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O relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, é o principal destaque de capa dos jornais nesta terça-feira na imprensa mundial. Os maiores jornais do planeta, mesmo os especializados em finanças como o inglês Financial Times, ocupam sua capa com o relatório dos cientistas do clima que está sendo encarado como o alerta final para a humanidade.

O diário inglês The Independent tem como manchete “Código vermelho para a humanidade”. O também londrino The Guardiam ocupa a sua capa com uma fotografia dramática dos incêndios florestais em meio à onda de calor recorde na Grécia e traz como manchete “Crise climática global: inevitável, sem precedente e irreversível”. No El País da Espanha, “A humanidade causou já danos irreversíveis ao planeta”. No igualmente espanhol El Periódico, “Último aviso para salvar o planeta”. Por sua vez, o Libération de Paris trouxe como manchete: “Clima à beira do abismo”.


O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, o português Antonio Guterres, definiu o relatório do IPCC como um código vermelho para a humanidade. “Os alarmes são ensurdecedores e as evidências são irrefutáveis que as emissões dos gases do efeito estufa da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento estão sufocando o nosso planeta”, disse em comunicado.

O planeta está aquecendo tão rapidamente que os cientistas agora dizem que cruzaremos um limiar crucial de aumento da temperatura planetária já em 2030, uma década mais cedo do que se pensava anteriormente. As concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera eram maiores em 2019 do que em qualquer momento em pelo menos dois milhões de anos, e os últimos 50 anos tiveram um aumento da temperatura na Terra sem precedentes em pelo menos dois mil anos.

Os eventos climáticos e meteorológicos estão se tornando mais comuns e severos, e o aumento do nível do mar já começa a inundar algumas áreas costeiras com regularidade. O tempo para cumprir as metas do Acordo Climático de Paris e evitar os piores cenários futuros está cada vez mais escasso.

Escrito por mais de 230 cientistas renomados de países ao redor do mundo, os alertas fazem parte do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC (IPCC AR6), o primeiro deste tipo desde 2013. É o relatório climático mais significativo publicado em anos pela comunidade científica internacional. Trata-se da síntese de mais de 14.000 citações de pesquisas.

É uma verdadeira enciclopédia do clima, um documento com riqueza de detalhes e profundidade como jamais se viu na ciência meteorológica, um resumo do mais recente consenso científico sobre as mudanças climáticas e o que o futuro prenuncia, mediante modelos climáticos dos mais sofisticados e do conhecimento das condições passadas.

O período de 20 anos a partir de agora até 2040 será o primeiro a atingir ou superar a meta do acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC em relação ao período pré-industrial. Mesmo sob o cenário mais baixo de futuras emissões de gases de efeito estufa, o limite seria excedido por um breve período de tempo.

Apenas reduções rápidas, acentuadas e sustentadas das emissões de gases de efeito estufa, até valores líquidos zero e eventualmente líquidos negativos, poderiam evitar que as marcas de 1,5ºC ou 2°C de aquecimento fossem evitadas no longo prazo. O mundo já aqueceu 1,1°C em relação à média de 1850-1900.


O relatório também observa que muitos dos efeitos das mudanças climáticas até 2050 já são inevitáveis pelas emissões que já foram feitas e alcançaram a atmosfera, mas observa que ainda há tempo para reduzir significativamente os impactos climáticos no final deste século.

Em síntese, o estrago já foi feito, mas ainda é possível evitar o pior. A mudança de linguagem e perspectiva é clara. Em comparação com seu primeiro relatório, em 1990, a nova avaliação climática do IPCC reflete a transição do aquecimento global como um problema futuro distante para uma crise na atualidade.

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