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A última geleira da Venezuela está desaparecendo. Uma rocha exposta e um pequeno pedaço de gelo é tudo o que restou do último glaciar do país do Norte da América do Sul, devastado pela mudanças climáticas e que o governo quer “salvar” com mantas térmicas, apesar da opinião contrária dos especialistas.

Embora a diminuição das geleiras atinja todo o mundo, a Venezuela, localizada no meio dos trópicos, é o primeiro país da cordilheira dos Andes a perder todas as suas cinco, que somavam cerca de 1.000 hectares de gelo há pouco mais de um século.

“Na Venezuela não existem mais geleiras, o que temos é um pedaço de gelo com 0,4% de sua extensão original” e seu desaparecimento é “irreversível”, explica à AFP Julio César Centeno, professor universitário e assessor da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

Apesar desta contundente afirmação, o governo venezuelano informou em dezembro sobre um plano para reverter o derretimento com malhas térmicas de polipropileno destinadas a mitigar a incidência dos raios solares nas superfícies.


A ideia replica uma técnica aplicada há mais de 20 anos em países como Áustria, Itália, França, Suíça, Alemanha, China, Rússia e Chile. Na maioria dos casos, para proteger pistas de esqui. “De alguma forma, isto nos permite manter a temperatura da região e evitar que toda a geleira derreta”, disse em dezembro Jehyson Guzman, governador de Mérida (oeste), estado onde estavam localizadas as únicas geleiras do país. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, reforçou que o plano visa “salvar as geleiras de Mérida”.

Os 35 rolos de manto — cada um com 2,75 metros de largura por 80 metros de comprimento — foram levados para o pico em helicópteros militares, mas ainda não se sabe quando serão instalados. Mas o projeto desperta ceticismo entre especialistas da Universidade de Los Andes (ULA), que insistem que La Corona, no Pico Humboldt, o segundo mais alto da Venezuela, não é mais uma geleira, pois restam apenas dois hectares dos 450 que se estendiam até o pico vizinho de Bonpland.

Foto de outubro de 2023 e divulgada em março de 2024 pela engenheira florestal e montanhista venezuelana Susana Rodriguez mostra uma vista do Parque Nacional Sierra Nevada de Mérida, estado de Mérida, na Cordilheira dos Andes, na Venezuela. Susana Rodriguez faz parte de um projeto editorial independente realizado por cientistas, montanhistas e fotógrafos que compilam dados sobre as montanhas mais altas do país e que se opõem ao plano do governo venezuelano para reverter o derretimento da última geleira do país com redes térmicas. | SUSANA RODRIGUEZ/DIVULGAÇÃO/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Foto tirada em 12 de novembro de 2019 e recentemente divulgada pelo pesquisador e documentarista venezuelano Jose Manuel Romero para sua primeira publicação mostrando uma vista da Geleira Humboldt parcialmente coberta de neve, no Parque Nacional Sierra Nevada de Mérida, Estado de Mérida, na Cordilheira dos Andes, na Venezuela. Especialistas sustentam que já não existem glaciares na Venezuela, mas sim um resto de gelo, e que a rede de plástico proposta pelo governo pode ter um grande impacto ambiental à medida que se degrada devido à radiação solar e à chuva. | JOSÉ MANUEL ROMERO/AFP/METSUL METEOROLOGIA

De acordo com os padrões internacionais, uma geleira deve medir pelo menos 10 hectares (0,1 km2). Antes de La Corona, as geleiras desapareceram nos picos El León, La Concha, El Toro e Bolívar. Estão “protegendo” uma geleira que não existe mais, insiste Centeno. “É uma coisa ilusória, uma alucinação, é completamente absurdo”, acrescenta.

O acadêmico e outros cientistas vão pedir a suspensão do projeto ao Supremo Tribunal, uma vez que carece de estudos de impacto ambiental e por não ter sido aberto a consulta pública, conforme estabelece a lei.

Há também o impacto ambiental à medida que este manto se degrada devido à radiação solar e às chuvas. “Esses microplásticos são praticamente invisíveis, caem no chão e de lá vão para as lavouras, lagoas, para o ar. Então as pessoas vão acabar comendo e respirando isso”, alerta ele.

O ecologista tropical Enrique La Marca também teme que a cobertura obstrua o processo biológico de espécies que colonizam a rocha, como musgos e líquenes. “Essa vida vai morrer porque não terá o oxigênio necessário”, ressalta ele.

Segundo La Marca, as estimativas mais otimistas dão a este pedaço de gelo de “quatro a cinco anos”. Outros cálculos não prognosticam mais de dois anos. “É um resquício de gelo. É muito pequeno”, diz a física da ULA Alejandra Melfo, que estuda novas formas de vida no local. O desaparecimento da geleira também afetará o turismo de montanha, já que a maioria escalava o Humboldt através desta geleira, segundo a engenheira florestal e montanhista Susana Rodríguez.

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