A semana começa com uma formação ciclônica atípica que em breve será nomeada como ciclone Akará na costa do Brasil, que muita atenção tem recebido, embora até agora seja um sistema de repercussão quase toda de natureza oceânica. A atenção se justifica por ser um sistema incomum na nossa região, uma vez que ciclones subtropicais ou tropicais são menos frequentes que os habituais extratropicais.

Imagem do satélite meteorológico GOES-16 da tarde deste domingo da depressão tropical que atua na costa do Brasil e está se aprofundando | NOAA/NASA

A Marinha do Brasil, em boletim com análise das 9h deste domingo, indicou que a baixa pressão passou de depressão subtropical para uma depressão tropical. A MetSul explica que esta transição de subtropical para tropical não significa mudança de intensidade, mas que as características da área de baixa pressão se alteraram. Antes, quando subtropical, seu centro era quente e frio de acordo com a altitude, e agora como tropical o centro é integralmente quente.

A Marinha, e o prognóstico da MetSul Meteorologia é idêntico, projeta que a pressão central do sistema deve cair, com intensificação, o que deve levar a depressão tropical ser elevada à categoria de tempestade tropical. Com isso, o sistema hoje sem nome será nomeado e passará a ser identificado como Akará, espécie de peixe na língua Tupi.


Com a muito provável nomeação deste sistema como Akará neste começo de semana, será inaugurada a nova lista de nomes para a designação de ciclones atípicos ou anômalos (subtropicais ou tropicais) no Atlântico Sul. Recordamos que ciclones extratropicais, por demais comuns e recorrentes em nossa região, não são nomeados.

O centro de baixa pressão seguia neste domingo posicionado ao Sul da Região Sudeste, em mar aberto, no Oceano Atlântico, com pressão em 1002 hPa, e nas coordenadas 27ºS e 40ºW. Esta área de baixa pressão há dois dias atua praticamente na mesma área, sem grande deslocamento, o que se se espera mude neste começo de semana com uma trajetória mais acelerada na direção Sul.

A última tempestade subtropical na costa brasileira foi o ciclone Yakecan, em maio de 2022. Por sua vez, a última tempestade de natureza tropical no mar territorial do Brasil foi 01Q (ciclone sem nome), em fevereiro de 2021, que foi classificada pela agência de tempo e clima dos Estados Unidos (NOAA) e não foi nomeada pela Marinha do Brasil.


A trajetória atualizada do ciclone

Modelos numéricos de previsão do tempo globais, depois de dias com projeções com pequenas a grandes diferenças, indicaram todos na rodada da 0Z deste domingo uma trajetória muito parecida para o ciclone Akará na costa brasileira.

O mais importante, todos os modelos indicam neste domingo que a tempestade atípica vai permanecer todo o tempo em mar aberto e sem tocar terra. Não apenas isso, os dados das simulações computadorizadas apontam que o ciclone deve se deslocar a uma maior distância da costa.


Os mapas abaixo mostram as projeções de trajetória com base nas rodadas da 0Z deste domingo dos modelos GFS (Estados Unidos), NAVGEN (Marinha dos Estados Unidos), UKMET (Reino Unido), ECMWF (Centro Meteorológico Europeu), CMC (Canadá) e JMA (Agência Meteorológica do Japão).

Projeção do modelo europeu para a tempestade Akará com base na rodada da 0Z de hoje | FSU

Projeção do modelo britânico para a tempestade Akará com base na rodada da 0Z de hoje | FSU

Projeção do modelo japonês para a tempestade Akará com base na rodada da 0Z de hoje | FSU

Projeção do modelo da Marinha dos Estados Unidos para a tempestade Akará com base na rodada da 0Z de hoje | FSU

Projeção do modelo norte-americano GFS para a tempestade Akará com base na rodada da 0Z de hoje | FSU

Projeção do modelo canadense para a tempestade Akará com base na rodada da 0Z de hoje | FSU

Como se observa pelos vários mapas dos modelos numéricos, as rotas projetadas todas são muito semelhantes com deslocamento para Sul a uma grande distância do litoral. Conforme a simulação, o deslocamento é para Sul-Sudeste ou Sul-Sudeste.

Outro indicativo dos modelos numéricos nas rodadas deste domingo é que o ciclone Akará reduziria a velocidade do seu deslocamento em mar aberto ao alcançar latitudes do Rio Grande do Sul entre os dias 20 e 22, o que, aliás, já vinham projetando nas saídas anteriores.

Os dados apontam também que o sistema enfraqueceria ao atingir águas mais frias mais ao Sul, encontrando maior divergência de vento e perdendo o suporte de calor latente, à medida que se desloca sobre o mar distante da costa em latitudes do Sul gaúcho e do Uruguai (32ºS a 35ºS). Perderia características tropicais e faria a transição para extratropical com a sua posterior dissipação entre os dias 22 e 23.

Haverá impactos no continente?

A trajetória indicada pelos modelos numéricos, como se viu, projeta a tempestade Akará se deslocando para Sul em alto-mar a uma maior distância do continente. Embora o campo de vento forte de um ciclone possa se estender por centenas de quilômetros, em especial em ciclones extratropicais, o que não é o caso deste, o vento mais forte e intenso ficaria limitado a áreas de mar aberto e distante da faixa costeira por todas as projeções, sem exceção.

Projeção de hoje do modelo do Centro Meteorológico Euorpeu indica que o campo de vento intenso da tempestade Akará ficará em alto mar e sem atingir a faixa costeira | METSUL

Com isso, um impacto do ciclone Akará que pode ser sentido na costa é agitação marítima com ondas mais altas, mas nada significativo. Mesmo o risco de uma ressaca maior não é alto, uma vez que, pelas características do sistema e a intensidade do vento em torno do seu centro de circulação, o swell não seria tão expressivo como nos comuns ciclones extratropicais de meses frios.

Uma possibilidade atrelada a este ciclone Akará para o continente é gerar instabilidade isolada. Bandas de nuvens a partir do ciclone podem trazer nebulosidade para o continente que, interagindo com o ar quente, podem causar chuva isolada e ocasionalmente temporais localizados. Independente do ciclone na costa, ar quente e umidade vão se combinar ao longo da semana para provocar pancadas de chuva isoladas com ocasionas temporais localizados típicos de verão. Assim, em síntese, não são esperados no momento impactos relevantes da bastante atípica tempestade Akará no continente.

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