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As chances de o planeta enfrentar um Super El Niño nos próximos meses estão aumentando de forma significativa, segundo as mais recentes projeções dos principais modelos climáticos globais analisadas pela MetSul Meteorologia e que apontam para um cenário raramente observado.

Gráfico de projeção de intensidade do El Niño

METSUL/ECMWF

O gráfico acima elaborado pela MetSul Meteorologia mostra a projeção mensal para o Pacífico publicada nesta semana pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) e mostra um fortalecimento ainda maior do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, elevando o alerta de um Super El Niño.

A atualização mensal do modelo europeu, a partir de dados de 1º de maio, passou a indicar anomalias de temperatura da superfície do mar próximas de +3°C na região Niño 3.4 até o fim de 2026. O valor supera as projeções da rodada anterior, divulgada em abril, e coloca o fenômeno em território de um evento excepcionalmente intenso com todos os membros do ensemble do modelo indicando o El Niño em território de muito forte.

As projeções mais recentes do ECMWF indicam que a temperatura da água nesta área-chave do Pacífico Equatorial central poderá atingir até 3°C acima da média no fim deste ano. Caso a previsão se confirme, o aquecimento poderá se aproximar ou até superar os recordes históricos observados em 1877 e 2015, ultrapassando claramente o limiar que caracteriza um Super El Niño.

Meteorologistas observam, entretanto, que esta previsão utiliza a climatologia do período 1981-2010, o que tende a inflar parcialmente o sinal de aquecimento do El Niño quando comparado ao novo índice relativo adotado atualmente pela NOAA que leva em conta o acentuado aquecimento do planeta nos últimos anos.

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Ainda assim, os especialistas ressaltam que o cenário continua indicando um evento climático global de enorme intensidade. Em praticamente todos os cenários analisados pelo ensemble do ECMWF, o aquecimento previsto para o segundo semestre varia entre +2°C e +4°C.

Trata-se de um patamar extremamente elevado que colocaria o evento entre os mais fortes já observados desde o início das medições modernas do El Niño no século XIX. O crescimento das projeções vem reforçando a percepção de que o mundo pode caminhar para um Super El Niño histórico.

O professor de Ciências Atmosféricas Paul Roundy, da Universidade Estadual de Nova York em Albany, afirmou que “a confiança está claramente aumentando para potencialmente o maior evento de El Niño desde a década de 1870”. Os registros históricos do fenômeno começaram por volta de 1850.

Os eventos de 1997-1998 e 2015-2016, considerados referências históricas de Super El Niño, atingiram aproximadamente +2,8°C e +2,7°C respectivamente na região Niño 3.4. As projeções atuais do modelo europeu já superam estes valores médios em alguns cenários.

Além do ECMWF, o modelo climático norte-americano CFS, da NOAA, também vem indicando um episódio extremo. As simulações mostram aquecimento superior a 3°C pelo índice tradicional ONI em parte dos cenários previstos para a primavera do Hemisfério Sul.

Este já é o terceiro mês consecutivo em que múltiplos modelos climáticos internacionais apontam para um El Niño potencialmente recorde. Meteorologistas alertam que um evento desta magnitude pode elevar ainda mais a temperatura média global e alterar padrões climáticos em diferentes regiões do planeta, com mudanças nos regimes de seca, enchentes, calor, umidade e até gelo marinho.

Os cientistas alertam que as consequências podem ser muito amplas para agricultura, saúde pública e economia global. Historicamente, episódios extremos de El Niño costumam provocar perdas agrícolas, problemas de abastecimento de água, impactos no preço de alimentos e aumento da frequência de eventos climáticos extremos em diversos continentes.

O aumento da preocupação internacional também está relacionado às condições observadas recentemente no Pacífico. Em algumas áreas do Pacífico Equatorial, a água abaixo da superfície chegou a registrar temperaturas até 8°C acima da média histórica. Meteorologistas explicam que este calor subsuperficial funciona como combustível para o fortalecimento do El Niño quando sobe para as camadas mais rasas do oceano.

Há ainda expectativa de novos episódios de ventos de Oeste nas próximas semanas, o que pode reforçar ainda mais o aquecimento do Pacífico e aumentar novamente as projeções dos modelos climáticos.

Especialistas destacam que a consistência das projeções também chama atenção. Em anos em que o modelo europeu apresentou erros importantes, os desvios já apareciam ainda no primeiro semestre. Desta vez, entretanto, o comportamento observado do Pacífico vem acompanhando relativamente bem o que vinha sendo projetado pelos modelos desde o começo do ano.

Outro motivo de preocupação é o impacto sobre a temperatura global. Os eventos mais fortes de El Niño normalmente impulsionam anos recordemente quentes porque liberam enorme quantidade de calor do oceano para a atmosfera. E o cenário atual é ainda mais delicado porque os oceanos do planeta já apresentam temperaturas excepcionalmente elevadas antes mesmo do pico do fenômeno.

O cientista climático Zeke Hausfather avalia que 2027 pode ter elevada probabilidade de se tornar o ano mais quente já registrado no planeta. Segundo suas estimativas, há atualmente cerca de 73% de chance de um novo recorde global de temperatura ocorrer.