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Dallas se cobriu de neve e teve segunda mais baixa temperatura da sua história com -18,9°C em uma série histórica que começou em 1898 | WFAA/Reprodução

A maior parte da Europa enfrenta até agora um fevereiro gélido. O Reino Unido anotou a menor temperatura desde 1995 e para fevereiro desde 1955. Alemanha e Holanda tiveram a maior nevasca em uma década. Madrid, na Espanha, sofreu com a maior nevasca em muitas décadas. Agora, as Planícies Centrais e parte do Sul dos EUA se vêem assolados por uma onda de frio de rara intensidade como não se via em décadas com recordes de mínimas e neve até no Golfo do México.

Situações como estas obviamente despertam dúvidas sobre o aquecimento global, mas o frio em nada afasta o fato que o planeta está aquecendo e seguirá esquentando no longo prazo sem medidas de mitigação de emissões de gases do efeito estufa.


A resposta está em dois conceitos básicos que todos aprendemos na escola. Tempo e clima. Usados com frequência como sinônimos na imprensa e em geral, são distintos. O tempo é a condição momentânea da atmosfera, o curto prazo. O clima é a condição de longo prazo, a média do tempo. O dia de hoje e o amanhã são o tempo, as condições dos últimos 12 meses são o clima.

Assim, o aquecimento do planeta é uma realidade do clima e o frio intenso de agora nos Estados Unidos e na Europa uma realidade do tempo presente. O aquecimento global é uma tendência estabelecida por muitas décadas. O frio muito intenso é uma tendência de poucos dias.

“Valer-se de um episódio de frio extremo para negar uma tendência de aquecimento do planeta seria o equivalente a dizer que uma semana de muita chuva no sertão nordestino seria uma prova que a região não é semi-árida e frequentemente seca”, observa a meteorologistas Estael Sias.

TENDÊNCIA DE LONGO PRAZO É O QUE IMPORTA

A meteorologista da MetSul Estael Sias destaca que ao longo da história o planeta passou por vários ciclos de aquecimento e resfriamento sem qualquer intervenção humana, por causas absolutamente naturais como eras geológicas, mas que o ritmo de aquecimento atual da Terra não tem precedentes. “Não é apenas o aquecimento, mas a velocidade com que está acontecendo, e isso não se explica por causas naturais”.

Gráfico da evolução da temperatura no planeta nos últimos 2020 anos | Zack Labe

Os sete anos mais quentes desde que se iniciaram as medições regulares de temperatura no planeta foram justamente todos de 2014 até 2020, de acordo com a NOAA, e os 10 mais quentes se deram desde 2005. A última década foi a mais quente já registrada no globo e 2020 foi classificado entre os anos mais quentes já observados.

Aquecimento global acelerou muito nos últimos 30 anos | NOAA

Se fevereiro está muito frio em parte da Terra, janeiro de 2021 foi o 45º janeiro consecutivo e o 433º mês seguido com temperaturas superiores à média do século 20 no planeta. Estas são médias planetárias e não apenas de uma cidade ou região. E, no caso da América do Norte que hoje enfrenta muito frio, a temperatura ficou bastante acima da média.

Anomalia de temperatura global em janeiro de 2021 | NOAA

Parte da tendência do aquecimento do planeta é a diminuição dos dias frios e o aumento dos dias de temperatura mais alta.

Diminuição dos dias de menor temperatura é uma tendência generalizada | Berkeley Earth

Isso vem se verificando em grande parte do planeta nas últimas décadas. Eventos extremos de frio não deixam de ocorrer, mas sem tornam mais raros.

SEU QUINTAL NÃO É O PLANETA

Algumas poucas áreas do planeta podem ter ficado mais frias nos últimos dias, mas, no geral, quase toda a Terra esquentou nas últimas duas a três décadas. Uma realidade local isolada não pode ser usada para confrontar uma curva de tendência planetária porque para cada um ponto que ficou mais frio existem muitíssimo mais que ficaram mais quentes. As mudanças no clima não ocorrem de forma uniforme em um mesmo país, quanto mais no mundo inteiro.

Mesmo se considerarmos apenas o tempo, o frio extremo de agora nos Estados Unidos não é evidência que contrarie o aquecimento global. Na segunda-feira (15), enquanto parte dos Estados Unidos congelava, muitas áreas do planeta estavam com temperatura acima da média.

Anomalias de temperatura no planeta em 15 de fevereiro de 2021 | Climate Reanalyzer

Na Europa, o mesmo ocorre no dia de hoje. Grande parte do continente está com frio muito intenso, mas esta não é a realidade na península ibérica. Portugal e Espanha estão com temperatura hoje acima do normal.

Frio não é homogêneo e península ibérica escapa hoje do gelo europeu | Adams Plataform

Assim, o que acontece em nosso quintal não é parâmetro para se avaliar uma tendência de escala planetária. Uma onda de frio, por exemplo, no Sul do Brasil não é evidência que contrarie uma série histórica de décadas mostrando aquecimento na região e no mundo.

ÁRTICO E A DANÇA DAS CORRENTES DE JATO

Em janeiro deste ano, um evento chamado de súbito aquecimento estratosférico, um aumento da temperatura em dezenas de graus Celsius na estratosfera, levou ao colapso da estrutura tradicional do chamado vórtice polar.

Em outras palavras, é como se a barragem de vento que mantém o ar extremamente frio mais preso perto do Polo Norte tivesse vindo abaixo. E, com isso, o ar por demais gelado escapou para as áreas ao Sul da América do Norte e da Europa.

Estudos sugerem que o aquecimento do Ártico está enfraquecendo a corrente de jato polar, permitindo que episodicamente o ar extremamente frio avance para o Sul em áreas do Hemisfério Norte com eventos de frio de grande magnitude.

O Ártico é a região que mais está aquecendo no mundo e a taxa de elevação da temperatura na região tem sido três vezes maior que no restante do mundo.

Anomalia de temperatura no planeta por corte de latitudes em janeiro de 2021 mostra que Ártico esteve muitíssimo mais quente que outras áreas do mundo | Zack Labe

A questão do impacto do aquecimento global influenciando eventos extremos de frio no Hemisfério Norte, contudo, não é um consenso ainda na ciência e é muito complexa.

Para a cientista da NOAA Amy Butler, não há evidências ainda de longo prazo demonstrando mudanças no padrão do vórtice polar que ocorrem, segundo ela, naturalmente e sem a intervenção humana.


Por outro lado, o pesquisador Judah Cohen, de uma empresa norte-americana voltada a riscos climáticos, observou que nos últimos dez anos houve um enorme aumento no número de tempestades de inverno no Nordeste dos Estados Unidos, acompanhando um aquecimento mais acelerado do Ártico, disse em entrevista para o New York Times.

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