O El Niño histórico de 2026-2027 poderá fazer o planeta experimentar, ainda nesta década, temperaturas globais que, pela tendência atual de aquecimento, só seriam esperadas muitos anos mais tarde, no final da próxima década. O fenômeno funcionará temporariamente como uma espécie de “máquina do tempo climático”. A MetSul Meteorologia já havia alertado em abril que um El Niño forte aceleraria ainda mais o aquecimento do planeta.

Mapa simula a mudança regional de temperatura em um mundo com aquecimento global de 2 °C em relação à média do fim do século XIX | IPCC WGI INTERACTIVE ATLAS/METSUL
A combinação entre o aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa e um El Niño excepcionalmente intenso deverá produzir uma elevação extraordinária da temperatura média global. O resultado poderá ser um salto térmico capaz de antecipar em até mais de uma década condições climáticas futuras.
Uma análise do cientista climático Zeke Hausfather, citada pelo jornal The Washington Post, estima em aproximadamente 95% a probabilidade de 2027 se tornar o ano mais quente já registrado no planeta. A temperatura média global poderia alcançar cerca de 1,76°C acima do período pré-industrial.
Se esse cenário se confirmar, o valor seria aproximadamente 0,29°C superior ao que seria esperado considerando apenas a tendência de aquecimento observada na última década. É uma diferença enorme para a média global e suficiente para transportar temporariamente o planeta para um patamar climático futuro.
Hausfather calcula que o nível de temperatura projetado para 2027 poderia corresponder a condições que, seguindo a trajetória recente de aquecimento, somente seriam alcançadas por volta de 2037. Dependendo da intensidade efetivamente observada, o salto poderia representar uma antecipação de sete a 13 anos.
Na faixa central das projeções, as temperaturas globais de 2027 ficariam entre 1,67°C e 1,85°C acima da era pré-industrial. No cenário mais quente, o planeta poderia alcançar níveis que normalmente só seriam esperados perto de 2040.
A possibilidade de 2026 também terminar como o ano mais quente da história existe. Segundo a análise, entretanto, ainda há praticamente um empate entre a chance de o recorde ser quebrado ou não, dependendo do conjunto de dados utilizado para calcular a temperatura média global.
Para 2027, o sinal é muito mais claro. Isso ocorre porque o aumento da temperatura atmosférica associado ao El Niño apresenta uma defasagem em relação ao aquecimento das águas do oceano. O calor acumulado no Pacífico continuará sendo transferido para a atmosfera mesmo depois do pico oceânico do fenômeno.

ZEKE HAUSFATHER/BERKELEY EARTH
O mecanismo ajuda a explicar por que grandes episódios de El Niño costumam produzir um salto perceptível nas séries históricas de temperatura global. O oceano armazena enormes quantidades de energia e, durante o fenômeno, parte desse calor é redistribuída para a atmosfera e posteriormente transportada para outras regiões do planeta.
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No El Niño, águas excepcionalmente quentes do Pacífico Ocidental avançam para leste, alcançando áreas próximas à costa oeste da América do Sul. A mudança na distribuição do calor altera a atividade de tempestades, os ventos e a circulação atmosférica, permitindo que energia térmica seja espalhada globalmente.
O episódio atual, porém, ocorre em um planeta muito mais quente do que durante os grandes El Niños do passado. Por isso, seus efeitos não podem ser avaliados apenas pela comparação com eventos históricos como os de 1997-1998 ou 2015-2016.
A expectativa é que o El Niño de 2026-2027 supere, em intensidade, os seis maiores episódios anteriores utilizados nas comparações históricas. A lista inclui os eventos de 2015, 1997, 1982, 1972, 1888 e 1877, embora os registros dos episódios mais antigos tenham limitações maiores.
No Pacífico Equatorial central, região fundamental para medir a intensidade do El Niño, as temperaturas da superfície do mar já estabeleceram uma sequência extraordinária de recordes por 75 dias consecutivos.
E a sequência pode continuar. As projeções indicam que as águas do Pacífico Equatorial poderão atingir mais de 4°C acima da média em dezembro. Se isso acontecer, o valor superaria o recorde anterior por mais de 1°C.

Pacífico atingiu patamar de Super El Niño ainda no começo de julho e meses antes dos demais episódios intensos do fenômeno | NASA
Uma anomalia dessa magnitude seria extraordinária mesmo dentro da história dos grandes eventos de El Niño. O fenômeno, que normalmente já provoca importantes alterações no clima mundial, encontraria agora um planeta com oceanos e atmosfera aquecidos por décadas de aumento das concentrações de gases de efeito estufa.
É justamente essa combinação que torna o episódio atual diferente. Hausfather destaca que o El Niño está ocorrendo sobre uma tendência de aceleração do aquecimento associada à continuidade das emissões. Ou seja, o fenômeno natural atua sobre uma base climática que já está significativamente mais quente.
Outro fator é a redução da concentração de aerossóis na atmosfera. Essas partículas, emitidas por atividades humanas, tiveram durante décadas um efeito de resfriamento parcial ao refletir parte da radiação solar e modificar propriedades das nuvens.
Com a diminuição de determinados aerossóis, parte desse efeito de mascaramento do aquecimento diminui. Isso significa que uma parcela do aquecimento que vinha sendo compensada por essas partículas pode aparecer de maneira mais evidente na temperatura global.

BERKELEY EARTH
O efeito do El Niño, contudo, não deverá transformar permanentemente 2027 no novo patamar climático do planeta. A expectativa é de que 2028 seja mais frio, porque o fenômeno deverá perder força e deixar de fornecer o mesmo impulso extraordinário às temperaturas globais.
Isso não significa, porém, que o planeta retornará ao clima anterior ao episódio. O aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa é cumulativo. Como resume Hausfather, a humanidade acrescenta ao sistema climático, a cada década, uma quantidade de calor equivalente aproximadamente ao efeito permanente de um El Niño.
A consequência é uma espécie de escada térmica. O El Niño provoca um degrau para cima, elevando temporariamente a temperatura global, e depois parte desse salto desaparece quando o fenômeno termina. Entretanto, a linha de base continua subindo devido ao aquecimento provocado pelas atividades humanas.
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O fenômeno poderá produzir outro recorde além da temperatura. Uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d’água. A relação física conhecida como equação de Clausius-Clapeyron indica que a capacidade do ar de reter vapor aumenta aproximadamente 7% para cada grau Celsius de aquecimento.
Por isso, uma temperatura global excepcionalmente elevada em 2027 poderá ser acompanhada por um novo recorde de umidade atmosférica. O planeta poderá conter mais vapor d’água disponível para alimentar sistemas de chuva, aumentando o potencial para episódios de precipitação extrema em determinadas regiões.

AFP
Isso não significa que todos os lugares terão mais chuva. O El Niño altera os padrões atmosféricos de forma desigual, favorecendo secas em algumas áreas e aumentando a chuva em outras. O impacto regional dependerá da circulação atmosférica, da estação do ano e de outros fatores climáticos.
O que muda é o pano de fundo global. Um planeta mais quente possui uma atmosfera capaz de armazenar mais energia e umidade. Quando grandes sistemas meteorológicos se formam, essa energia adicional pode contribuir para episódios mais intensos de calor, chuva e tempestades.
Os efeitos do atual El Niño também não terminarão necessariamente quando o fenômeno alcançar seu pico. A previsão é de que o episódio atinja sua maior intensidade em dezembro, mas seus impactos sobre a temperatura global continuem avançando durante boa parte de 2027.
Essa defasagem entre o pico do oceano e a resposta da atmosfera é uma das razões pelas quais o próximo ano desponta como o principal candidato ao recorde global de temperatura. O calor acumulado nos oceanos continuará influenciando a atmosfera mesmo após mudanças nas condições do Pacífico.
Para o clima mundial, portanto, 2027 poderá representar uma demonstração antecipada de um futuro que ainda não deveria estar chegando tão cedo. Por alguns meses, o planeta poderá experimentar temperaturas características de uma trajetória que, sem esse impulso extraordinário do El Niño, demoraria mais de uma década para ser alcançada.
O aspecto mais impressionante é justamente esse contraste. O El Niño será temporário, mas ocorrerá sobre um aquecimento permanente. Quando o fenômeno enfraquecer, as temperaturas deverão recuar em relação ao pico de 2027, mas permanecerão muito acima dos níveis observados antes da atual era de aquecimento acelerado.
O episódio de 2026-2027, assim, poderá ser lembrado não apenas como um dos maiores El Niños já observados, mas como um evento que revelou antecipadamente a dimensão do aquecimento que o planeta poderá enfrentar nas próximas décadas.