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O fogo na Amazônia, provocado pela ação humana pode ter atingido 95,5% das espécies de plantas e animais vertebrados conhecidas da Amazônia, revela um estudo publicado nesta quarta-feira  pela revista científica Nature. Com a participação de cientistas brasileiros, a pesquisa demonstra em números como incêndios e queimadas atingem o bioma que guarda 10% da biodiversidade do planeta.

Espécie de macaco ameaçada de extinção em uma reserva natural certificada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA), localizada às margens do Rio Negro, Amazonas, em 1º de outubro de 2008 | Mauricio Lima/AFP/MetSul Meteorologia/Arquivo

Os incêndios na Amazônia já afetaram o habitat de 85,2% das espécies de plantas e animais ameaçadas de extinção na região. As espécies não ameaçadas tiveram 64% de seu habitat impactado pelas chamas. Quase 190 mil quilômetros quadrados da floresta amazônica queimaram entre 2001 e 2019, período analisado pela pesquisa.


Das espécies listadas como ameaçadas de extinção na Amazônia pela IUCN (International Union for Conservation of Nature), foram atingidas pelo fogo 236 das 264 espécies de plantas, 83 das 85 espécies de pássaros, 53 das 55 espécies de mamíferos, 5 das 9 espécies de répteis e 95 das 107 espécies de anfíbios.

Ainda que o desmatamento leve a grandes perdas de área de habitat natural, o fogo que vem depois da derrubada exacerba esse impacto. “O desmatamento é o principal vilão da biodiversidade da Amazônia, com os incêndios florestais logo atrás”, explica o pesquisador Paulo Brando, do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e da Universidade da Califórnia em Irvine, um dos autores do estudo.

Essa é a primeira análise feita sobre o impacto de políticas ambientais contra desmatamento e fogo na diversidade de plantas e animais. Para chegar nos resultados, os pesquisadores combinaram mapas de distribuição de espécies conhecidas com registros de satélite dessas ações provocadas pelo homem no período analisado.

“Muitas espécies de plantas e animais da Amazônia possuem distribuições restritas, o que aumenta as chances desses incêndios florestais causarem grandes perdas em biodiversidade”, diz Brando. Os autores ressaltam que os números apresentados estão provavelmente subestimados, por não considerarem outras espécies do reino animal nem a perda de biodiversidade ocorrida antes de 2001, além de outros fatores.

Política ambiental e o fogo na floresta

O trabalho ainda destaca a influência das políticas ambientais na região, e divide a história recente da Amazônia em três períodos: antes de 2008, quando medidas de controle do desmatamento estavam enfraquecidas ou em processo de efetivação; entre 2009 e 2018, quando uma série de políticas para reduzir o desmatamento e os incêndios foi implementada e bem-sucedida; e 2019, ano em que o aumento da área queimada nos primeiros oito meses coincide com o relaxamento do governo brasileiro na aplicação dessas políticas.

“As mudanças de 2019 mostram um retrocesso gigantesco na conservação da Amazônia; se fizermos um paralelo com a indústria automotiva, seria como se tivéssemos retirado o cinto de segurança dos nossos carros em pleno século 21”, diz Brando.

Mesmo que a área impactada pelo fogo na Amazônia tenha oscilado ao longo do tempo, novas áreas queimadas por ano não ficam abaixo da média de 3 mil quilômetros quadrados. Tanto o acumulado do território do bioma atingido por incêndios quanto o impacto no habitat de espécies continuaram a crescer em ritmo constante durante todo o período observado. E a cada novos 10 mil quilômetros quadrados de floresta queimada, calculam os pesquisadores, até quarenta espécies a mais podem ser prejudicadas.

“Se reduzirmos o desmatamento na Amazônia, podemos também reduzir o número de incêndios florestais e as perdas em biodiversidade associadas”, afirma Brando. “Ao perdermos a biodiversidade por incêndios, perdemos vários serviços ecossistêmicos; perdemos também um dos pilares da resiliência de florestas amazônicas.”

Agosto de fogo na Amazônia a despeito de recordes de chuva

A Amazônia registrou 28.060 focos de queimadas em agosto, segundo dados divulgados hoje pelo Programa de Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O número está acima da média histórica e é o terceiro maior índice para o mês desde 2010, perdendo apenas para 2019 e 2020.

Enorme quantidade de fumaça vinda da Amazônia chegava até o Rio Grande do Sul em 20 de agosto e era reforçada pelos incêndios no Paraguai | NOAA

De janeiro a até agosto, o bioma Amazônia somou 39.427 focos de calor. No ano passado, o mesmo período teve 44.013 focos de incêndio, ou seja, apesar dos números muito ruins, a região tem tido menos fogo neste ano. Até agora em 2021, somente maio teve mais focos que o do mesmo mês do ano passado,


O terceiro pior agosto de fogo já registrado na Amazônia é um péssimo sinal porque ocorreu mesmo com muita chuva em parte da região. O mês de agosto totalizou 298,6 mm de em Belém do Pará. O valor é mais que o dobro da média climatológica para o mês (134,8 mm), o que fez do último mês o agosto mais chuvoso de toda a série de dados da estação do Instituto Nacional de Meteorologia iniciada em 1923.

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Manaus, no Amazonas, teve o agosto mais chuvoso desde o início das observações em 1909 com 170,8 mm. A média histórica para o mês de agosto são valores entre 40 e 70 mm, ou seja, choveu o triplo em 2021, de acordo com o Inmet. O período junho a agosto (JJA), com um acumulado de chuva de 519 mm, se tornou o trimestre JJA mais chuvoso dos registros históricos na cidade de Manaus, mais de um terço acima do até então trimestre JJA mais chuvoso que era o de 1966.

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