Episódio de chuva dos próximos dias tem diferenças e semelhanças com o evento extremo do Carnaval deste ano no Litoral Norte paulista (foto) e exige atenção por coincidir com outro feriadão e ante a perspectiva de chuva localmente volumosa a excessiva | NELSON ALMEIDA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A MetSul Meteorologia alerta para um cenário de perigo por chuva volumosa no Sudeste do Brasil nos próximos dias com os volumes de precipitação mais altos projetados para o fim de semana. Os acumulados podem ser localmente excessivos com risco de transtornos e ameaça para a população em áreas de perigo de inundação e deslizamentos de terra.

Uma área de baixa pressão na costa do Sudeste do Brasil e um centro de alta pressão junto ao litoral do Sul do Brasil criarão uma condição sinótica favorável para muita instabilidade com alto risco de chuva localmente volumosa e excessiva em pontos próximos da costa pelo fluxo de umidade do ar mais frio vindo do oceano.

Trata-se de uma condição de perigo ante a probabilidade de que os volumes de chuva em alguns pontos possam atingir quantidades equivalentes a um ou dois meses de precipitação em poucos dias. O que os dados apontam de chuva para áreas do litoral paulista e do estado do Rio de Janeiro inevitavelmente levará a transtornos.


Com uma área de alta pressão sobre a costa do Sul do Brasil, associada a uma massa de ar frio, e um centro de baixa pressão menor que deve se formar na costa do Sudeste do Brasil, espera-se um aporte de umidade do oceano para o continente.

O padrão de circulação deve levar vento carregado de umidade do mar e mais frio em direção ao continente no sentido do litoral de São Paulo e o Rio de Janeiro para a Serra do Mar com chuva de natureza orográfica.


Sob este cenário, a MetSul Meteorologia antecipa uma alta probabilidade de alagamentos e inundações, em alguns casos repentinas, além do risco de quedas de encostas e ainda deslizamentos de terra. Os acumulados de precipitação são condizentes com um risco geológico alto.

O cenário vai exigir atenção ainda rodovia, sobretudo na Serra do Mar e junto à região serrana, ante o perigo de queda de barreiras e de deslizamentos de encostas. Há especial preocupação com a rodovia Rio-Santos, que ainda sofre os efeitos do evento extremo de chuva do mês de fevereiro que destruiu completamente partes da estrada.

A ocorrência deste evento de chuva volumosa a potencialmente extrema coincidindo com o feriadão de Páscoa traz preocupação, tal como já havia ocorrido no Carnaval, porque haverá muitos turistas nas praias e nas estradas.

Diferenças e semelhanças do evento de fevereiro

O evento de chuva volumosa traz preocupação e merece muita atenção do público, mas não se projeta precipitação com acumulados tão extremos como em fevereiro no litoral de São Paulo, quando chegou a chover 700 mm em algumas praias. Esta é a principal diferença.


Ocorre que mesmo um terço da chuva que se abateu sobre o Litoral Norte paulista dois meses atrás já seria suficiente para causar problemas, e os dados indicam potencial de acumulados de 100 mm a 200 mm em vários pontos da costa paulista com marcas isoladamente superiores.

Outra diferença é que a área de risco de chuva forte é maior que em fevereiro. No Carnaval, o risco de chuva excessiva se concentrava mais em parte do litoral paulista e no Sul da Grande São Paulo. Desta vez podem ocorrer episódios localizados de chuva forte a intensa ainda em vários pontos do Rio de Janeiro, na Grande São Paulo e interior paulista e também em áreas do Oeste, Centro e Sul de Minas.

Há uma semelhança relevante e que preocupa. A perspectiva de chuva orográfica pelo fluxo de umidade do mar para o continente, encontrando o relevo da Serra do Mar, tanto na costa de São Paulo como no estado do Rio de Janeiro. Chuva orográfica pode trazer volumes muito altos e tem um histórico nesta época do ano de trazer precipitação volumosa na costa paulista e no Rio pelas primeiras massas de ar de trajetória oceânica do outono.

Volumes de chuva

Vários modelos numéricos analisados pela MetSul indicam a possibilidade de acumulados de precipitação superiores a 100 mm em pontos do litoral de São Paulo nos próximos dias. O modelo de altíssima resolução da MetSul, o WRF, que pela sua grande resolução tem maior capacidade de identificar volumes extremos localizados por orografia (relevo) e captou a chuva extrema de fevereiro, sinaliza um cenário de chuva volumosa a localmente excessiva no litoral e sobre a Serra do Mar, em São Paulo, e no Rio de Janeiro.

O WRF aponta de 100 mm a 200 mm em grande parte do litoral de São Paulo até a manhã de domingo, mas em algumas áreas da costa e da Serra projeta índices de precipitação da ordem de 200 mm a 300 mm.

As condições meteorológicas se deterioram entre esta sexta e o sábado, a chuva aumenta no sábado e tende gradualmente a diminuir no domingo. A chuva pode ser volumosa em diversos pontos do litoral paulista, do Sul ao Norte, mas em pontos localizados não são descartados acumulados extremos.

É importante reiterar que o risco de chuva forte não se limita ao litoral neste evento. Áreas no interior do continente, como o interior de São Paulo e parte de Minas Gerais, podem ter chuva localmente forte a torrencial em alguns momentos, sobretudo da tarde para a noite, com risco de temporais.

Da mesma forma é fundamental reforçar que o risco de chuva volumosa na costa não é apenas no litoral de São Paulo. No Rio de Janeiro, tanto a costa como áreas do interior, incluindo a Região Serrana, podem ter localmente chuva forte a  excessiva. A cidade do Rio de Janeiro está entre as áreas de risco e pode ter muita chuva entre esta sexta e o começo da semana, não se afastando períodos de chuva intensa com risco de alagamentos e escorregamentos de encostas.

Chuva orográfica

A chuva orográfica que atingirá a região é a precipitação induzida pelo relevo. Umidade que vem do oceano, trazida por vento, em razão de uma massa de ar frio ou um ciclone, ao encontrar a barreira do relevo da Serra do Mar, ascende na atmosfera e encontra temperatura mais baixa à medida que ascende na atmosfera com camadas mais frias.

Isso leva à condensação e à ocorrência de chuva induzida pelo relevo. Em um exemplo bem didático e simples de entender. O que acontece se você chega na frente de um espelho e soltar ar da sua boca? O espelho que tem uma superfície mais fria vai ficar embaçado (úmido) e molhado. Com a chuva orográfica ocorre o mesmo.

O ar mais úmido e quente (analogia com ar que sai da boca) encontra um obstáculo físico que é o relevo (como o espelho) e ao chegar nesta barreira que são os morros sobe na atmosfera e encontra temperatura mais baixa, condensando-se o vapor de água e formando chuva.

Episódios de chuva orográfica são de alto risco porque costumam trazer acumulados de precipitação localmente muito altos e que não raro até acabam superando as projeções dos modelos numéricos. Os litorais de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro são os de maior risco de eventos de chuva extrema de natureza orográfica no Brasil.