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Ciclone bomba do inverno de 2020 trouxe destruição e treze mortes no Sul do país em um dos mais graves episódios de tempo severo da história do Sul do Brasil | NASA

Entre os dias 30 de junho de 2020 e 1º de julho de 2021 o Sul do Brasil experimentou um dos mais episódios graves de tempo severo da sua história com um ciclone bomba que se formou no Atlântico Sul. O fenômeno deixou 13 mortos, sendo onze em Santa Catarina, uma no Paraná e uma no Rio Grande do Sul, saldo de vítimas superior ao do furacão Catarina de 2004 e muito raramente ocorre num evento de tempestade na parte meridional do Brasil.


O centro de baixa pressão que deu origem ao ciclone bomba avançou do Norte da Argentina para o Uruguai e o Rio Grande do Sul entre os dias 29 e 30 de junho de 2020, causando chuva forte e temporais com volumes muito altos de precipitação que somados ao de um segundo ciclone uma semana depois resultaria em grandes enchentes no Rio Grande do Sul. O Rio Taquari, com a chuva dos dois ciclones, passou por uma das três maiores cheias em 150 anos e o Guaíba em Porto Alegre teve uma das maiores cheias desde a grande enchente de 1941. Em 1 de julho de 2020, o ciclone já estava sobre o Oceano Atlântico a Sudeste do Rio Grande do Sul.

Foi sobre o Atlântico que o centro de baixa pressão se tornou um ciclone na sua fase madura e adquiriu característica de ciclone bomba, ou seja, com a queda da pressão atmosférica mínima central de ao menos 24 hPa em um intervalo de 24 horas. Assim, quando o centro de baixa pressão estava sobre a área continental o sistema ainda não era um ciclone bomba. Isso somente veio a ocorrer uma vez que a área de baixa pressão atingiu o oceano.

O pior ocorreu da tarde para a noite do dia 30 de junho, quando uma linha de instabilidade extremamente intensa (squall line) avançou pelos três estados do Sul, em especial entre a Metade Norte gaúcha e o Paraná, com violentos vendavais. Esta poderosa linha de tempestades se formou no ambiente ciclogenético (de formação do ciclone), assim os danos graves observados no dia 30 foram consequência secundária e não primária do ciclone que somente veio a produzir vento intenso e sustentado por circulação ciclônica no dia seguinte, quando o sistema já estava maduro e muito profundo sobre o oceano. No dia 1º, com o vento diretamente gerado pelo ciclone com rajadas intensas por horas seguidas, os gaúchos tiveram uma madrugada de medo pelo vento intenso que provocou ainda mais estragos e deixou milhões sem luz.

As rajadas de vento no Rio Grande do Sul entre os dias 30 e 1º alcançaram em medições de estações automáticas 117 km/h em Santa Vitória do Palmar, 114 km/h no porto de Rio Grande, 106 km/h em Teutônia, 97 km/h em Teutônia, 98 km/h em Capão do Leão, 96 km/h em Canela e Tramandaí, 92 km/h em Campo Bom e 91 km/h em Vacaria. Porto Alegre teve 85 km/h no aeroporto, mas dentro da cidade o vento foi mais intenso.

Ciclone bomba derrubou muitas árvores em Porto Alegre | EPTC/Arquivo

A MetSul considera que foi o pior episódio de vento no Litoral Norte desde o furacão Catarina de 2004 pela magnitude dos danos observados em alguns balneários. O ciclone bomba provocou mais estragos em Capão da Canoa e em Xangri-lá que o ciclone tropical raro de 2004, quando os danos se concentraram na área de Torres e no Sul Catarinense pelo vento de quase 200 km/h.

Destruição em Chapecó durante a passagem da linha de instabilidade do ciclone bomba | Prefeitura Municipal/Arquivo

Ciclone deixou rastro de destruição no município catarinense de Palmito | Defesa Civil/Arquivo

Os piores estragos em consequência do ciclone bomba se deram em Santa Catarina, quando da passagem da linha de instabilidade potente que acompanhou a formação do sistema. Houve significativa destruição em alguns pontos e dezenas de municípios do estado catarinense tiveram estragos em razão do vendaval. As rajadas chegaram a 168,8 km/h em Siderópolis. 126,4 km/h em Urupema, 120,9 km/h em Indaial, 119,8 km/h no Morro da Igreja, 119,5 km/h em Joinville, 117,3 km/h em Barra do Sul, 111,4 km/h em Tangará, 108,7 km/h em Barra do Sul, 111,4 km/h em Tangará, 198,7 km/h em Major Vieira, 108,6 km/h em Rancho Queimado, 108,3 km/h em Chapecó e 100,3 km/h em Campo Belo do Sul.

O Paraná também sofreu estragos em diversos municípios, inclusive em Curitiba, quando da passagem da linha de instabilidade com vendavais. As rajadas chegaram a 107,6 km/H em Dois Vizinhos, 96,1 km/h em Curitiba, 92,1 km/h em Castro, 82 km/h em Planalto, 75,6 km/h em Inácio Martins, 68 km/h em Cidade Gaúcha, 67,6 km/h em Paranapoema, 65,8 km/h em Diamante do Norte e 65,1 km/h em Colombo.

Primeiro alerta e mudança de cultura meteorológica

A MetSul Meteorologia foi quem primeiro alertou que seria um ciclone bomba. E mais, foi o primeiro organismo de Meteorologia no Brasil ao se valer da terminologia em um boletim meteorológico de alerta, o que nas horas seguintes rendeu críticas à empresa sob a acusação de que era um exagero e o termo inadequado, apesar de constar da literatura técnica e ser utilizado largamente nos Estados Unidos. No dia seguinte, a expressão ciclone bomba estava em toda a imprensa nacional e chegou ao Jornal Nacional, principal telejornal do país.

A previsão da MetSul que muitos acusaram ser exagerada pelo uso do termo bomba meteorológica acabou se confirmando e o evento se transformou em um dos mais graves da história do Sul do Brasil, produzindo estragos mais amplos e maior número de mortos superior que o do furacão Catarina. Desde então, o termo se tornou popular entre os meteorologistas do Brasil e de amplo conhecimento da população.


O alerta da MetSul de ciclone bomba no final de junho de 2020 foi o último que a empresa emitiu de ciclone bomba que pudesse afetar o Sul do Brasil, afinal desde então nenhuma ciclogênese explosiva ocorreu no Atlântico Sul com reflexos de tempo severo na parte meridional brasileira, a despeito de nos últimos doze meses terem sido emitidos vários avisos na internet de ciclones do tipo bomba a partir de outras fontes – a esmagadora maioria sem responsabilidade técnica – e que nunca se concretizaram.

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