A Europa se encaminha para ter o verão mais quente de sua história depois de junho e julho terem apresentado temperaturas recordes no continente com sucessivas ondas de calor excepcional e que castigaram principalmente países da Europa Ocidental.

COPERNICUS/ECMWF
Julho foi marcado por uma combinação de calor extremo, seca severa, incêndios florestais e temperaturas oceânicas recordes. Na Europa Ocidental, as condições persistentes de alta temperatura e baixa umidade favoreceram a expansão e a intensificação dos incêndios, em um dos episódios mais extremos do verão europeu.
Segundo o Serviço Copernicus de Mudanças Climáticas (C3S), implementado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), junho e julho formaram o período mais quente já registrado na Europa Ocidental.
Julho também teve o terceiro e o quarto episódios de ondas de calor observados na região desde maio. A sequência prolongada de temperaturas muito elevadas ocorreu em meio à persistência da seca que já havia sido observada em maio e junho.
França, Espanha, partes da Alemanha e o Reino Unido estiveram entre as áreas mais afetadas pela falta de chuva e pela baixa umidade do solo. Em várias regiões, a combinação de calor e déficit hídrico levou os solos a níveis excepcionalmente baixos de umidade.
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A situação também atingiu os rios. O Sena, o Reno e o Danúbio apresentaram vazões muito abaixo da média, em alguns casos excepcionalmente baixas para julho. O cenário trouxe impactos sobre o abastecimento de água, a irrigação agrícola e a produção de energia em diferentes países.
O calor e a seca também criaram condições especialmente favoráveis para os incêndios florestais. Julho registrou uma atividade excepcional de queimadas na Europa Ocidental, tanto pela área atingida quanto pelo volume de emissões produzido.
Para Laurence Rouil, diretora do Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus (CAMS), as condições observadas mostram como a mudança climática está favorecendo períodos mais quentes e secos capazes de alimentar incêndios maiores e mais intensos.
Outro aspecto destacado é a possibilidade de uma temporada de incêndios mais longa. Regiões do Sul da Europa, tradicionalmente mais expostas aos incêndios, podem enfrentar condições ainda mais favoráveis à propagação do fogo, enquanto áreas mais ao Norte passam a ter maior risco.

COPERNICUS/ECMWF
Os incêndios também não produzem impactos restritos às áreas próximas às chamas. Grandes incêndios liberam volumes maiores de fumaça e podem lançar partículas e gases em níveis mais altos da atmosfera.
Com isso, a fumaça pode ser transportada por centenas ou até milhares de quilômetros. Países que normalmente registram poucos incêndios também podem sofrer episódios de deterioração da qualidade do ar provocados por queimadas ocorridas muito longe de seus territórios.
O calor extremo não ficou restrito aos continentes. Julho também registrou a maior temperatura da superfície do mar já observada para o mês nos oceanos extratropicais, considerando a faixa entre 60°S e 60°N.
O Atlântico e o Mediterrâneo apresentaram temperaturas excepcionalmente elevadas. O aquecimento esteve associado a ondas de calor marinhas fortes ou severas, com potenciais consequências para ecossistemas marinhos e comunidades costeiras.
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No Pacífico tropical, as temperaturas também estiveram excepcionalmente altas em uma extensa área. O setor equatorial do oceano está sob condições de El Niño, fenômeno que, segundo as projeções citadas pelo Copernicus, deve continuar se fortalecendo nos próximos meses.
Globalmente, julho de 2026 ficou empatado como o segundo julho mais quente já registrado. A temperatura média do ar na superfície do planeta ficou 1,47°C acima da estimativa para o período pré-industrial, entre 1850 e 1900.
Para Samantha Burgess, líder estratégica para o clima do ECMWF, julho representou o terceiro mês consecutivo de calor excepcional na Europa Ocidental. Ela destacou que sistemas persistentes de alta pressão ajudaram a manter o calor concentrado sobre a região.
A especialista também chamou atenção para a relação entre calor e seca. À medida que o solo perde umidade, diminui sua capacidade de fornecer resfriamento natural por meio da evaporação. Dessa forma, mais calor permanece disponível para elevar a temperatura próxima à superfície.
O resultado é um ciclo que pode reforçar os extremos: o calor contribui para secar o solo, a seca reduz o resfriamento natural e o solo mais seco favorece temperaturas ainda maiores. Ao mesmo tempo, a vegetação perde umidade e se torna mais suscetível à propagação das chamas.