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Um dos cientistas mais influentes da história da climatologia, James Hansen, que por anos liderou a unidade de estudos climáticos da NASA, fez um novo alerta que preocupa a comunidade científica: o novo evento de El Niño pode trazer temperaturas globais recordes já nos próximos dois anos e uma nova escalada do aquecimento global.

Mapa do El Niño no Pacífico

Fenômeno El Niño deve retornar nos próximos meses e tende a acelerar o aquecimento do planeta | COPERNICUS

O aviso chama atenção não porque o El Niño em si seria extraordinário, mas porque o planeta hoje está muito mais quente do que no passado. Segundo Hansen, mesmo um evento de intensidade moderada pode ser suficiente para empurrar a temperatura global a níveis nunca antes registrados.

O El Niño é um fenômeno natural que ocorre no Oceano Pacífico equatorial. Em condições normais, ventos sopram de leste para oeste, acumulando águas quentes perto da Ásia e permitindo a subida de águas frias na costa da América do Sul. Durante o El Niño, esse padrão se inverte: águas quentes avançam para leste, alterando o clima em várias partes do planeta.

Esse processo funciona como um “termômetro global”. Em anos de El Niño, a temperatura média da Terra costuma subir. Já durante a La Niña, o oposto ocorre, com leve resfriamento temporário.

O ponto central do alerta de Hansen é que o aquecimento global mudou as regras do jogo. Hoje, o sistema climático está mais sensível. Isso significa que qualquer variação natural, como o El Niño, tem um impacto maior do que teria décadas atrás.

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Além disso, o cientista aponta que o aquecimento global acelerou nos últimos anos. Segundo suas análises, essa aceleração começou por volta de 2015. Um dos fatores é o aumento contínuo dos gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono.

Outro fator importante é a redução da poluição atmosférica por aerossóis, especialmente na Ásia e no transporte marítimo. Esses aerossóis, embora prejudiciais à saúde, tinham um efeito colateral: ajudavam a refletir parte da radiação solar de volta ao espaço, reduzindo temporariamente o aquecimento.

Com a diminuição dessas partículas, mais calor está sendo absorvido pelo planeta. O resultado é um cenário em que o aquecimento global pode estar avançando mais rápido do que o estimado anteriormente.

Hansen sugere que o mundo pode atingir o limite de 2°C de aquecimento já na década de 2030, logo muito antes do que indicavam projeções anteriores, que apontavam para meados do século.

O calor armazenado nas camadas mais profundas do oceano está aumentando, um indicativo de que energia está sendo acumulada e pode emergir na superfície nos próximos meses com o El Niño.

Se o El Niño se confirmar, o que é quase uma certeza, Hansen projeta que a temperatura global pode atingir cerca de 1,7°C acima dos níveis pré-industriais em 2027. Antes disso, mesmo com a influência da La Niña, o planeta já pode registrar cerca de 1,4°C em 2026.

Gráfico mostra projeção de temperatura do planeta

Projeção do cientista James Hansen aponta para novo pico de aquecimento do planeta com um evento de El Niño entre 2026 e 2027 | JAMES HANSEN

Outro ponto importante destacado pelo cientista é que os modelos climáticos tradicionais podem estar subestimando a sensibilidade do clima às emissões de gases de efeito estufa. Em outras palavras, o planeta pode aquecer mais do que o previsto para uma mesma quantidade de CO₂.

Isso ocorre, em parte, porque ainda há dificuldades em representar com precisão o papel das nuvens e de outros mecanismos de retroalimentação no sistema climático. Para Hansen, os próximos anos serão decisivos para entender melhor essa dinâmica. Se as temperaturas subirem como ele projeta, ficará cada vez mais difícil explicar o aquecimento recente apenas como variabilidade natural ou erro de modelo.

Apesar do tom alarmante, James Hansen reforça que compreender o problema é o primeiro passo para enfrentá-lo. Segundo ele, o avanço da ciência e a conscientização pública serão fundamentais para pressionar por políticas climáticas mais eficazes nos próximos anos.