A primavera, que começa às 21h05 desta terça-feira (22), será uma estação de graves riscos meteorológicos para o Sul do Brasil com numerosas ondas de tempestades e chuva com volumes muito acima do normal com várias enchentes, sob um El Niño que atingirá intensidade jamais vista nos tempos modernos.

Foto de enchente na primavera de 2023

Grandes enchentes vão atingir o Sul do Brasil na primavera | SILVIO AVILA/AFP/METSUL

As estações do ano são fenômenos naturais e ocorrem por causa da inclinação do eixo da Terra em relação ao plano de sua órbita em torno do Sol. O instante exato do início de uma estação do ano é determinado por uma posição específica da Terra em sua órbita.

O instante do equinócio de setembro é aquele em que o Sol cruza o equador celeste, que é a extensão do equador terrestre, indo de Norte para Sul. No Hemisfério Sul é o equinócio de primavera e no Hemisfério Norte é o equinócio de outono.

As estações do ano são marcadas pela maneira como os raios solares incidem nos hemisférios. Além da temperatura, um dos efeitos que evidenciam as estações é a variação dos comprimentos dos dias, ou seja, a quantidade de tempo que o Sol fica acima do horizonte.

No início da primavera, os dias terão aproximadamente a mesma duração das noites, e no Hemisfério Sul, os dias vão ficando cada vez maiores e as noites cada vez menores, até o dia com maior presença do Sol no ano, que ocorre no início do verão, que em 2026 será em 21 de dezembro às 18h50 (hora de Brasília).

Primavera sob o El Niño mais forte já registrado

A estação vai transcorrer com o Oceano Pacífico Equatorial com temperaturas do mar em águas superficiais em valores recordes, como jamais observadas nos últimos 150 anos, e com o pico de intensidade do El Niño previsto entre os meses de novembro e dezembro.

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Mapa do El Niño

El Niño é histórico no Oceano Pacífico nesta primavera | NOAA

Neste momento, o Oceano Pacífico Equatorial encontra-se com anomalia de +3ºC, que iguala o pico histórico do El Niño de 2015, mas até o final da estação a anomalia pode atingir valores entre +3,6ºC e +4ºC pelo tradicional índice ONI, fazendo deste El Niño o mais intenso da história por larga margem.

Primavera com extremos de chuva e muitas enchentes

O El Niño terá enorme impacto no regime de chuva com episódios frequentes de precipitação, em alguns casos excessiva a extrema ou mesmo extraordinária, o que vai levar a várias enchentes no Sul do Brasil até o fim do ano, sendo que algumas podem ser grandes e graves.

Inicialmente, nas primeiras semanas da estação, a chuva deve ficar muito acima da média principalmente em Santa Catarina, Paraná e na Metade Norte gaúcha com acumulados até extremos. No Rio Grande do Sul, áreas mais ao Sul do estado podem ter chuva perto da média.

Nos meses de novembro e dezembro, no entanto, a chuva deve aumentar muito no Rio Grande do Sul com vários episódios de precipitação excessiva a extrema, até com volumes extraordinários com totais mensais de 500 mm a 700 mm em algumas cidades, o que levará a vários episódios de enchentes.

Diferentemente do El Niño de 2023-2024, em que o pior da chuva no primeiro ano do fenômeno se deu entre setembro e novembro, neste ano a MetSul acredita o quadro mais crítico de chuva no Rio Grande do Sul se dará mais para o fim do ano.

Rios do Oeste gaúcho, em particular o Uruguai, e do Centro para o Norte gaúcho, como o Jacuí e os que nascem na Serra e que cortam os vales, serão os de maior risco durante a segunda metade da estação com possibilidade de cheias significativas no Rio Grande do Sul. Várias bacias de Santa Catarina e do Paraná também podem apresentar grandes cheias com enchentes significativas na estação.

Os mapas a seguir mostram as projeções de anomalia de chuva para o Centro-Sul do Brasil nos meses de outubro, novembro e dezembro, de acordo com o modelo SEAS-5 do Centro Meteorológico Europeu.

Projeção de anomalia de chuva do modelo SEAS-5 para outubro

Projeção de anomalia de chuva do modelo SEAS-5 para outubro | METSUL

Projeção de anomalia de chuva do modelo SEAS-5 para novembro

Projeção de anomalia de chuva do modelo SEAS-5 para novembro | METSUL

Projeção de anomalia de chuva do modelo SEAS-5 para dezembro

Projeção de anomalia de chuva do modelo SEAS-5 para dezembro | METSUL

Já os mapas a seguir mostram as projeções de anomalia de chuva para o Centro-Sul do Brasil nos meses de outubro, novembro e dezembro, de acordo com o conjunto de modelos norte-americanos e canadenses do NMME da NOAA.

Projeção de anomalia de chuva do modelo NMME para outubro

Projeção de anomalia de chuva do modelo NMME para outubro | METSUL

Projeção de anomalia de chuva do modelo NMME para novembro

Projeção de anomalia de chuva do modelo NMME para novembro | METSUL

Projeção de anomalia de chuva do modelo NMME para dezembro

Projeção de anomalia de chuva do modelo NMME para dezembro | METSUL

No Centro do Brasil, a primeira metade da primavera deve seguir com chuva acima a muito acima da média no Mato Grosso do Sul e em muitos pontos do Sudeste. Já na segunda metade da estação, a chuva deve ficar acima da média no Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Sul de Minas com precipitação abaixo da média ainda em muitas áreas do Norte mineiro e do Mato Grosso.

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Estação terá muitas e violentas tempestades

A instabilidade muito acima do normal pelo El Niño e numa estação que é marcada pelo aumento da temperatura terá como consequência também uma frequência de tempo severo significativamente superior ao normal no Sul do Brasil com numerosas ondas de tempestades no decorrer da estação. Com isso, devem ser esperados vários episódios de granizo, vendavais e, em alguns casos, com tornados.

Outubro é um mês que tradicionalmente registra maior frequência de temporais, mas, como neste ano os piores impactos do El Niño são mais tardios que no fenômeno de 2023, os meses de novembro e dezembro, em particular, serão de muito mais alto risco de tempestades. Há semelhanças com o El Niño de 1997, que teve tempo muito severo no Oeste do Sul do Brasil. Em outubro de 1997, um tornado arrasou Itaqui, na Fronteira Oeste gaúcha.

Espera-se uma frequência atipicamente alta de tempo severo nesta primavera ainda no Mato Grosso do Sul e no estado de São Paulo, com possibilidade de vendavais que podem causar extensos danos e grande impacto na rede elétrica.

Temperatura

Não se desenha uma primavera muito quente. Embora alguns dias quentes, o Sul do Brasil terá uma primeira metade da estação com temperaturas perto e até abaixo da média em algumas áreas, efeito da chegada ainda de massas de ar frio e, sobretudo, da alta frequência de chuva com mais dias de tempo fechado e com chuva. O mesmo cenário pode se dar em parte do Mato Grosso do Sul e do estado de São Paulo.

Projeção de anomalia de temperatura do modelo SEAS-5 para o trimestre outubro a dezembro

Projeção de anomalia de temperatura do modelo SEAS-5 para o trimestre outubro a dezembro | METSUL

Já no Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, a tendência é de uma primavera com temperaturas acima a muito acima da média como consequência de menor precipitação e a atuação de ar muito quente do Centro para o Norte do Brasil, onde podem ocorrer extremos de calor.

Na segunda metade da estação, os dias de calor aumentam naturalmente no Sul. Por isso, os meses de novembro e dezembro devem ter mais tardes quentes. Com mais umidade do que o normal, o calor será mais úmido e em vários dias muito desconfortável. O tempo quente com maior umidade aumentará bastante a frequência de chuva forte de verão e de temporais gerados pelo calor, que ocorrem da tarde para a noite, no final da primavera.