O El Niño não para de se intensificar e atinge agora ao menos forte intensidade pelos dois critérios de monitoramento da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA), mostram dados analisados pela MetSul Meteorologia.

METSUL
De acordo com o tradicional índice de monitoramento denominado de Índice Oceânico Niño (ONI), com base em dados da NOAA, a anomalia de temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 3.4, o Pacífico Equatorial Centro-Leste, onde se verifica se há El Niño ou La Niña, chega à marca de +2,3ºC. Este é valor de El Niño de muito forte intensidade, conhecido informalmente como Super El Niño, cujo indicador mínimo é de +2ºC.
Já pelo novo critério de monitoramento, chamado de Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), o boletim desta semana da NOAA informou uma anomalia de +1,5ºC. Trata-se do valor mínimo da categoria de forte intensidade.
Ou seja, pelos dois critérios utilizados pela agência governamental de clima dos Estados Unidos, o El Niño no momento é ao menos de forte intensidade, sendo que por um deles de muito forte intensidade (Super El Niño).
Já no Pacífico Equatorial Leste, a denominada Região Niño 1+2, junto aos litorais do Peru e do Equador, as anomalias do El Niño Costeiro hoje são de +4,1ºC (intensidade extraordinária) pelo índice ONI e de +3,2ºC (muito intenso) pelo índice novo relativo (RONI).
Nunca houve El Niño forte ou intenso tão cedo
Nos registros modernos do ONI jamais se viu o patamar de Super El Niño ser atingido tão cedo. Neste ano, pelo índice ONI, a anomalia de +2ºC, que é o patamar mínimo de intensidade muito forte ou Super El Niño, foi atingida ainda na semana de 8 de julho.
Leia tambémComo será o clima em agosto sob um El Niño cada vez mais intenso
No Super El Niño de 1982-1983, a anomalia de temperatura da superfície do mar apenas alcançou +2ºC na chamada Região Niño 3.4 na semana de 24 de novembro. No Super El Niño de 1997-1998, a primeira semana com intensidade muito forte só ocorreu em 3 de setembro. No grande evento de 2015-2015, o patamar de Super El Niño foi atingido pela primeira vez em 16 de setembro. No El Niño de 2023-2024, anomalias de El Niño somente foram atingidas na semana de 22 de novembro.
Já pelo novo índice relativo RONI, onde nesta semana o El Niño atingiu o patamar mínimo de intensidade forte com anomalia de +1,5ºC, o atingimento deste valor também é muito precoce se comparado aos outros eventos históricos do fenômeno.
Considerando o índice relativo (RONI), no Super El Niño de 1982-1983 a intensidade forte (anomalias de +1,5ºC a +1,9ºC) somente foi atingida na semana de 15 de setembro. No evento de 1997-1998, pela primeira vez na semana de 23 de julho. No episódio de 2015-2016, na semana de 16 de setembro. E no evento de 2023-2024, na semana de 22 de novembro.
Entenda a diferença entre o índice tradicional (ONI) e o relativo (RONI)
O ONI (Oceanic Niño Index) foi durante décadas o principal indicador utilizado para classificar episódios de El Niño e La Niña. Ele é calculado a partir da anomalia da temperatura da superfície do mar na Região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial, usando como referência médias climatológicas fixas de 30 anos.
O problema é que esse método compara as temperaturas atuais com um clima do passado, quando os oceanos eram mais frios. Em um planeta que vem aquecendo continuamente, essa referência pode fazer com que o aquecimento de fundo dos oceanos influencie a intensidade atribuída aos eventos de El Niño e La Niña.
Para corrigir essa limitação, a NOAA adotou neste ano o RONI (Relative Oceanic Niño Index) como novo índice. Em vez de considerar apenas a anomalia em relação a uma climatologia histórica fixa, o RONI leva em conta o aquecimento global dos oceanos e avalia se o Pacífico Equatorial está relativamente mais quente ou mais frio do que o restante dos oceanos tropicais.
Assim, o índice procura isolar o sinal natural do fenômeno El Niño da tendência de aquecimento causada pelas mudanças climáticas, oferecendo uma representação considerada mais fiel das condições reais do Pacífico. Na prática, isso significa que um mesmo episódio pode apresentar valores diferentes nos dois índices. Em geral, o RONI tende a indicar valores menores para eventos de El Niño do que o ONI, porque desconta parte do aquecimento global de fundo, enquanto episódios de La Niña podem aparecer mais intensos ou até serem identificados em situações que antes eram classificadas como neutras.
Leia tambémSucessão de eventos de chuva extrema é resposta ao El Niño e vai se agravar
Os efeitos do El Niño no Brasil
Nenhum episódio de El Niño é igual ao outro e uma série de fatores atmosféricos em paralelo, que variam muito, determinam que as consequências sejam mais ou menos graves nos diferentes estados brasileiros a cada episódio. No episódio deste ano, os efeitos no clima serão sentidos mais a partir do segundo semestre, especialmente no fim do inverno e na primavera.
Historicamente, no Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais.
No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.

METSUL
No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal.
Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.
No Sul do Brasil, o fenômeno costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.