O tornado que atingiu o Noroeste do Rio Grande do Sul nesta semana não deve ser encarado como um episódio isolado. Muito pelo contrário! Apesar de tornados serem fenômenos relativamente raros, a atmosfera caminha para o período do ano em que eles se tornam mais frequentes no Sul do Brasil. Neste ano, a preocupação é ainda maior pela atuação de um forte El Niño no Oceano Pacífico.

Primeiro dos tornados sob El Niño causou destruição no Noroeste gaúcho | LUIS FREY
O El Niño não provoca tornados diretamente, mas favorece uma configuração atmosférica mais propícia às tempestades severas. Durante episódios do fenômeno, aumenta a frequência de frentes frias, do transporte de umidade da Amazônia e de sistemas de baixa pressão, ingredientes que elevam a probabilidade de formação de tempestades organizadas. Estudos científicos mostram que essa combinação torna mais comuns os ambientes favoráveis às supercélulas, responsáveis pela maior parte dos tornados.
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A literatura meteorológica identifica o Sul do Brasil como uma das regiões de maior ocorrência de tempestades severas fora da América do Norte. A interação entre o ar quente e úmido vindo da Amazônia, o relevo dos Andes e ventos intensos em diferentes níveis da atmosfera cria um ambiente particularmente favorável para tempestades de grande intensidade. Quando esses fatores atuam simultaneamente, podem surgir supercélulas capazes de produzir granizo gigante, vendavais e tornados.
Pesquisas realizadas por universidades brasileiras mostram que o Oeste e Norte do Rio Grande do Sul, o Oeste de Santa Catarina e o Sudoeste do Paraná concentram a maior quantidade de registros documentados de tornados na região Sul. O fenômeno desta semana ocorreu justamente dentro dessa área de maior climatologia tornádica, reforçando que o episódio não foi uma anomalia, mas aconteceu em uma região naturalmente mais favorável ao desenvolvimento desse tipo de tempestade.
O tornado foi gerado por supercélula que apresentou uma estrutura excepcionalmente organizada, com intensa rotação e longa duração. Esse tipo de tempestade é relativamente raro no Brasil, mas bastante conhecido nas Grandes Planícies dos Estados Unidos, onde produz alguns dos tornados mais intensos do planeta. A presença de uma estrutura tão bem definida com um mesociclone chamou a atenção.
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Os próximos meses costumam representar o período de maior risco para tempestades severas no Sul do Brasil. Com a aproximação da primavera, cresce a disponibilidade de calor e umidade na atmosfera, enquanto continuam atuando sistemas frontais e fortes correntes de vento em altitude. Essa combinação favorece o desenvolvimento de tempestades mais intensas e organizadas, aumentando a possibilidade de episódios de granizo, vendavais e tornados.
O El Niño tende a reforçar esse cenário ao aumentar o número de situações favoráveis às tempestades. Isso não significa que haverá tornados com frequência elevada, pois a formação do fenômeno depende de uma combinação muito específica de ingredientes atmosféricos. No entanto, cresce o número de dias em que a atmosfera apresenta condições propícias para a formação de supercélulas, elevando o risco estatístico de novos episódios.
