Os tornados que atingem o Rio Grande do Sul costumam despertar a impressão de que estes eventos estão se tornando mais frequentes. Sempre que uma ocorrência provoca destruição em uma cidade, surgem questionamentos sobre uma possível mudança no comportamento da atmosfera ou até mesmo a ideia de que o fenômeno seria algo novo no estado. A realidade, entretanto, é diferente. Tornados sempre ocorreram no território gaúcho e há abundante documentação histórica comprovando isso.]

Tornado no município gaúcho de Muitos Capões em agosto de 2005 | ARQUIVO
O que mudou nas últimas décadas não foi necessariamente a ocorrência dos tornados, mas a capacidade de observá-los, registrá-los e identificá-los. Hoje praticamente toda pessoa carrega um telefone celular equipado com câmera de alta resolução capaz de fotografar e filmar um tornado em poucos segundos. Há apenas 20 ou 30 anos, isso simplesmente não existia.
Antes da popularização dos celulares, um tornado que passasse por uma área rural poderia deixar apenas relatos de moradores ou danos na vegetação, sem qualquer imagem do fenômeno. Muitos eventos sequer eram classificados como tornados e acabavam descritos apenas como temporais, vendavais ou ventos muito fortes.
Além da revolução tecnológica, a Meteorologia evoluiu de forma extraordinária. Hoje existem radares meteorológicos, imagens de satélite de altíssima resolução, redes de detecção de descargas atmosféricas, modelos numéricos muito mais sofisticados e técnicas modernas de análise que permitem identificar ambientes favoráveis à formação de supercélulas e tornados com antecedência muito maior do que no passado.
Meteorologistas também dispõem atualmente de um volume incomparavelmente maior de informações para confirmar a ocorrência de um tornado. Fotografias, vídeos, imagens de drones, registros de radares e levantamentos detalhados dos danos permitem diferenciar um tornado de outros fenômenos capazes de produzir destruição, como microexplosões atmosféricas (microbursts) e frentes de rajada.
Isso faz com que um número muito maior de eventos seja oficialmente documentado em comparação com décadas atrás.
O Rio Grande do Sul está localizado em uma das regiões meteorologicamente mais favoráveis do planeta para a formação de tornados. Diversos pesquisadores classificam a área que engloba o Sul do Brasil, o Uruguai, o Norte da Argentina e o Paraguai como o chamado Corredor de Tornados da América do Sul.
Leia tambémVerificamos: onda de frio que congelará cinco estados é mentira
Esta região reúne ingredientes atmosféricos semelhantes aos encontrados nas Grandes Planícies dos Estados Unidos, onde está localizado o famoso Tornado Alley. Embora o número absoluto de tornados seja menor que nos Estados Unidos, as condições para sua formação são reconhecidamente muito favoráveis.
Por esse motivo, alguns especialistas consideram o Corredor de Tornados da América do Sul como a segunda região mais favorável do mundo para este tipo de fenômeno.
A geografia da América do Sul contribui decisivamente para isso. O ar muito quente e úmido vindo da Amazônia é transportado para o Sul do continente por um intenso jato de baixos níveis. Ao mesmo tempo, massas de ar frio avançam frequentemente da Argentina em direção ao Sul do Brasil.
Quando essas massas de ar de características muito diferentes entram em contato, ocorre forte instabilidade atmosférica. Se houver ainda intensa variação dos ventos com a altura — o chamado cisalhamento vertical do vento — aumentam significativamente as chances de desenvolvimento de tempestades supercelulares, responsáveis pela maior parte dos tornados mais intensos.
O Rio Grande do Sul encontra-se justamente em uma posição privilegiada para a interação desses ingredientes atmosféricos. Não por acaso, o estado registra historicamente diversos episódios de supercélulas, granizo gigante, vendavais severos e tornados.
A ideia de que tornados seriam um fenômeno recente é desmentida pela própria história. Existem registros documentados de tornados no Rio Grande do Sul há cerca de um século, muito antes da existência de radares meteorológicos, satélites ou mesmo da televisão.
Jornais da primeira metade do século XX descrevem diversos episódios compatíveis com tornados, relatando casas destruídas, árvores arrancadas, postes derrubados e objetos lançados a grandes distâncias. Em muitos casos, os relatos mencionam um “redemoinho destruidor” ou um “funil” avançando sobre localidades, descrições típicas desse tipo de fenômeno.
Tais registros históricos mostram que os tornados já faziam parte da climatologia regional muito antes da era da internet ou das redes sociais.
Nas últimas décadas, inúmeros tornados foram confirmados por levantamentos técnicos realizados por meteorologistas e pesquisadores. Alguns episódios ficaram marcados pela intensidade dos danos e pela grande repercussão, enquanto outros ocorreram em áreas rurais e receberam menor atenção da imprensa.
Também aumentou significativamente o número de estudos científicos sobre o tema. Universidades, centros de pesquisa e serviços meteorológicos passaram a investigar com maior profundidade as condições atmosféricas que favorecem a formação dos tornados na América do Sul.
Leia tambémCalor vai tomar conta do Brasil de Norte a Sul na virada do mês
O avanço científico permitiu compreender muito melhor o ambiente que antecede a ocorrência desses eventos e melhorou consideravelmente a capacidade de previsão do risco.
É importante destacar que prever exatamente onde um tornado irá tocar o solo continua sendo um enorme desafio em qualquer lugar do mundo, inclusive nos Estados Unidos. O que a Meteorologia consegue fazer é identificar regiões onde a atmosfera apresenta condições altamente favoráveis para sua formação.
Quando esses ambientes são detectados, os meteorologistas conseguem emitir alertas para risco elevado de tempestades severas capazes de produzir tornados, granizo de grande tamanho, vendavais destrutivos e chuva intensa.
Mesmo assim, o tornado continua sendo um fenômeno extremamente localizado. Enquanto uma comunidade pode sofrer danos severos, outra situada poucos quilômetros adiante pode sequer registrar chuva significativa.
Outro fator que explica a maior percepção da população é a velocidade com que as informações circulam atualmente. Um tornado ocorrido em qualquer município do Rio Grande do Sul pode ser filmado por dezenas de pessoas simultaneamente e as imagens são compartilhadas nas redes sociais em questão de minutos.
Esse enorme volume de registros audiovisuais faz com que praticamente nenhum tornado de maior intensidade passe despercebido, algo inimaginável poucas décadas atrás.
Assim, a impressão de que há muito mais tornados decorre, em grande parte, da facilidade de registrar e divulgar os fenômenos, além da maior capacidade técnica para confirmar sua ocorrência.