A Europa vive cenas de colapso climático em um dos episódios mais graves de calor e seca das últimas décadas, em uma crise que se estende do Atlântico ao Leste Europeu e provoca impactos simultâneos sobre a geração de energia, a navegação fluvial, a agricultura, o abastecimento de água e o risco de incêndios florestais. Uma sucessão de ondas de calor, combinada com meses de precipitação muito abaixo da média, reduziu rios importantes a níveis historicamente baixos e colocou governos diante da necessidade de adotar medidas emergenciais.

Moradores observam a fumaça de um grande incêndio florestal na região de Porto Germeno, a noroeste de Atenas, na Grécia. Ondas de calor, seca e ventos fortes alimentam incêndios de grandes proporções em várias áreas do Mediterrâneo. | ANGELOS TZORTZINIS/AFP/METSUL
A situação é especialmente crítica na bacia do rio Danúbio, o segundo maior da Europa, que atravessa dez países antes de desaguar no Mar Negro. Em vários trechos, o rio atingiu as menores vazões já observadas, expondo bancos de areia, rochas e até embarcações naufragadas há décadas. O baixo nível da água compromete a navegação, reduz a geração hidrelétrica e ameaça o funcionamento de usinas nucleares que dependem do rio para o resfriamento de seus reatores.
Ao mesmo tempo, outros grandes cursos d’água do continente enfrentam problemas semelhantes. O rio Reno registrou níveis recordes de baixa na Alemanha e nos Países Baixos, afetando uma das principais rotas de transporte de cargas da Europa. Na Itália, o rio Pó voltou a apresentar vazões extremamente reduzidas, agravando a crise hídrica e aumentando a salinização em sua foz, com impactos diretos sobre a irrigação agrícola.
O calor também segue quebrando recordes. Diversos países registram temperaturas acima de 40°C, enquanto noites excepcionalmente quentes impedem o resfriamento das cidades e ampliam os riscos à saúde. A persistência das massas de ar quente favorece a evaporação intensa, acelera o ressecamento do solo e dificulta qualquer recuperação dos rios e reservatórios.
As consequências já atingem setores estratégicos da economia. Indústrias reduziram ou suspenderam atividades para economizar eletricidade, usinas nucleares operam com capacidade limitada, o transporte hidroviário perdeu eficiência e agricultores enfrentam perdas expressivas em diversas culturas devido à falta de água e ao calor extremo.
Especialistas alertam que a combinação entre temperaturas excepcionalmente elevadas, déficit prolongado de chuva e aumento da evaporação está transformando o verão europeu de 2026 em um dos eventos climáticos mais severos do século.
Hungria: usina nuclear reduz operação e país entra em alerta energético
A Hungria está entre os países mais afetados pela crise. O rio Danúbio atingiu níveis historicamente baixos, comprometendo o abastecimento de água necessário para resfriar a usina nuclear de Paks, responsável normalmente por cerca de metade da eletricidade consumida no país.
A redução da vazão obrigou o governo a iniciar o desligamento gradual dos reatores, enquanto medidas de economia de energia passaram a ser adotadas em escala nacional. O transporte ferroviário de cargas passou a sofrer restrições em determinados horários e empresas foram incentivadas a reduzir voluntariamente o consumo elétrico.
Além da preocupação com o sistema energético, a seca acelerou a colheita de milho e girassol, elevando as perspectivas de perdas agrícolas. A previsão de temperaturas próximas dos 42°C reforça o temor de que o nível do Danúbio continue caindo durante os próximos dias, ampliando ainda mais os impactos econômicos.
Romênia: explosões no Danúbio tentam salvar produção de energia
Na Romênia, a situação levou as autoridades a recorrerem a uma medida incomum. Militares realizaram explosões controladas em formações rochosas às margens do Danúbio para aumentar temporariamente o fluxo de água em direção à usina nuclear de Cernavodă, responsável por aproximadamente um quinto da geração elétrica nacional.

Explosão controlada no leito do rio Danúbio, na Romênia, buscou aumentar o fluxo de água para o sistema de resfriamento da usina nuclear de Cernavodă, ameaçada pelos níveis historicamente baixos do rio durante a intensa onda de calor. | DANIEL MIHAILESCU/AFP/METSUL
Mesmo com a intervenção, um dos reatores já precisou ser desligado devido à insuficiência de água para o sistema de resfriamento, enquanto outro opera sob monitoramento permanente. O governo não descarta novas restrições caso o nível do rio continue diminuindo.
Leia tambémEl Niño ganha mais força e atinge forte intensidade em todos critérios
A crise energética também chegou ao setor industrial. As montadoras Dacia e Ford interromperam temporariamente a produção por mais de duas semanas após pedidos oficiais para reduzir o consumo de eletricidade durante o período mais crítico da emergência.
Sérvia: hidrelétricas produzem menos e navegação perde viabilidade
Na Sérvia, a estiagem reduziu drasticamente tanto a geração hidrelétrica quanto a navegabilidade do Danúbio. As principais usinas instaladas ao longo do rio registram produção cerca de 30% inferior ao normal, obrigando o governo a pedir que a população utilize energia elétrica de forma racional.
Embora o abastecimento de eletricidade permaneça garantido, autoridades acompanham diariamente a evolução das vazões, conscientes de que uma nova redução poderá comprometer ainda mais o sistema energético nacional.
O transporte fluvial também foi profundamente afetado. Diversas embarcações permanecem paradas porque o baixo nível do rio impede a navegação segura. As barcaças que continuam operando transportam apenas parte de sua carga habitual, elevando custos e reduzindo significativamente a rentabilidade das operações.
Alemanha: Rio Reno atinge níveis mínimos e preocupa economia
Na Alemanha, o foco da crise concentra-se no rio Reno, considerado uma das artérias logísticas mais importantes da Europa. Em pontos estratégicos, como Kaub, próximo a Koblenz, o nível navegável caiu para apenas alguns centímetros, igualando ou superando os recordes registrados durante a histórica seca de 2018.

Leito parcialmente seco do rio Reno, em Düsseldorf, na Alemanha, durante a histórica estiagem que afeta a Europa. Os níveis excepcionalmente baixos do rio comprometem a navegação e o transporte de cargas em uma das principais hidrovias do continente. | INA FASSBENDER/AFP/METSUL
Embora a navegação não tenha sido totalmente interrompida, embarcações passaram a transportar volumes muito menores para evitar encalhes. O resultado é um aumento expressivo dos custos de transporte, atrasos na distribuição de matérias-primas e risco crescente de gargalos logísticos para diversos setores industriais.
A redução da capacidade de transporte preocupa especialmente empresas químicas, siderúrgicas e distribuidoras de combustíveis, fortemente dependentes do Reno para movimentar grandes volumes de cargas entre a Suíça, Alemanha, França, Países Baixos e o Mar do Norte.
França: calor histórico agrava seca e incêndios sem precedentes
A França atravessa um dos verões mais extremos desde o início das observações meteorológicas. Julho de 2026 tornou-se oficialmente o mês de julho mais quente já registrado no país, superando inclusive os históricos episódios de 2003 e 2006.
O mesmo mês apresentou déficit de chuva próximo de 70%, fazendo com que a umidade do solo atingisse níveis normalmente observados apenas no fim do verão. A combinação entre calor persistente, vegetação extremamente seca e ventos favoreceu incêndios florestais de enormes proporções, incluindo o maior já registrado na história recente do país.

Bombeiros combatem um incêndio florestal próximo a Lège-Cap-Ferret, no sudoeste da França. Favorecidas pelo calor extremo, pela seca e pelos ventos fortes, as chamas consumiram milhares de hectares e forçaram a evacuação de moradores e turistas. | JULIEN DE ROSA/AFP/METSUL

Vista aérea mostra veículos destruídos pelo incêndio florestal em Le Porge, no sudoeste da França. O fogo provocou uma das maiores evacuações da história recente do país, com cerca de 200 mil pessoas obrigadas a deixar suas casas e áreas turísticas. | FLORIAN PLAUCHEUR/AFP/METSUL

Foto aérea mostra o leito ressecado do Lago Brenets, no rio Doubs, na fronteira entre França e Suíça. A combinação de seca prolongada, sucessivas ondas de calor e baixa precipitação reduziu drasticamente o volume de água na região. | FABRICE COFFRINI/AFP/METSUL
As chamas obrigaram centenas de milhares de pessoas a deixarem temporariamente suas casas, destruíram comunidades inteiras e mobilizaram milhares de bombeiros durante vários dias. Mesmo nas áreas onde os incêndios foram controlados, as autoridades alertam que qualquer nova onda de calor poderá provocar reacendimentos diante da vegetação extremamente ressecada.
Reino Unido: um país conhecido pela chuva enfrenta seca excepcional
O Reino Unido, tradicionalmente associado ao clima úmido, enfrenta uma das secas mais severas de sua história recente. Grande parte da Inglaterra entrou oficialmente em situação de estiagem depois de registrar apenas uma pequena fração da precipitação normalmente esperada para esta época do ano, consequência de sucessivas ondas de calor e da persistência do bloqueio atmosférico.

Pessoas ocupam um gramado ressecado pelo calor nos jardins de Victoria Tower, em Londres. A sucessão de ondas de calor e a escassez de chuva colocaram Inglaterra e País de Gales diante de uma das secas mais severas em quase dois séculos. | TOBY SHEPHEARD/AFP/METSUL
As consequências aparecem em praticamente todos os setores. Rios apresentam vazões extremamente baixas, milhões de moradores estão sujeitos a restrições no uso de água, agricultores alertam para perdas na produção de alimentos e o risco de incêndios florestais aumentou significativamente em diversas regiões. Especialistas também chamam atenção para o contraste entre o inverno muito chuvoso e o verão excepcionalmente seco, um exemplo do chamado “chicote climático”, marcado pela alternância rápida entre extremos de chuva e seca.
Áustria: calor recorde e impactos sobre a saúde
Na Áustria, o Leste do país entrou em alerta vermelho diante da previsão de temperaturas capazes de superar o recorde nacional de calor. Além das máximas próximas de 41°C, um dos fatores que mais preocupa as autoridades são as noites excepcionalmente quentes, quando os termômetros permanecem entre 24°C e 27°C, impedindo o resfriamento das cidades.
A permanência do calor durante a madrugada aumenta os riscos para idosos, crianças e pessoas com doenças cardiovasculares. Hospitais e casas de repouso enfrentam dificuldades porque muitos edifícios não possuem sistemas de climatização, enquanto autoridades sanitárias associam centenas de mortes registradas em junho às temperaturas excepcionalmente elevadas.
República Tcheca: seca continua avançando
Na República Tcheca, aproximadamente metade das estações hidrológicas monitora condições de seca. Em muitos rios, as vazões correspondem a apenas uma pequena parcela do volume normalmente observado nesta época do ano, refletindo meses consecutivos de precipitação insuficiente.
Embora ocorram pancadas isoladas de chuva, meteorologistas não esperam melhora significativa no curto prazo. Pelo contrário, a combinação entre precipitações escassas e novas ondas de calor deve continuar reduzindo a umidade do solo, agravando os impactos sobre a agricultura e os recursos hídricos.
Leia tambémFrente quente traz chuva, raios e risco de granizo isolado
Eslováquia: Danúbio registra menor vazão desde o século XIX
A Eslováquia entrou para a lista dos recordes históricos negativos quando o Danúbio, nas proximidades de Bratislava, atingiu a menor vazão desde o início das medições, em 1876. O rio perdeu profundidade suficiente para impedir a navegação de diversas embarcações, obrigando barcos comerciais e turísticos a permanecer atracados.
O episódio ilustra a dimensão continental da crise hídrica. O mesmo rio que abastece cidades, irriga áreas agrícolas, movimenta cargas e fornece água para a geração de energia apresenta comportamento extremo simultaneamente em diversos países, mostrando que os impactos ultrapassam fronteiras nacionais.
Itália: Rio Pó enfrenta nova crise hídrica
Na Itália, o rio Pó voltou a registrar níveis historicamente baixos, agravando uma situação que já preocupa especialistas há vários anos. A redução da vazão levou autoridades a elevar o nível de alerta para toda a planície do Pó, uma das regiões agrícolas mais importantes da Europa.

Imagem aérea mostra um veículo cruzando a ponte sobre o rio Pó, no Norte da Itália, onde o leito expõe extensos bancos de areia devido à seca extrema. A redução histórica da vazão ameaça a agricultura, os ecossistemas e o abastecimento de água na região. | MARCO BERTORELLO/AFP/METSUL
A menor descarga de água doce permitiu que a água salgada do Mar Adriático avançasse dezenas de quilômetros pelo leito do rio, comprometendo a qualidade da água utilizada na irrigação e afetando lavouras. A diminuição dos reservatórios naturais também aumenta a preocupação com o abastecimento de água para consumo humano durante o restante do verão.
Grécia: incêndios devastam áreas próximas de Atenas
Enquanto a Europa Central enfrenta principalmente os efeitos da seca sobre rios e energia, a Grécia sofre com incêndios florestais alimentados pela combinação entre vegetação extremamente seca, temperaturas elevadas e ventos fortes.
Grandes incêndios obrigaram milhares de pessoas a deixar suas casas nos arredores de Atenas, destruíram propriedades rurais e provocaram mortes durante operações de combate ao fogo. Autoridades mantêm elevado estado de alerta diante da previsão de novas ondas de calor, que podem favorecer o surgimento de outros focos.
Ciência explica o colapso climático na Europa
Embora a falta de chuva seja um dos fatores centrais da crise, pesquisadores destacam que o calor excepcional exerce papel igualmente importante na intensidade da seca observada em 2026. Temperaturas muito acima da média aumentam significativamente a evaporação da água presente no solo, nos rios e nos reservatórios, além de intensificarem a transpiração das plantas, acelerando o ressecamento da vegetação.
Um estudo internacional realizado por cientistas de diversos países concluiu que a seca europeia de 2026 é resultado da combinação entre déficits prolongados de precipitação e uma demanda atmosférica muito maior por umidade, representada pelo aumento da evapotranspiração potencial. Em outras palavras, mesmo quando a redução das chuvas não é extrema, uma atmosfera mais quente retira água do ambiente muito mais rapidamente, agravando o déficit hídrico.
Os pesquisadores verificaram que, na Europa Ocidental, episódios semelhantes de seca agrícola tornaram-se aproximadamente cinco vezes mais prováveis em consequência do aquecimento global. Na Europa Oriental, onde a estiagem se desenvolve ao longo de períodos mais longos, a probabilidade aumentou cerca de onze vezes, refletindo a influência crescente das temperaturas elevadas sobre a disponibilidade de água.
O estudo também mostra que eventos de elevada evapotranspiração potencial, indicador da capacidade da atmosfera de retirar água do ambiente, tornaram-se dezenas de vezes mais prováveis nas condições climáticas atuais na Europa. Com isso, déficits de chuva que décadas atrás produziriam apenas secas moderadas agora resultam em episódios classificados como severos ou excepcionais, ampliando os impactos sobre rios, agricultura, abastecimento de água, geração de energia e incêndios florestais.
Os cientistas ressaltam que a crise de 2026 representa um exemplo claro de como as mudanças climáticas estão alterando o comportamento das secas na Europa. O continente continua sujeito à variabilidade natural das precipitações, mas o aumento persistente das temperaturas faz com que cada período seco produza consequências muito mais graves do que no passado, reforçando a necessidade de adaptação da gestão de recursos hídricos, da agricultura, da infraestrutura energética e das políticas de prevenção a eventos extremos.
