A supercélula que provocou o tornado no Noroeste do Rio Grande do Sul no final da tarde da terça-feira (28) chamou a atenção não apenas pelos danos causados, mas também pela impressionante estrutura que apresentou. As imagens registradas por moradores revelam uma tempestade com organização e características visuais raras de serem observadas no Brasil, lembrando os grandes sistemas convectivos que frequentemente produzem tornados nas Grandes Planícies dos Estados Unidos.

Imagem da supercélula do tornado

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Fotos e vídeos gravados em Senador Salgado Filho e Giruá mostram uma base extremamente rebaixada, uma nítida nuvem-parede (wall cloud), bandas de alimentação convergindo para o centro da tempestade e o tornado se desenvolvendo sob a região de rotação da célula. Trata-se de uma configuração clássica de uma supercélula madura.

Embora o Brasil registre supercélulas todos os anos, poucas vezes elas são documentadas com tanta qualidade e com estrutura tão impressionante. Na maioria dos casos, o fenômeno ocorre em áreas rurais, durante chuva intensa ou com baixa visibilidade, dificultando registros que permitam observar toda a estrutura da tempestade. Desta vez, a combinação de boa visibilidade, horário ainda com luz natural e a ampla utilização de celulares possibilitou imagens de grande valor meteorológico.

As fotografias e vídeos revelam detalhes normalmente vistos em documentários produzidos no chamado “Tornado Alley”, a região das Grandes Planícies norte-americanas que abrange estados como Oklahoma, Kansas, Nebraska e partes do Texas. Nessa área, caçadores de tempestades percorrem milhares de quilômetros todos os anos justamente para registrar supercélulas com estruturas semelhantes às observadas no Noroeste gaúcho.

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Uma supercélula é o tipo mais intenso e organizado de tempestade existente na atmosfera. Seu principal diferencial é a presença de uma corrente ascendente em rotação, conhecida como mesociclone. Essa circulação permite que a tempestade mantenha sua organização durante várias horas, produzindo fenômenos severos como granizo de grande tamanho, vendavais destrutivos, chuva torrencial e tornados.

No caso da tempestade do Rio Grande do Sul, a estrutura observada indicava uma supercélula muito bem organizada. A presença de uma nuvem-parede bem definida evidenciava que o mesociclone estava intenso. É justamente abaixo dessa região que normalmente ocorre a formação dos tornados mais fortes.

Imagem do tornado

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Outro aspecto que impressionou foi a simetria da tempestade. As bandas de nuvens alimentando continuamente a corrente ascendente mostravam que a supercélula encontrava um ambiente extremamente favorável para permanecer organizada. Esse tipo de aparência é relativamente comum nas Grandes Planícies norte-americanas durante ondas de tornados, mas raramente é observado com tanta nitidez na América do Sul.

As condições atmosféricas sobre o Noroeste gaúcho eram altamente favoráveis ao desenvolvimento desse tipo de tempestade. A atmosfera apresentava elevado calor e umidade, com temperaturas próximas dos 33ºC, além de intensa instabilidade. Ao mesmo tempo, um forte jato de baixos níveis transportava ar quente e úmido desde o Norte da Argentina e do Paraguai em direção ao Rio Grande do Sul.

Esse jato de baixos níveis também aumentava significativamente o cisalhamento do vento, que corresponde à mudança da velocidade e da direção dos ventos com a altitude. Essa é uma das variáveis mais importantes para a formação de supercélulas, pois favorece o desenvolvimento da rotação dentro da corrente ascendente.

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A combinação entre calor, umidade abundante, forte cisalhamento e grande instabilidade criou um ambiente extremamente favorável para a formação de uma supercélula clássica. Não por acaso, a MetSul Meteorologia havia alertado ainda durante a manhã que existia elevado risco de tornados na região durante a tarde e a noite.

O tornado percorreu uma faixa que atingiu municípios como Giruá, Senador Salgado Filho e Sete de Setembro. Em Senador Salgado Filho, diversas residências tiveram telhados arrancados ou parcialmente destruídos, além da queda de árvores e danos em propriedades rurais. Em Giruá, comunidades do interior registraram danos severos em residências e pessoas ficaram feridas sem gravidade após o desabamento de estruturas atingidas pelo vento.

O episódio reforça que o Rio Grande do Sul está inserido em uma das áreas mais favoráveis do planeta para a ocorrência de tempestades severas. A região faz parte do chamado Corredor de Tornados da América do Sul, onde a interação entre massas de ar tropicais e frias, associada ao relevo e à circulação atmosférica, favorece a formação de supercélulas com relativa frequência.

Apesar disso, registros fotográficos tão completos continuam sendo raros. A maioria das supercélulas brasileiras ocorre longe de grandes centros urbanos e acaba sendo documentada apenas por imagens de radar ou satélite. No caso da terça-feira, os registros garantiram uma oportunidade incomum e rara de observar, em detalhes, uma das estruturas mais impressionantes que a atmosfera pode produzir.