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Um dos maiores mistérios da história climática polar da Terra acaba de ganhar uma nova explicação. Um estudo publicado na revista científica Science concluiu que a Antártida se transformou em um continente coberto por gelo milhões de anos antes do Ártico porque processos geológicos elevaram o relevo do Leste antártico, criando condições favoráveis para o acúmulo permanente de neve muito antes que isso fosse possível no Hemisfério Norte.

Foto mostra clima polar na Antártida

SEBNEM COSKUN/ANADOLU/AFP/METSUL

A pesquisa foi liderada por cientistas da Universidade de Southampton, no Reino Unido, e envolveu pesquisadores de instituições da Alemanha, Holanda, Itália e Reino Unido. Os autores utilizaram modelos computacionais para reconstruir a evolução da superfície da Antártida ao longo dos últimos 100 milhões de anos.

Os resultados mostram que a formação da gigantesca camada de gelo da Antártida Oriental, iniciada há cerca de 34 milhões de anos, não ocorreu apenas em resposta à redução da concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera. O relevo elevado do continente desempenhou um papel decisivo.

Segundo os pesquisadores, a história começou muito antes, quando a Antártida iniciou sua separação da África durante o período Jurássico. A ruptura das placas tectônicas desencadeou movimentos profundos no manto terrestre que, ao longo de dezenas de milhões de anos, elevaram lentamente vastas áreas do leste do continente polar do sul.

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Esse processo deu origem a um enorme planalto e às montanhas Gamburtsev, hoje completamente escondidas sob até três quilômetros de gelo. Conforme o terreno foi sendo elevado, grandes áreas ultrapassaram aproximadamente dois quilômetros de altitude, um limite considerado essencial para que a neve deixasse de derreter durante o verão.

A partir desse momento, pequenas geleiras começaram a se formar nas áreas mais elevadas. Com o passar do tempo, elas cresceram, se expandiram e acabaram se unindo, dando origem à imensa camada de gelo que atualmente cobre a Antártida Oriental.

Hoje, essa é a maior reserva de gelo polar do planeta. Se todo esse gelo derretesse, o nível médio dos oceanos subiria cerca de 52 metros, transformando completamente o mapa das regiões costeiras do mundo.

O estudo também ajuda a explicar por que o Ártico permaneceu praticamente sem grandes mantos de gelo durante dezenas de milhões de anos após a glaciação da Antártida. Embora o planeta estivesse passando por um resfriamento gradual, as terras do Hemisfério Norte eram muito menos elevadas e, por isso, não ofereciam condições para que a neve sobrevivesse ao verão e se acumulasse continuamente.

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Os cientistas destacam que a altitude exerce enorme influência sobre a temperatura do ar. Em média, a cada 100 metros de elevação ocorre uma redução de aproximadamente 1°C na temperatura, favorecendo a permanência da neve em regiões montanhosas.

Depois que o gelo começou a se expandir, entrou em ação outro mecanismo importante. A superfície branca da neve passou a refletir uma quantidade muito maior de radiação solar de volta ao espaço, reduzindo ainda mais as temperaturas. Esse processo, conhecido como efeito albedo, reforçou o resfriamento e acelerou o crescimento da camada de gelo.

Além disso, o ar mais frio passou a conter menos vapor d’água, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa natural. Com menos vapor na atmosfera, diminuiu a retenção de calor, intensificando ainda mais o resfriamento sobre o continente.

Para os autores, os resultados mostram que a formação das grandes eras glaciais depende não apenas das mudanças na atmosfera, mas também da evolução geológica dos continentes ao longo de milhões de anos. Segundo a pesquisa, o interior da Terra pode preparar o terreno para profundas transformações climáticas, determinando quando e onde grandes mantos de gelo conseguem se formar.