El Niño de 2026-2027 se torna o mais intenso da história moderna com força jamais vista nos últimos 150 anos e anomalias de temperatura da superfície do mar sem precedentes desde o começo dos registros regulares, mostram dados da agência de clima dos Estados Unidos analisados pela MetSul Meteorologia.

El Niño atinge intensidade sem precedentes na história moderna | NOAA
De acordo com dados publicados no começo desta segunda (28) pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a anomalia de temperatura da superfície do mar pelo tradicional índice ONI (Índice Oceânico Niño) é de +3,1ºC na denominada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Central, que é usada oficialmente para definir se há um El Niño na forma clássica e de impacto global.
O valor é recorde e jamais observado neste índice nos tempos modernos, superando o recorde anterior de +3,0ºC, durante o episódio do Super El Niño de 2015-2016. A marca histórica não surpreende, uma vez que por meses se alertava que este evento acabaria sendo extremo e com potencial de se transformais no mais intenso em séculos.
O recorde ocorre dois meses antes do que o pico anterior registrado em novembro de 2015, e do El Niño de 1877, que contribuiu para uma fome que dizimou entre 3% e 4% da população mundial. Pelo indicador ONI, este El Niño também já superou eventos historicamente significativos registrados em 1982-1983 e 1997-1998.
Levantamento da MetSul com base em dados semanais da NOAA e calculados pelo método ONI mostra que o maior valor de anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 entre os episódios de Super El Niño antes do recorde de 2026 tinha sido registrado no evento de Super El Niño 2015-2016, quando a anomalia semanal alcançou 3,0°C na semana de 18 de novembro de 2015, seguido por 2,6°C no Super El Niño de 1982-1983, na semana de 29 de dezembro de 1982.
O recorde de agora era prenunciado pelo Pacífico ter atingido o status de El Niño muito fortes bem antes de qualquer evento do fenômeno na história recente. Com dados do ONI, nunca nos tempos modernos o Pacífico atingiu o patamar de Super El Niño tão precocemente como em 2026.
O primeiro dado semanal com anomalia de +2ºC foi na semana de 8 de julho. No Super El Niño de 1982-1983, a anomalia só alcançou +2ºC na semana de 24 de novembro. No Super El Niño de 1997-1998, a primeira semana com intensidade muito forte apenas ocorreu em 3 de setembro. E no grande evento de 2015-2015, o patamar de Super El Niño foi atingido pela primeira vez somente na semana de 16 de setembro
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El Niño vai ganhar ainda mais força e será extremo
O Super El Niño de 2026 segue em rápida intensificação no Pacífico Equatorial e caminha para se tornar extremo. Dados oceânicos e atmosféricos indicam que o aquecimento das águas na faixa equatorial avançou de forma acelerada nas últimas semanas enquanto projeções de longo prazo apontam para um pico entre novembro e dezembro. A combinação entre águas excepcionalmente quentes, enfraquecimento dos ventos alísios e fortes pulsos de vento de Oeste alimenta o evento de grande escala.
Um dos principais motores dessa rápida evolução está abaixo da superfície do oceano. Dados indicam a presença de poderosa onda de Kelvin descendente, uma gigantesca massa de água quente que se desloca para Leste pelo Pacífico Equatorial. No setor subsuperficial, especialmente nos primeiros 200 metros do oceano, foram observadas anomalias superiores a 10°C acima da média em seu núcleo. A reserva de calor funciona como uma espécie de combustível para o aquecimento da superfície, à medida que a onda avança para Leste e sobe em direção à superfície.
O processo está diretamente associado ao comportamento da atmosfera. Pulsos de vento de Oeste, conhecidos como westerly wind bursts, empurram as águas quentes acumuladas no Oeste do Pacífico em direção ao Leste. O mecanismo favorece a elevação das águas mais quentes e reforça a anomalia de temperatura na superfície.
O resultado é uma combinação particularmente poderosa entre oceano e atmosfera. O colapso dos ventos alísios permite que o calor acumulado no Pacífico seja redistribuído para Leste, enquanto a onda de Kelvin mantém o fornecimento de energia térmica para a superfície. As projeções indicam que os ventos de Oeste podem continuar atuando nas próximas semanas, contribuindo para a manutenção e o fortalecimento do fenômeno.
As projeções de longo prazo são particularmente impressionantes. Dados do modelo de clima europeu (ECMWF) indicam que o evento de 2026/2027 poderá alcançar o maior pico em décadas de registros comparáveis com anomalia pelo índice ONI no fim do ano ao redor de +4ºC.

METSUL
O Multivariate ENSO Index (MEI), calculado pela NOAA e que combina informações do oceano e da atmosfera, atingiu valor de +2,5 no bimestre julho-agosto de 2026. Trata-se do maior valor para o período desde o início da série da NOAA em 1979. Valores superiores a +2 aparecem apenas nos episódios mais intensos de El Niño.
Evento recorde não significa que haverá extremos recordes
Ao se ler que o El Niño atinge intensidade sem precedentes, não se deve interpretar que haverá consequências com magnitude jamais vista. A relação entre intensidade do evento e suas consequências não é linear. Em outras palavras, o fato deste El Niño ser o mais intenso da história não necessariamente significa que o Sul do Brasil terá as maiores enchentes da história ou o Norte e Nordeste a maior seca já observada.
Uma série de fatores atmosféricos em paralelo ao El Niño, e que variam muito, determinam que as consequências sejam mais ou menos graves nos diferentes estados brasileiros a cada episódio.
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METSUL
Historicamente, no Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais.
No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.
No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, sobretudo mais ao Sul da região, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam.
Já no Sudeste, os sinais são mistos. Há anos em que chove mais, como é o caso deste El Niño, e outros em que o clima fica mais seco e quente, como foi no evento de 2023. Não há, assim, um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuva e tempetatura.
No Sul do Brasil, o fenômeno costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte, mas mesmo no verão podem ocorrer extremos de chuva com enchentes.
As duas maiores enchentes da história gaúcha, 1941 e 2024, não se deram no primeiro ano do El Niño e sim no outono do ano seguinte, o que neste episódio corresponderia a 2027.
Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio no Sul do Brasil. O final do inverno e a primavera, em particular, são de alto risco de tempo severo com temperaturas mais altas, sendo frequentes ondas de tempestades com granizo, vendavais e até tornados.