pessoa desmaiou pelo calor dentro de uma loja de conveniências de Phoenix e teve que receber cuidados médicos de emergência | BRANDON BELL/GETTY IMAGES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Policiais de Tucson, no Arizona, recolhem o corpo de uma pessoa moradora de rua falecida pelo calor. A temperatura corporal era de quase 39ºC no momento da descoberta do corpo sob calor extremo, em Estevan Park em Tucson. | REBECCA NOBLE/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Muitas pessoas não resistem ao calor que supera 43ºC todos os dias por quase três semanas seguidas | BRANDON BELL/GETTY IMAGES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Um morador de rua que chegou ao hospital com temperatura corporal de 41ºC. Há pessoas que se queimam na calçada com o pavimento que chega a entortar ou derreter pelo calor, crianças que desmaiam na prática de esportes e, ocasionalmente, condomínios que viram fornos quando o ar-condicionado deixa de funcionar.


À medida que as temperaturas escaldantes persistem, há 12 mortes confirmadas relacionadas ao calor e outras 55 sob análise no condado de Maricopa, mostram os dados do Departamento de Saúde Pública do Condado. Os números, entretanto, podem ser piores.

As temperaturas perigosamente altas também estão sobrecarregando os hospitais, pois as pessoas que sofrem de doenças relacionadas ao calor procuram tratamento. “O calor está cobrando um grande preço”, disse o médico de emergência Frank LoVecchio, do Valleywise Health Medical Center. “O hospital não estava tão cheio e transbordando de pacientes desde os piores dias da pandemia”, relatou à imprensa norte-americana.

“Leve o calor a sério e evite ficar muito tempo ao ar livre”, disse o serviço meteorológico. “As temperaturas e os índices de calor atingirão níveis que representam um risco à saúde e são potencialmente mortais para qualquer pessoa sem hidratação eficaz ou adequada”, advertiu o NWS.

População mais pobre e que mora nas ruas é de maior risco de choques de calor e mortes em Phoenix | BRANDON BELL/GETTY IMAGES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Morador de Phoenix busca abrigo do calor enquanto observa a previsão do tempo de calor extremo pela tevê no centro de resfriamento (cooling center) da Primeira Igreja Congregacional Unida de Cristo. A igreja abriu suas portas, fornecendo água, comida e refrescos para os moradores que buscam alívio do calor. | BRANDON BELL/GETTY IMAGES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

O calor é o assassino número um de todos os desastres naturais, mostram estudos, e à medida que as temperaturas continuam subindo, os cientistas esperam que isso deixe ainda mais pessoas doentes.

Phoenix tem um total de 60 estações de hidratação, 30 centros de resfriamento e quatro centros de descanso para aqueles que precisam de alívio do calor, disse Kelly Taft, diretora de comunicações da Maricopa Association of Governments.

No Valleywise Health Medical Center, LoVecchio disse que viu de três a quatro casos por turno de pacientes que enfrentaram a morte sem tratamento de emergência. Temperaturas corporais de 41ºC ou mais podem resultar em morte ou danos cerebrais permanentes. Segundo o médico, a temperatura corporal neste nível pode levar de cinco a 10 minutos para causar a morte de células cerebrais.

O diretor de comunicações do Valleywise Health Medical Center, Michael Murphy, disse à CNN que, em alguns casos extremos, eles estão colocando os pacientes em sacos mortuários cheios de gelo para ajudar a resfriá-los, acrescentando que o centro de queimados foi “lotado” com pacientes com queimaduras.

LoVecchio disse que o pavimento sob o sol pode atingir até 80ºC. As pessoas podem  desmaiar em calçadas por desidratação, insolação ou outra condição médica, levando às queimaduras em segundos e em alguns casos à morte.

Um aviso de calor extremo convida as pessoas a buscar abrigo dentro de uma igreja em Tucson, Arizona. “Está quente na rua, venha para dentro e refresque-se com Jesus”. | REBECCA NOBLE/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Não é apenas o Arizona que está sufocando no calor intenso: mais de 90 milhões de pessoas estão sob alerta de calor nos Estados Unidos. Saratoga Spring, localizada no extremo Sul do Parque Nacional do Vale da Morte (Death Valley), foi o local mais quente no domingo nos Estados Unidos com 53,9ºC.

Surpreendentemente, a Bacia de Badwater do Vale da Morte, depois de atingir um pico de temperatura de 53,6ºC no domingo à tarde, quase não viu a temperatura cair durante a noite, registrando uma temperatura de 48,9ºC entre meia-noite e uma da manhã, hora local, um ocorrência única na história do clima mundial.