O El Niño Costeiro, que se define pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico nas costas do Peru e do Equador, atinge intensidade absurdamente forte neste começo de outubro e com anomalias de temperatura da superfície do mar jamais observadas nos registros modernos na região.

Mapa do El Niño Costeiro

El Niño Costeiro atinge intensidade jamais observada | NOAA

De acordo com dados divulgados nesta segunda-feira (5) pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos, a NOAA, a agência de clima do governo dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar atinge +5,3ºC na chamada região Niño 1+2, considerando o índice tradicional de monitoramento ONI (Índice Oceânico Niño).

Esta região Niño 1+2 é utilizada para monitorar o chamado El Niño Costeiro ao medir as anomalias de temperatura da superfície do mar juntos aos litorais do Peru e do Equador, onde ocorre o fenômeno, que é diferente da forma clássica do El Niño de reflexos em escala global.

O aquecimento nesta parte do Pacífico foi acelerado nos últimos dias. No boletim da semana passada da NOAA, a anomalia informada na Região Niño 1+2 era de +4,8ºC e saltou para +5,3ºC no boletim desta semana.

Jamais se observou nos tempos modernos esta área do Pacífico com temperatura tão acima da média. No Super El Niño de 1982-1983, o maior valor semanal na Região Niño 1+2 foi de +4,2ºC na semana de 29 de junho de 1983. No grande evento de 1997-1998, o maior registro semanal foi de +4,0ºC, na semana de 13 de agosto de 1997. No episódio de 2015-2016, anomalia de +2,7ºC, na semana de 15 de julho de 2015. No El Niño de 2023-2024, o pico de anomalia na Niño 1+2 foi de 3,4ºC, na semana de 2 de agosto de 2023.

Considerando o novo índice de monitoramento, que faz um ajuste pelo aquecimento do planeta e é chamado Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), o aquecimento nos litorais do Peru e do Equador está perto de igualar o recorde de +4,6ºC na semana de 29 de junho de 1983.

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Jamais se viu anomalia acima de 5ºC nas regiões Niño

As chamadas regiões Niño são áreas definidas do Oceano Pacífico na faixa equatorial usadas pelos meteorologistas para acompanhar o aquecimento ou o resfriamento das águas. São chamadas de Niño 1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4 e ficam distribuídas do litoral da América do Sul em direção ao Pacífico Central.

Gráfico das regiões Niño

NOAA

 

A região Niño 1+2 fica mais próxima da costa do Peru e do Equador, enquanto a Niño 4 está mais distante, no Pacífico Oeste. Entre elas, a Niño 3.4 é a mais importante e usada para definir se atuam os fenômenos El Niño e La Niña na sua forma clássica.

Jamais nos registros modernos, pelo índice ONI, havia se observado uma anomalia de +5ºC ou mais em qualquer das chamadas regiões Niño, o que torna o dado divulgado hoje de uma anomalia de +5,3ºC na Região Niño 1+2 nada menos que extraordinário e histórico.

Evento de 1997-1998 deixou rastro de destruição no Peru e no Equador

O episódio de El Niño de 1997-1998 foi um dos mais intensos já registrados e provocou impactos devastadores em diversos países da América do Sul, especialmente no Peru e no Equador. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento excepcional das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterou profundamente os padrões atmosféricos da região e desencadeou uma sequência de eventos extremos.

No Peru, os efeitos foram particularmente severos ao longo da costa Norte e central. Chuvas torrenciais atingiram áreas normalmente áridas, causando enchentes de grandes proporções e numerosos deslizamentos de terra. Rios transbordaram, cidades ficaram isoladas e milhares de moradias foram destruídas ou danificadas. Estradas, pontes, sistemas de abastecimento de água e redes elétricas sofreram graves prejuízos.

As precipitações excessivas transformaram paisagens desérticas em extensas áreas inundadas. Em muitas localidades, a infraestrutura não estava preparada para volumes tão elevados de chuva em um curto período de tempo. O resultado foi uma crise humanitária que afetou milhões de pessoas, com milhares de famílias desabrigadas e grandes perdas econômicas.

A agricultura peruana também sofreu impactos significativos. Áreas cultivadas foram inundadas, plantações foram perdidas e a produção de diversos alimentos registrou queda. O setor pesqueiro, um dos pilares da economia peruana, enfrentou dificuldades devido às mudanças na temperatura das águas oceânicas, que alteraram a distribuição de espécies marinhas e reduziram a disponibilidade de peixes em algumas regiões.

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Foto mostra inundações pelo El Niño Costeiro em 1998 no Peru

El Niño Costeiro de 1997-1998 foi arrasador no Peru | GEC

No Equador, a situação foi semelhante. Chuvas excepcionalmente intensas provocaram enchentes generalizadas, destruíram estradas e afetaram importantes atividades econômicas. Diversas cidades sofreram com alagamentos persistentes, enquanto comunidades rurais enfrentaram isolamento e dificuldades de acesso a serviços básicos.

A produção agrícola equatoriana registrou perdas expressivas. Cultivos de banana, arroz, cana-de-açúcar e outros produtos importantes para a economia nacional foram severamente prejudicados pelas inundações e pelo excesso de umidade. Os danos repercutiram tanto no mercado interno quanto nas exportações.

Além dos prejuízos materiais, o fenômeno teve importantes consequências para a saúde pública nos dois países. O aumento das áreas alagadas favoreceu a proliferação de mosquitos e contribuiu para o crescimento de doenças transmitidas por vetores. Também houve aumento de enfermidades relacionadas à contaminação da água e às precárias condições sanitárias em áreas afetadas pelas enchentes.

O que é o El Niño Costeiro e como se diferencia do clássico

O El Niño costeiro, é ​ evento oceânico-atmosférico que consiste no aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial nas proximidades das costas sul-americanas, que implica que afeta o clima de países como Peru, Equador e às vezes no Chile. É um fenômeno local que não afeta todo o clima mundial.

Infográfico de El Niño Costeiro

METSUL

É diferente do El Niño na sua forma clássica ou canônica, que é fenômeno climático global de maior dimensão e que consiste no aquecimento anômalo do Pacífico Central e Leste na zona equatorial. Este El Niño clássico é que pode se instalar nos próximos meses. O que agora se instala na costa peruana é o El Niño local.

Uma vez que tanto o El Niño de impacto global como o El Niño costeiro se dão em seu litoral, o Peru sofre muito com o aquecimento anômalo das águas em sua costa. Por esta razão, os dois fenômenos causam muita apreensão entre os peruanos. O Peru sofreu com chuvas e huaicos (deslizamentos) nos últimos dias com escala em algumas áreas que não se via desde o Super El Niño clássico de 1997/1998 e o intenso El Niño costeiro de 2017.