Quando analiso os dados mais recentes sobre o aquecimento global, uma conclusão me parece cada vez mais difícil de ignorar: o planeta pode estar caminhando para um cenário ainda mais quente do que aquele que os modelos climáticos vinham indicando. E isso acontece justamente quando um El Niño excepcionalmente intenso se desenvolve no Pacífico.

NOAA
Um novo estudo conduzido por pesquisadores da ETH Zurique traz uma informação particularmente preocupante. A pesquisa sugere que os modelos climáticos considerados mais realistas podem indicar um aquecimento aproximadamente 25% maior para uma determinada trajetória de emissões de gases de efeito estufa. Se essa conclusão for confirmada por outros estudos, teremos de revisar para cima parte das expectativas sobre a evolução da temperatura global nas próximas décadas.
O número chama a atenção porque as projeções atuais já são alarmantes. O Climate Action Tracker, por exemplo, estima que, se os países mantiverem as políticas atualmente existentes, a temperatura média global poderá chegar a aproximadamente 2,6°C acima do período pré-industrial até 2100. Aplicando a nova estimativa, esse valor poderia chegar a cerca de 3,25°C.
Não estamos falando, portanto, de uma diferença meramente estatística. Estamos falando de uma mudança potencialmente enorme nas condições climáticas que o planeta enfrentará.
O estudo liderado por Gergana Gyuleva, da ETH Zurique, procura responder a uma das perguntas mais importantes da ciência climática: quanto a temperatura do planeta sobe para uma determinada concentração de dióxido de carbono na atmosfera?
A resposta não é simples porque os diferentes modelos climáticos apresentam sensibilidades diferentes. Alguns indicam um aquecimento menor, enquanto outros projetam uma resposta muito mais elevada. Durante muito tempo, uma das formas utilizadas para avaliar quais modelos eram mais confiáveis consistia em verificar como eles reproduziam o clima observado nas últimas décadas.
O problema é que o clima da Terra não responde apenas ao aumento dos gases de efeito estufa. Fenômenos naturais, como El Niño e La Niña, vulcanismo e alterações na circulação oceânica e atmosférica, introduzem oscilações que podem mascarar temporariamente a tendência de longo prazo. E foi justamente aí que os pesquisadores identificaram um possível problema nas avaliações anteriores.
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Entre 1981 e 2014, período usado em estudos anteriores para avaliar o desempenho dos modelos, a variabilidade natural do clima teria limitado o aumento da temperatura global. Esse intervalo inclui, inclusive, o chamado “hiato” do aquecimento global observado especialmente na primeira década deste século.
Quando os pesquisadores filtraram parte dessa variabilidade natural, chegaram a uma conclusão diferente. A resposta climática associada à duplicação da concentração de CO₂ passou a ser estimada em uma faixa de aproximadamente 1,9°C a 2,6°C, com uma estimativa central de 2,25°C. É um valor superior à estimativa central de 1,8°C utilizada no último relatório do IPCC para a resposta transitória do clima.
Eu considero especialmente importante outro aspecto do trabalho. Os pesquisadores não olharam apenas para a temperatura da superfície. Eles também avaliaram como os modelos reproduzem o balanço energético do planeta. Satélites vêm medindo desde 2001 a quantidade de radiação de ondas curtas que chega à Terra e a radiação de ondas longas que o planeta devolve ao espaço.
A diferença entre a energia que entra e a energia que sai é, em última análise, o coração do problema climático. Se o planeta recebe mais energia do que consegue devolver ao espaço, essa energia precisa ser armazenada em algum lugar. E está sendo acumulada principalmente nos oceanos, além de aquecer a atmosfera, o solo e derreter gelo.
Os modelos que melhor reproduzem as tendências observadas nessa radiação também são justamente aqueles que indicam maior aquecimento futuro.
Ainda não considero essa conclusão definitiva. Os próprios pesquisadores ressaltam que são necessárias novas evidências e avaliações independentes. Outros cientistas também apontam limitações. Mas o estudo reforça uma possibilidade que considero cada vez mais relevante: podemos estar subestimando a velocidade com que o sistema climático responde ao aumento dos gases de efeito estufa.
E é nesse contexto que surge o El Niño de 2026-2027.
O planeta já está mais quente. Os oceanos estão mais quentes. A atmosfera contém mais energia e mais vapor d’água. A concentração de gases de efeito estufa continua elevada. E, sobre esse cenário já aquecido, estamos colocando um dos fenômenos naturais capazes de produzir os maiores saltos de temperatura global de curto prazo.
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O El Niño não causa o aquecimento global. Essa distinção é fundamental. O aquecimento provocado pelas atividades humanas estabelece uma tendência de longo prazo. O El Niño, por sua vez, redistribui temporariamente o calor acumulado no sistema climático e pode produzir um salto na temperatura média global.
É justamente essa combinação que considero tão preocupante. O episódio atual apresenta características extraordinárias. As águas do Pacífico Equatorial central vêm estabelecendo uma sequência excepcional de recordes, e as projeções indicam a possibilidade de temperaturas da superfície do mar superiores a 4°C acima da média em dezembro. Se isso acontecer, estaremos diante de um El Niño muito diferente dos eventos comuns.
O calor acumulado no oceano começa a ser transferido para a atmosfera, e existe uma defasagem entre o comportamento das águas do Pacífico e a resposta da temperatura média global. Por isso, mesmo que o pico do El Niño ocorra no fim de 2026, o maior impacto sobre a temperatura do planeta pode aparecer em 2027. É por isso que a possibilidade de 2027 se transformar no ano mais quente já registrado é tão relevante.
Mais impressionante ainda é a comparação com a tendência recente de aquecimento. O nível térmico projetado para 2027 poderia ser equivalente ao que, seguindo apenas a tendência de aquecimento observada na última década, seria alcançado por volta de 2037. Dependendo da intensidade efetivamente observada, estaríamos antecipando em vários anos, temporariamente, uma condição climática que normalmente demoraria muito mais para aparecer.

Mas existe uma diferença fundamental entre um salto temporário e uma mudança permanente. Quando o El Niño enfraquecer, a temperatura global provavelmente cairá em relação ao pico. Isso não significa que o planeta voltará ao clima de décadas atrás. A linha de base continuará mais elevada porque o aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa é cumulativo.
É como uma escada térmica. O aquecimento global eleva progressivamente o piso. O El Niño acrescenta temporariamente mais um degrau. Quando o fenômeno termina, descemos parte desse degrau, mas continuamos em um patamar mais alto do que antes.