Passageiros de trem passam observam aviso eletrônico de previsão de ‘tempo extremamente quente’ para os dias 18 e 19 de julho e aconselhando os passageiros a viajar apenas para viagens essenciais, na estação Kings Cross, em Londres | JUSTIN TALLIS/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A bolha de calor que atinge a Europa Ocidental pode matar milhares de pessoas, alertaram os meteorologistas e médicos no Reino Unido. As autoridades de saúde temem que as pessoas que moram sozinhas nos andares superiores dos prédios estejam entre as que podem morrer, como aconteceu em Paris em 2003. No ano passado, dois episódios de calor menor causaram cerca de 1.600 mortes a mais, segundo dados oficiais.

O alerta de calor de nível 4 anunciado para segunda e terça-feira pela Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA) significa que “doença e morte podem ocorrer entre os aptos e saudáveis, e não apenas em grupos de alto risco”. O Met Office descreveu a previsão do calor que vem da França e da Espanha como “absolutamente sem precedentes” e instou as pessoas a tratá-lo como um alerta de tempestade e considerar a mudança de planos.

As operações estão sendo canceladas em partes do NHS (o SUS do Reino Unido), algumas escolas estão fechando mais cedo ou fechando completamente e a Network Rail aconselhou as pessoas a não usar trens que serão desacelerados em meio a temores de trilhos dobrados pelo calor extremo. Temperaturas noturnas recordes de mais de 25°C em Londres e partes do Noroeste também estão previstas, colocando maior pressão sobre os corpos das pessoas por mais tempo, um fator chave no aumento da mortalidade.


“Podemos ver de 1.500 a 2.000 mortes apenas nesse período de calor”, disse Bob Ward, diretor de políticas do Instituto de Pesquisa Grantham sobre Mudanças Climáticas e Meio Ambiente ao jornal The Guardian. Os alerta levaram o Reino Unido a declarar uma emergência nacional por calor extremo. O comitê de emergência Cobra do governo britânico se reuniu na quinta-feira para discutir a onda de calor. “Há uma série de planos de contingência em vigor”, disse um porta-voz do governo em Downing Street. Isso incluiu restrições de velocidade nos serviços ferroviários, medidas para garantir a segurança das pessoas que podem ter que fazer filas em carros nas estradas ou nos portos, e mais funcionários de hospitais de emergência de plantão.

O professor Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada da Open University, também falando ao jornal inglês afirmou que “devido a tantos avisos sobre as altas temperaturas que se aproximam, pessoas e empresas estejam tomando mais precauções do que normalmente acontecem em uma onda de calor”. Segundo ele, isso “pode diminuir o número de mortes em excesso. Espero que isso aconteça, mas temo que ainda haja excesso de morte em grande escala”, ponderou.

Na Espanha, o Instituto de Saúde Carlos III, vinculado ao Ministério da Saúde, estima 360 mortes atribuíveis às altas temperaturas registadas nos primeiros seis dias da onda de calor que afeta Espanha e que correspondem ao período de 10 de julho até sexta-feira, dia 15. De acordo com as estatísticas do Sistema de Monitorização Diária da Mortalidade (MoMo) do Instituto de Saúde Carlos III, os óbitos “observados e estimados” por causas atribuíveis ao excesso de temperatura atingiram o pico em 15 de julho, com 123 óbitos, enquanto em 14 de julho, que se considera o máximo da onda de calor, o número era 93.


Calor extremo e fogo

Parte da Europa Ocidental enfrenta a onda de calor extremo que causa incêndios devastadores e recordes de temperatura desde a semana passada. Portugal chegou a registrar 47ºC, a maior máxima já observada em julho. Os incêndios são especialmente preocupantes na Espanha, onde uma importante rodovia que liga Madri com a fronteira de Portugal ficou interditada por mais de 12 horas por conta das chamas que se alastravam na região de Extremadura, no Sudoeste do país. Depois de uma noite complicada, bombeiros e meios terrestres e aéreos conseguiram “estabilizar” o incêndio na região, que ameaçava o parque nacional de Monfragüe, uma área natural protegida por sua biodiversidade, assinalou Nieves Villar, diretora-geral da Defesa Civil de Extremadura.

Bombeiros tentam controlar um incêndio florestal que se alastrou nas comunas de Landiras e Guillos, Sudoeste de França, a cerca de 40 quilômetros ao Sul de Bordeaux, levando à evacuação de centenas de pessoas | THIBAUD MORITZ/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Morador reage ao ver o seu imóvel em chamas em Mogadouro, em Ourém, na tarde da quarta-feira. A região de Santarém teve temperaturas de até 46ºC na onda de calor excepcional que atinge Portugal. | PEDRO ROCHA/AFP/METSUL METEOROLOGIA 

Uma moradora idosa usa um balde de água para apagar brasas nos troncos de oliveiras em Moinhos João da Serra, em Ourém, com o fogo se espalhando em meio à onda de calor | PEDRO ROCHA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Centenas de bombeiros, agentes da Defesa Civil e voluntários se esforçaram para combater os incêndios florestais de grandes proporções em Portugal | PEDRO ROCHA/AFP/METSUL METEOROLOGIA 

Dezenas de focos de incêndio continuam ativos hoje na Espanha, que vive uma onda de calor com temperaturas extremas há quase uma semana. Um dos mais preocupantes está em Sierra de Mijas (Andaluzia), que obrigou a evacuação de mais de 3.000 pessoas de forma preventiva. À tarde, ontem, 300 pessoas foram autorizadas a retornar para suas residências, segundo as autoridades locais.

Depois de dias difíceis, a situação em Portugal está um pouco melhor com apenas um foco ativo de importância, no Norte, entre as comunas de Baião e Amarante. “A previsão é controlar o fogo ainda hoje”, declarou o responsável de Defesa Civil, André Fernandes. Os correspondentes da AFP constataram que as chamas haviam perdido intensidade. Ontem, o piloto de um avião usado no combate aos incêndios morreu depois que sua aeronave se envolveu em um acidente na região de Guarda (Norte).

Segundo a Defesa Civil, os incêndios deixaram pelo menos dois mortos e 60 feridos nas últimas semanas, e as chamas arrasaram entre 12.000 e 15.000 hectares. No Sul da França, os bombeiros continuavam combatendo vários focos, em particular no departamento de Gironde, onde quase 10.000 hectares de floresta foram destruídos pelas chamas desde a última terça-feira. A região vive uma onda de calor cujas temperaturas chegam a 40°C em alguns pontos, segundo a agência Météo-France.


Pessoas se refrescam em meio à onda de calor escaldante em Sevilha, na Espanha. Portugal teve recorde de calor para o mês de julho com 47ºC e canícula castiga ainda a França. | CRISTINA QUICLER/AFP/METSUL METEOROLOGIA 

Crianças se refrescam com a água de uma fonte pelo calor acima de 30ºC em Nantes, Oeste da França, durante o segundo evento extremo de temperatura alta deste verão na Europa Ocidental | LOIC VENANCE/AFP/METSUL METEOROLOGIA 

Intensa onda de calor castigou Espanha e Portugal nos últimos dias e deixou centenas de mortos no território espanhol, informaram serviõs de saúde| CRISTINA QUICLER/AFP/METSUL METEOROLOGIA 

Pessoas se refrescam em uma piscina durante a onda de calor em Madri, na Espanha. A massa de ar quente elevou as temperaturas acima de 40ºC em grande parte da Península Ibérica com marcas perto de 44ºC no território espanhol. | OSCAR DEL POZO/AFP/METSUL METEOROLOGIA 

Os esforços de combate às chamas deram frutos em Teste-de-Buch, onde o fogo foi contido, mas ainda não está totalmente “controlado”, disse à imprensa o subprefeito de Arcachon, Ronan Léaustic. Os incêndios nesta região do país, que mobilizaram mais de mil bombeiros, mantêm preventivamente 12.000 pessoas longe de suas casas desde a terça-feira. Na Grécia, os bombeiros combatiam um incêndio declarado ontem na ilha de Creta, onde sete aldeias rurais foram evacuadas.

Bolha de calor vai se instalar agora sobre o Reino Unido

Embora o pico da onda de calor aparentemente já tenha passado na Espanha, a Agência Estatal de Meteorologia (Aemet) advertiu que as temperaturas devem continuar altas até pelo menos esta segunda-feira. Ontem, elas continuavam acima dos 41°C nas regiões central, Sul e Sudoeste do país. Em Portugal, apenas o Algarve, no Sul, não estava sob alerta por conta do calor. Em outras partes do país são esperadas temperaturas em torno de 42°C.

Mais ao Norte da Europa, no Reino Unido, a agência meteorológica nacional Met Office emitiu o primeiro “alerta vermelho” por calor extremo da história, advertindo que haverá “risco para a vida”. O Met Office prevê que no Sul da Inglaterra as temperaturas poderão alcançar pela primeira vez os 40°C entre segunda e terça com as maiores máximas na terça.

O recorde registrado no país é de 38,7°C, em 2019. Nesse sentido, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, aconselhou os moradores da cidade a utilizar o transporte público apenas em caso de absoluta necessidade. No Sul do país, algumas escolas anunciaram que permanecerão fechadas enquanto os termômetros seguirem elevados. Esta é a segunda onda de calor que atinge a Europa em menos de um mês, um fenômeno que está se tornando mais frequente e intenso devido à mudança climática, afirmam cientistas.

Calor na Europa em 2003 matou 15 mil

A onda de calor de 2003 na Europa foi uma das mais fortes e que mais consequências trouxe ao Hemisfério Norte. Ocorreu num dos mais quentes verões europeus, causou crises na saúde em vários países e consideráveis impactos na agricultura. Várias pessoas morreram por causa das altas temperaturas. O país mais atingido foi a França, que teve grandes prejuízos devido à onda de calor.

Os números divergem, mas as melhores estimativas apontam que 15 mil pessoas perderam a vida na onda de calor de 2003 na Europa, a maioria idosos que morreram na França. Os verões franceses não costumam ser muito quentes, principalmente ao Norte. Como consequência, a maioria das pessoas não sabe como se proteger e a maioria dos lares e casas de repouso de idosos não são equipados com ar-condicionado, embora haja sistemas de emergência contra vários tipos de catástrofe.

A onda de calor ocorreu em agosto, um mês em que muitas pessoas, inclusive membros do governo, estavam em férias ou recesso. Muitos corpos ficaram meses sem ser identificados, porque parentes estavam viajando. Um galpão refrigerado na periferia de Paris foi usado por empresas funerárias, porque suas instalações não comportavam o número de cadáveres. Em 3 de setembro de 2003, 57 corpos foram enterrados como indigentes em Paris, porque não havia quem os reconhecesse.