Um dos principais indicadores atmosféricos do El Niño atingiu em julho de 2026 um valor extraordinário. A média mensal do Índice de Oscilação Sul, conhecido pela sigla SOI, ficou em -29,1, o valor mais negativo já registrado para um mês de julho, segundo o Bureau of Meteorology (BoM) da Austrália.

Foto de enchente por El Niño no Rio Grande do Sul em maio de 2024

RAFA NEDDERMEYER/AGÊNCIA BRASIL/EBC

O número chama atenção porque o SOI é um dos indicadores utilizados para acompanhar a evolução e a intensidade do fenômeno El Niño–Oscilação Sul, o ENSO. Valores persistentemente negativos são associados ao El Niño, enquanto valores persistentemente positivos estão relacionados à La Niña.

Um índice mensal da SOI de -29,1 está muito abaixo do limiar de -7 utilizado como referência para o El Niño. Isso significa que a atmosfera não está apenas apresentando uma configuração compatível com o fenômeno, mas uma configuração extremamente deslocada para o lado negativo do índice, sinalizando um El Niño muito intenso.

O SOI australiano, pela própria forma como é calculado, normalmente fica em uma faixa aproximada de -35 a +35. Portanto, um valor de -29,1 está muito próximo do extremo inferior dessa escala.

E existe um detalhe ainda mais importante: julho de 2026 não teve apenas um SOI negativo. Teve o julho com o SOI mais negativo já observado, de acordo com os dados do serviço meteorológico australiano.

O que é a SOI?

Para entender a importância do recorde, é preciso primeiro saber o que significa SOI. Em termos simples, o Índice de Oscilação Sul é uma medida da diferença de pressão atmosférica entre Taiti, no Pacífico central, e Darwin, no norte da Austrália.

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Quando essa diferença muda de maneira persistente, ela revela alterações importantes na circulação atmosférica sobre o Pacífico tropical. O índice é calculado a partir das anomalias de pressão ao nível do mar entre os dois locais.

Não é, portanto, uma medida direta da temperatura do oceano. O SOI é principalmente um termômetro da atmosfera. É justamente isso que torna o indicador tão importante. O El Niño não é apenas uma mudança na temperatura do Pacífico. É um fenômeno que envolve uma interação entre o oceano e a atmosfera.

Quando o oceano começa a aquecer no Pacífico Equatorial, a circulação atmosférica também muda. As mudanças, por sua vez, influenciam os ventos e podem favorecer ainda mais o aquecimento do oceano. É um sistema de retroalimentação entre atmosfera e oceano.

Por que a SOI fica negativa no El Niño e positiva na La Niña?

Em condições neutras, os ventos alísios normalmente sopram de leste para oeste sobre o Pacífico tropical e ajudam a empurrar águas quentes para a região próxima à Indonésia e à Austrália. Quando o El Niño se desenvolve, os ventos enfraquecem ou podem até mesmo se inverter em determinadas áreas do Pacífico.

A circulação atmosférica conhecida como circulação de Walker também se modifica. O resultado é uma mudança na distribuição da pressão, da nebulosidade, das chuvas e do calor sobre o Pacífico tropical.

Nesse cenário, a pressão tende a ficar relativamente mais alta perto de Darwin e mais baixa na região do Taiti. Como o SOI é calculado a partir dessa diferença, o índice assume valores negativos. Por isso, a SOI muito negativa é um sinal de que a atmosfera está funcionando de maneira característica do El Niño.

Gráfico da SOI

BOM/METSUL

A La Niña representa, em linhas gerais, o comportamento oposto. Durante a La Niña, os ventos alísios ficam mais fortes. Eles favorecem o acúmulo de água quente no Pacífico ocidental e intensificam a circulação atmosférica sobre a região tropical. Ao mesmo tempo, aumenta o afloramento de águas mais frias no Pacífico central e oriental.

Nesse caso, a configuração da pressão entre Taiti e Darwin se inverte em relação ao El Niño. A SOI passa a apresentar valores positivos. De forma geral, valores sustentados abaixo de -7 são compatíveis com El Niño, enquanto valores sustentados acima de +7 são típicos de La Niña. Valores próximos dessa faixa indicam condições mais próximas da neutralidade.

O SOI pode oscilar por causa do tempo meteorológico de curto prazo. Por isso, médias mensais e períodos mais longos são muito mais úteis para identificar o comportamento climático do fenômeno.

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Indicador não conta toda a história

Apesar da importância do recorde, o SOI não deve ser interpretado como uma previsão automática do clima mundial. Ela é um indicador da componente atmosférica. Para determinar a intensidade e a evolução de um evento, meteorologistas analisam também as temperaturas do Pacífico, especialmente a região Niño 3.4, além de ventos, nebulosidade e temperaturas subsuperficiais.

Também não existe uma relação matemática simples entre o valor do SOI e o impacto que será observado em determinada cidade ou país. Um SOI de -29,1 não significa que determinada região terá uma quantidade específica de chuva ou uma temperatura determinada.

O que significa é que a circulação atmosférica tropical está em uma configuração extremamente típica de El Niño. Para quem não acompanha Meteorologia, a tradução mais simples do número -29,1 é esta: o “motor atmosférico” do El Niño está funcionando em uma intensidade excepcional, e o recorde do SOI mostra que essa assinatura já alcançou um nível histórico.

SOI negativa recorde e chuva no Sul do Brasil

Há estudos que mostram uma relação consistente entre o Índice de Oscilação Sul (SOI) e a chuva no Sul do Brasil, inclusive com análises de defasagem temporal. Pesquisas com séries históricas de Porto Alegre e Santa Maria identificaram correlação entre valores negativos do SOI e aumento da precipitação.

Para o Rio Grande do Sul, os estudos mostram que o sinal do El Niño sobre a precipitação é especialmente importante na primavera, com aumento da chuva em meses como outubro e novembro, e pode voltar a aparecer no outono do ano seguinte, principalmente em maio e junho.

Isso significa que um SOI excepcionalmente negativo, como o recorde de -29,1 registrado em julho de 2026, reforça o sinal atmosférico de um El Niño muito forte e pode ter implicações para a distribuição da chuva nos meses seguintes. Avaliações da MetSul em episódios anteriores do El Niño mostraram grande impacto na chuva de picos negativos da SOI três a quatro meses depois, o que reforça o sinal de alto risco de enchentes de maiores proporções no último trimestre deste ano.