O aumento dos episódios de calor extremo está levando a agricultura global ao limite e colocando em risco a saúde e o sustento de mais de um bilhão de pessoas. O alerta foi feito nesta semana pela FAO e pela Organização Meteorológica Mundial, em um relatório que destaca os impactos crescentes do aquecimento climático sobre a produção de alimentos.

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Segundo o estudo, o calor extremo — definido como temperaturas excepcionalmente altas em relação ao padrão histórico, tanto de dia quanto à noite — já provoca perdas massivas no campo. Estima-se que cerca de 500 bilhões de horas de trabalho sejam perdidas anualmente na agricultura em razão das condições térmicas adversas.
Esse cenário tende a se agravar nas próximas décadas com as mudanças climáticas. Cientistas apontam que a intensidade dos episódios de calor pode dobrar caso a temperatura média global alcance 2 °C acima dos níveis pré-industriais. Em um cenário ainda mais crítico, com aquecimento de 4 °C, esses eventos poderiam se tornar até quatro vezes mais frequentes e intensos.
Mais do que um fenômeno isolado, o calor extremo atua como um multiplicador de riscos. Ele altera padrões de umidade e radiação solar, favorecendo tanto chuvas torrenciais quanto secas repentinas. Essa combinação de fatores extremos dificulta o planejamento agrícola e aumenta a vulnerabilidade dos sistemas produtivos.
De acordo com especialistas da FAO, o mundo começa a compreender agora essas interações complexas. Episódios recentes mostram como o calor pode desencadear uma cadeia de eventos. No Brasil, por exemplo, períodos prolongados de temperaturas elevadas associados à seca favoreceram incêndios na Amazônia e reduziram drasticamente o nível de rios, com impacto direto na pesca e na aquicultura. Ao mesmo tempo, regiões mais ao Sul enfrentaram episódios de chuva excessiva.
Os impactos se espalham por diferentes setores da produção de alimentos. Na pecuária, o calor intenso pode provocar problemas digestivos e cardiovasculares nos animais, além de reduzir a produção de leite e a qualidade nutricional. Já na pesca, o aquecimento das águas diminui a concentração de oxigênio, podendo causar falhas cardíacas em espécies sensíveis.
O relatório também destaca que, em 2024, 91% dos oceanos do planeta foram atingidos por ao menos uma onda de calor marinha, sendo que metade desses episódios foi classificada como forte. Esse dado evidencia a dimensão global do problema e seus efeitos sobre cadeias alimentares marinhas.
Na agricultura, o impacto é direto sobre a produtividade. A maioria das culturas começa a apresentar queda de rendimento quando as temperaturas ultrapassam os 30 °C. Em algumas lavouras, como batata e cevada, esse limite é ainda mais baixo. Além disso, o calor extremo contribui para a redução de polinizadores, aumento de pragas e doenças e escassez de água.
Casos recentes ao redor do mundo ilustram a gravidade da situação. No Marrocos, seis anos consecutivos de seca, combinados com ondas de calor históricas em 2023 e 2024, reduziram em 40% a produção de cereais e comprometeram colheitas de azeite e frutas cítricas.
Em regiões montanhosas da Ásia Central, temperaturas muito acima da média também causaram prejuízos. Na primavera de 2025, a cordilheira de Ferganá, no Quirguistão, registrou calor intenso que afetou plantações e favoreceu a proliferação de gafanhotos, resultando em perdas de cerca de 25% das colheitas.
Os oceanos também enfrentam consequências severas. No leste do mar de Bering, uma onda de calor marinha entre 2018 e 2019 dizimou aproximadamente 90% da população de caranguejos-das-neves, levando ao fechamento de uma das pescarias mais lucrativas do Ártico.
Diante desse cenário, algumas iniciativas de adaptação começam a surgir. Na Índia, agricultores têm testado variedades de arroz mais precoces e resistentes ao calor. No entanto, o desafio é enorme em um país onde o arroz representa cerca de 70% da ingestão calórica da população e sustenta milhões de trabalhadores rurais.
Apesar dessas ações, os especialistas alertam que as medidas ainda são insuficientes frente à escala do problema. O relatório enfatiza a necessidade de investir em sementes adaptadas, melhoramento genético de animais e sistemas de alerta precoce para eventos extremos.
O calor extremo, diferentemente de outros fenômenos meteorológicos, pode ser previsto com relativa antecedência. Isso abre espaço para estratégias de mitigação e adaptação, como ajustes no calendário agrícola e medidas de proteção para trabalhadores rurais. (Com informações da AFP)