As águas abaixo da superfície do Pacífico Equatorial, entre 100 metros e 200 metros de profundidade, registram aquecimento extraordinário, em níveis raramente observados na história moderna, prenunciando um El Niño forte.

Gráfico da temperatura abaixo da superfície do mar no Pacifico de Oeste para Leste mostra uma enorme quantidade de água excepcionalmente quente entre 100 e 250 metros de profundidade avançando de Oeste para Leste com uma Onda Kelvin | NOAA
Dados da NOAA, a agência de clima dos Estados Unidos, mostram anomalias térmicas que chegam a 8ºC em grandes áreas oceânicas profundas. Esse calor anormal está concentrado em uma gigantesca Onda Kelvin, uma massa de água mais quente que se desloca de Oeste para Leste ao longo da faixa equatorial.
Trata-se de um sinal clássico e muito importante da formação de El Niño. Ondas Kelvin oceânicas funcionam como grandes pulsos de calor submerso. Elas transportam energia térmica acumulada no Pacífico Oeste em direção às águas próximas da América do Sul, favorecendo o aquecimento progressivo da superfície do mar.
Quando essa “piscina” de água superaquecida atinge o Pacífico Leste, a temperatura da superfície aumenta de forma significativa. Isso altera os padrões atmosféricos globais e fortalece a configuração típica de El Niño, com impactos em diversos continentes.
Os cientistas observam uma ligação clara entre esse processo e rajadas intensas de ventos de Oeste, chamadas de Westerly Wind Bursts (WWBs). Esses episódios ajudam a empurrar águas quentes para Leste e reforçam a formação das Ondas Kelvin.
Foi justamente uma forte rajada de ventos de Oeste em março, sobre o Pacífico Oeste, que gerou a atual Onda Kelvin monstruosa. Ela deve alcançar o Pacífico Leste nas próximas semanas, ampliando ainda mais o aquecimento oceânico.
Além disso, dados já começam a mostrar sinais de mais uma Onda Kelvin, impulsionada por outro intenso episódio de ventos de Oeste ocorrido em abril. Será a quarta grande onda deste processo climático em evolução.
A sucessão de ondas quentes no Pacífico abaixo da superfície do mar é particularmente preocupante porque demonstra persistência e crescente intensidade. Cada nova Onda Kelvin injeta mais calor no sistema oceânico-atmosférico, aumentando a probabilidade de um El Niño forte ou até histórico.
O atual padrão já foi suficiente para encerrar a La Niña do ano passado. Agora, o Pacífico não apenas migra para neutralidade, mas avança rapidamente para uma fase quente cada vez mais robusta. O volume de calor abaixo da superfície é um dos indicadores mais confiáveis da força futura do fenômeno. Quanto maior essa reserva térmica, maior o potencial de aquecimento superficial nos meses seguintes e de um El Niño forte a intenso.
Fenômeno chegará mais cedo que o habitual
Condições de El Niño podem se instalar no Pacífico Equatorial já no final deste outono, antes do período mais comum de formação do fenômeno que é segundo semestre, de acordo com a análise da MetSul Meteorologia.
Os dados mostram rápido e intenso aquecimento tanto na superfície quanto abaixo dela, com desaparecimento das águas frias e expansão de áreas mais quentes. Esse processo sinaliza que o Pacífico caminha rapidamente para uma fase quente.
O principal indicativo é a enorme Onda Kelvin em profundidade, uma gigantesca massa de água excepcionalmente aquecida que avança de Oeste para Leste em direção à América do Sul ao longo da faixa equatorial.
Essa reserva de calor está entre 100 e 250 metros de profundidade, funcionando como uma poderosa fonte de energia térmica que deverá emergir na superfície nas próximas semanas, reforçando demais o aquecimento oceânico.
Com a subida desse calor oceânico para a superfície, deve se formar rapidamente a chamada “língua de águas quentes”, marca clássica de episódios de El Niño.
A projeção da MetSul é de que entre maio e junho o fenômeno já esteja plenamente estabelecido, com acoplamento entre oceano e atmosfera, permitindo rápida intensificação durante o inverno.
Isso significa que o El Niño poderá atingir forte intensidade já nos meses de inverno, muito antes do padrão climatológico habitual, quando normalmente se fortalece mais na primavera. O pico tende a ocorrer no último trimestre do ano, entre primavera e começo do verão, podendo configurar um evento de grande impacto climático global.
O que é El Niño
Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.
El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.
Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.
A origem do nome data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.
Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.
