Anúncios

Um Super El Niño é uma certeza e cresce muito a possibilidade de o atual episódio do El Niño ter intensidade extrema e se transformar no mais intenso da era moderna, o mais forte em ao menos 150 anos, conforme avaliação da MetSul Meteorologia.

Mapa do El Niño no fim de junho

COPERNICUS

As primeiras projeções do mês de julho dos modelos de clima seguem intensificando o El Niño com previsão de pico de intensidade, com anomalias de temperatura do mar no Pacífico Equatorial Centro-Leste entre +3ºC e +4ºC no último trimestre deste ano, um nível de aquecimento jamais observado nos últimos 150 anos.

As projeções cada vez mais extremas para o El Niño 2026-2027 obrigaram a agência de tempo e clima do governo dos Estados Unidos (NOAA) a mudar repetidamente e elevar a escala de seus gráficos do modelo CFS (Climate Forecast System) devido às projeções cada vez mais extremas e impressionantes de intensidade do El Niño.

Na atualização mais recente do gráfico, desta semana, o limite superior do eixo vertical passou de 4,0°C para 5°C tanto no gráfico do sistema tradicional de monitoramento (ONI) de anomalias da região Niño 3.4 quanto no gráfico baseado no novo método RONI (Relative Oceanic Niño Index).

A mudança foi necessária porque diversos membros do conjunto de previsões passaram a indicar aquecimento superior a 4,0°C, e um deles chega a se aproximar de 4,8°C no método tradicional, enquanto no RONI algumas simulações ultrapassam 4,0°C.

São alterações incomuns e que evidenciam o quanto as projeções deste episódio de El Niño se tornaram excepcionais nas últimas semanas. No gráfico tradicional, baseado na anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 comparada à climatologia de 30 anos (ONI), a média do conjunto de previsões atinge valores acima 4,0°C no final do ano enquanto membros individuais chegam a se aproximar de 5ºC.

Já no gráfico do RONI, que busca reduzir o efeito do aquecimento global ao calcular as anomalias em relação às condições recentes do oceano, o pico previsto é menor, ao redor de 3,3°C a 3,5°C na média do conjunto, embora ainda extremamente elevado e compatível com um Super El Niño de intensidade extraordinária.

O fato de a agência norte-americana de clima NOAA ter ampliado o eixo dos gráficos por reiteradas vezes em poucas semanas ilustra como as previsões quanto ao episódio em curso do El Niño vêm sendo sucessivamente revisadas para cima.

Projeção do modelo CFS pelo índice ONI indica anomalia jamais vista e muito extrema de 4ºC no fim do ano | NWS/NOAA

Projeção do modelo CFS pelo índice RONI indica anomalia muito intensa superior a 3ºC no fim do ano | NWS/NOAA

Embora as previsões dos modelos de clima com vários meses de antecedência devam ser interpretadas com cautela e possam sofrer mudanças importantes, a consistência entre um grande número de membros do conjunto indica que o CFS continua projetando um evento potencialmente histórico, capaz de superar por larga margem os mais intensos eventos de El Niño já registrados.

Para colocar em contexto quão absurdos são estes valores, um levantamento da MetSul Meteorologia com base em dados semanais da NOAA e calculados pelo método ONI (Oceanic Niño Index) mostra que o maior valor de anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 entre os episódios de Super El Niño foi registrado no evento de 2015-2016, quando a anomalia semanal alcançou 3,0°C na semana de 18 de novembro de 2015.

O segundo maior pico ocorreu durante o Super El Niño de 1982-1983, com 2,6°C na semana de 29 de dezembro de 1982. O evento de 1997-1998, apesar de ser considerado um dos mais poderosos já observados pelos seus impactos globais, atingiu um máximo semanal de 2,3°C, registrado nas semanas de 17 de dezembro de 1997 e 4 de fevereiro de 1998.

Já o Super El Niño de 2023-2024 apresentou uma anomalia semanal máxima de 2,1°C na semana de 22 de novembro de 2023, valor inferior ao dos três grandes episódios anteriores, mas ainda suficiente para colocá-lo entre os mais intensos da série histórica da NOAA.

O que outros modelos indicam para o El Niño

Segundo um levantamento do Berkeley Earth com base nas previsões dos principais modelos climáticos globais, a dispersão das projeções para o El Niño deste ano continua extraordinária e reforça a expectativa de um evento de intensidade histórica.

BERKELEY EARTH/METSUL

Dos 13 modelos analisados, 11 projetam um El Niño muito forte, ou Super El Niño, com pico de RONI superior a 2°C. Mais impressionante ainda é que 7 dos 13 modelos indicam um aquecimento suficiente para produzir o mais intenso El Niño da era moderna, superando episódios históricos como os de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.

ECMWF/METSUL

Embora exista incerteza inerente às previsões de longo prazo, o amplo consenso entre os modelos de que o fenômeno poderá atingir intensidade excepcional reforça a possibilidade de um dos episódios mais extremos já observados nos registros modernos.

Nestes primeiros dias de julho, os principais modelos de clima mundiais vão ter as suas atualizações mensais e, conforme a avaliação da MetSul Meteorologia, serão surpresa se vários intensificarem ainda mais o El Niño com valores extremos.

Por que o El Niño ainda deve ganhar muita força

O Oceano Pacífico continua apresentando sinais de fortalecimento contínuo do El Niño. A intensa rajada de ventos de Oeste (Westerly Wind Burst ou WWB) registrada no mês passado gerou mais uma onda Kelvin descendente, que transporta grande quantidade de água quente do Pacífico Oeste em direção ao Leste do Pacífico.

O novo pulso de calor se soma aos anteriores e garante um reforço constante ao fenômeno, ajudando a explicar por que diversos modelos climáticos seguem projetando um El Niño de intensidade excepcional, com potencial para estabelecer novos recordes.

Na superfície do oceano, o aquecimento já impressiona. As temperaturas da água nas diferentes regiões monitoradas do Pacífico Equatorial já atingem ou se aproximam dos níveis característicos de um forte El Niño. Atualmente, todas as regiões Niño apresentam temperaturas recordes para esta época do ano, com exceção da Niño 1+2, próxima às costas do Peru e do Equador, onde apenas 1983 registrava valores mais elevados no final de junho.

Abaixo da superfície, o cenário de aquecimento é ainda mais notável. Dados mostram enorme reservatório de água quente avançando lentamente para Leste, com anomalias que chegam a 7°C acima da média. À medida que essa massa de água quente continua sua propagação nas próximas semanas e meses, ela reduz a ressurgência de águas frias das camadas mais profundas do oceano.

Sem esse mecanismo natural de resfriamento, a tendência é de aquecimento adicional da superfície do Pacífico Equatorial, fornecendo ainda mais energia para a intensificação do El Niño. Por essa razão, a MetSul Meteorologia avalia que um Super El Niño é uma certeza e o risco deste El Niño ser o mais intenso dos tempos modernos uma crescente possibilidade.

Evento com força inédita significa extremos jamais vistos?

Embora o El Niño possa se tornar o mais intenso da era moderna em termos de aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, isso não significa automaticamente que o Brasil registrará os maiores extremos de chuva e seca de sua história.

A intensidade do fenômeno é apenas um dos fatores que influenciam o comportamento da atmosfera. O clima brasileiro resulta da interação de diversos mecanismos que atuam ao mesmo tempo, de modo que um El Niño muito forte aumenta o potencial para eventos extremos, mas não determina sozinho a intensidade nem a distribuição desses impactos.

Outro aspecto fundamental é que não importa apenas quanto o oceano aquece, mas também onde esse aquecimento ocorre e como a atmosfera responde a ele. Eventos de El Niño com intensidade semelhante podem apresentar características diferentes conforme a distribuição das águas mais quentes no Pacífico, alterando a posição das áreas de maior formação de nuvens e modificando a circulação atmosférica em escala global.

Além disso, a atmosfera é sistema caótico, no qual pequenas diferenças nas condições iniciais podem produzir respostas bastante distintas ao longo dos meses. Os impactos do El Niño no Brasil também dependem da atuação de outros importantes moduladores climáticos, como a temperatura do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul, a posição das correntes de jato, a ocorrência de bloqueios atmosféricos, a Oscilação Antártica (SAM) e outras oscilações de grande escala.

Tais fatores podem reforçar os efeitos clássicos do El Niño ou, ao contrário, enfraquecê-los e até modificar o padrão esperado de chuva e temperatura em diferentes regiões do país. Por isso, a previsão dos impactos não pode ser baseada apenas na intensidade do aquecimento do Pacífico.

A própria história mostra que não existe uma relação direta entre o tamanho do El Niño e a magnitude dos desastres climáticos no Brasil. Grandes eventos, como os de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016, produziram consequências bastante diferentes entre si, tanto na distribuição das chuvas quanto na ocorrência de secas. Da mesma forma, episódios de intensidade moderada já estiveram associados a eventos extremos muito significativos.

Independentemente disso, a MetSul reitera que este segundo semestre será de muito alto risco de episódios de chuva excessiva a extrema no Sul do Brasil, com cheias de rios e enchentes, além de uma alta frequência de tempestades fortes a severas. O cenário piora agora em julho e agosto, mas o período mais crítico em nosso entendimento vai se dar entre setembro e dezembro.