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Vista aérea da Ruta 40 mostrando um campo queimado no Parque Nacional Iberá, perto de Colônia Carlos Pellegrini, província de Corrientes, onde o fogo não cessa e dizima milhares de hectares por dia | JUAN MABROMATA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

”O fim do mundo provavelmente se parece com o que se vê em Corrientes. O fogo é uma coisa viva, indomável, esquiva, que corre acima e abaixo da terra a uma velocidade que não pode ser calculada sobre um território seco e quente de uma maneira que não acontecia há quarenta ou cinquenta anos ou talvez como nunca antes”, escreve o jornalista argentino Fernando Sorian que acompanha os incêndios na província de Corrientes, a Oeste do Rio Grande do Sul que também sofre os efeitos do fogo com fumaça e chuva de fuligem.

Os incêndios continuam, mesmo tendo diminuído em número de focos com a chuva ocorrida no fim de semana, e já afetaram quase 40% do Parque Nacional Iberá, segundo um comunicado da Fundación Rewilding Argentina. A Justiça local abriu mais de 70 processos para denúncias de incêndios rurais intencionais no território.


“Enquanto o fogo continua, até agora os incêndios em Corrientes consumiram cerca de 900.000 hectares, o equivalente a 10% da superfície da província. Desse total, o incêndio afetou cerca de 74 mil hectares do Parque Nacional Iberá (quase 40% de sua superfície)”, especificou o comunicado.

De acordo com a Rewinding Argentina, o território afetado “corresponde a zonas úmidas, pastagens e florestas únicas por sua biodiversidade, que abrigam espécies ameaçadas de extinção, como o veado-campeiro, o lobo-guará e o yetapá-de-coleira”. Na área atingida pelo fogo, a fundação também trabalha para reinserir espécies extintas como a arara-vermelha, a ariranha e a onça-pintada.


Membros do Exército Argentino e da Aeronáutica continuam a prestar apoio logístico aos brigadistas que combatem os incêndios florestais que atingem a província de Corrientes, no âmbito das operações coordenadas pelo Serviço Nacional de Combate a Incêndios (SNMF), e no fim de semana alocaram mais pessoal e apoio logístico em meio a uma paisagem distópica pelas chamas.

Municipalidade de Santo Tomé/Divulgação

Municipalidade de Santo Tomé/Divulgação

Municipalidade de Santo Tomé/Divulgação

Municipalidade de Santo Tomé/Divulgação

Municipalidade de Santo Tomé/Divulgação

No total, são mais de 100 soldados. Segundo o Ministério da Defesa, as atividades estão centralizadas nas localidades mais afetadas de Corrientes, como San Miguel, San Julia e Villa Olivari, onde são realizadas ações de abastecimento, distribuição e comunicação. Os argentinos receberam apoio do Rio Grande do Sul que enviou bombeiros para enfrentar as chamas em Santo Tomé, fronteira com São Borja.

Na região de Uguay tudo é angústia. Alimentados por dois anos de seca sem precedentes, os incêndios destruíram campos de gado, arrozais e plantações e florestas de pinheiros. Não houve relatos de mortes, mas dezenas de pessoas tiveram que deixar suas casas. Também queimaram matas nativas e pastagens do Iberá, zona úmida de 1,3 milhão de hectares de grande biodiversidade.

Uguay, 780 quilômetros ao Norte de Buenos Aires, está no limite por temer que a única escola seja atingida pelos incêndios no entorno do Parque Nacional Iberá.

Carlos Sánchez é um pequeno fazendeiro que luta com unhas e dentes ao lado dos bombeiros para sufocar as chamas em um incessante vai e vem de cisternas carregadas de água. “Revezamo-nos com 10 ou 12 vizinhos e ajudamos com nossos recursos”, disse à AFP, com os olhos avermelhados pela fumaça.

“Nunca tivemos nada parecido, o problema não é só agora, o fogo, mas o que está por vir em termos econômicos e sociais. Eu nunca choro, mas acho que às vezes o homem tem que chorar, a quantidade de recursos econômicos vai reduzir para 30%”, explica.

A Coninagro, entidade que reúne cooperativas agrícolas, estimou que o setor de arroz em Corrientes perdeu 44 milhões de dólares; o de erva-mate 4,12 milhões; e a pecuária 78 milhões.

Corrientes, na fronteira com o Brasil e o Paraguai, foi declarada em catástrofe ambiental. A fumaça dos incêndios fora de controle cobriu grandes áreas do Sul do Brasil. Províncias vizinhas enviaram recursos e ajuda extraordinária do governo federal.

As margens da estrada que leva a Uguay viraram cinzas. Os pinheiros ardem há uma semana e ainda há fumaça. Basta um sopro de vento para reavivar as chamas. Aviões hidrantes e helicópteros combatem os focos que reaparecem. Brigadas desviam o fogo de áreas povoadas ou produtivas.

“A situação é crítica, o fogo é incontrolável”, explica Mauricio Alba, bombeiro da brigada especializada em desastres enviada pela província de Córdoba. “O vento é muito variável em Corrientes e as previsões de chuva diminuíram. O fogo não para, a chuva seria a única coisa que ajudaria”, diz.

“É uma bomba-relógio”, afirma à AFP Sofía Heinonen, bióloga e diretora da Rewilding Argentina, uma ONG dedicada à conservação de espécies em Iberá. A zona úmida “recolhe matéria em decomposição, mas se ela seca transforma-se em turfa e é essa matéria orgânica que pega fogo”, explica.

“O fogo está no coração dos estuários (do Iberá) onde há uma ilha onde as onças se reproduzem”, lamenta. Os tamanduás que haviam sido reintroduzidos foram evacuados, assim como os filhotes de araras e outros animais selvagens. De acordo os monitores, o restante dos animais da reserva “está vivo e na área central, abrigando-se”, mas não se sabe quanto tempo levará para restaurar o solo ou se as espécies serão perdidas.

“Não é preciso demonizar o fogo, não é preciso apagar tudo o que acontece em Iberá”, diz o biólogo Sebastián Di Martino. O fogo renova a terra naturalmente de tempos em tempos, mas os córregos que antes paravam seu avanço agora estão secos devido à seca. “As mudanças climáticas transformaram o fogo, natural e desejável em Iberá, em uma catástrofe”, alerta.

A fauna “não tem para onde ir e se puder se abrigar, o que vai acontecer se não chover rápido é que vai morrer de fome”. Existem cerca de 77 queixas criminais por incêndios intencionais em Corrientes. Segunda área pecuária na Argentina atrás dos pampas úmidos, é praticada em pequena escala e extensivamente.

Os produtores costumam realizar queimadas controladas de pastagens nos meses de agosto e fevereiro. “Temos que repensar levar esse modelo de produção para áreas marginais, porque teremos cada vez mais mudanças climáticas e as pessoas vão continuar queimando”, concluiu.

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