Cientistas que monitoram o clima observam com atenção o surgimento de uma nova e poderosa Onda Kelvin no Pacífico Oeste, o que aumenta o potencial de um episódio de El Niño mais forte neste ano, com o deslocamento de um novo pulso de águas muito quentes nas profundezas do oceano.

Enorme quantidade de água muito quente avança pelas profundezas do Pacifio | NOAA
Esta Onda Kelvin é um enorme pulso de afundamento de água subsuperficial quente (com anomalias de até +5°C ou mais) se deslocando para Leste a partir do Pacífico Oeste, como mostram os dados de monitoramento pelas boias TAO da NOAA, a agência de clima dos Estados Unidos.
Vamos entender? Em episódios de La Niña, como tivemos no final do ano passado e no começo deste ano, se forma uma grande piscina de águas quentes no lado Oeste do Pacífico. Isso acontece porque os ventos alísios, que sopram de Leste para o Oeste ao longo da faixa equatorial, ficam mais fortes do que o normal.
Esses ventos empurram constantemente as águas superficiais mais quentes em direção à Ásia e à Oceania. Como resultado, forma-se um verdadeiro “estoque” de calor na superfície do mar nessa região. As temperaturas da água ali ficam bem mais elevadas, e o nível do mar pode até ficar alguns centímetros mais alto devido ao acúmulo de água.
Neste momento, como resultado da La Niña do final de 2025, há uma enorme piscina de águas mais quentes do que a média sobre o Pacifico Oeste, perto da Indonésia, e que vai ser o estopim de um evento de El Niño nos próximos meses e possivelmente forte a intenso.
Ocorre que em determinados momentos, os ventos alísios enfraquecem ou até mudam de direção temporariamente. Surgem então os chamados “estouros de vento de oeste”, rajadas que sopram no sentido contrário ao habitual. Tais eventos são fundamentais para iniciar a transição rumo ao El Niño.
Quando esses estouros de vento ocorrem, eles empurram parte da água quente acumulada no Pacífico ocidental de volta para o Centro e o Leste do oceano. Esse deslocamento não acontece de forma desorganizada. Ele ocorre através de ondas oceânicas chamadas Ondas Kelvin, que se propagam ao longo da linha do Equador.
As ondas de Kelvin funcionam como pulsos de energia que viajam rapidamente pelo oceano, levando consigo essa água mais quente. Diferente das ondas comuns que vemos na praia, elas não são visíveis na superfície como cristas e vales. São alterações no nível do mar e na profundidade da camada quente que avançam silenciosamente de oeste para leste.

Monitoramento indica uma nova Onda Kelvin com águas muito quentes começando a avançar pelo Pacífico e que vai agravar o risco de um El Niño forte | NOAA
À medida que essas ondas se deslocam, elas aprofundam a termoclina, a camada que separa as águas quentes superficiais das águas frias profundas, no Pacífico central e oriental. Com isso, a ressurgência de águas frias diminui, permitindo que a água quente domine regiões onde normalmente ela não está presente.
Esse processo dá origem a uma “língua” de águas quentes que se estende ao longo do Pacífico equatorial, da costa da América do Sul até o centro do oceano. Essa configuração é a principal característica de um evento de El Niño.
Esta nova Onda Kelvin que os cientistas monitoram é considerada muito grande e a maior de todas até agora neste ano. Como o oceano já está muito quente abaixo de sua superfície, um reforço de estoque de água quente migrando para Leste deve aumentar ainda mais a quantidade de águas aquecidas abaixo da superfície do mar, o que agrava o risco de um El Niño mais intenso nos próximos meses à medida que esta imensa quantidade de água quente nas profundezas do Pacífico emergir para a superfície.