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Onde mais deve chover neste verão que começa hoje no Brasil? De proporções continentais, o território brasileiro possui características muito complexas e muito dificilmente há uma maior homogeneidade entre o padrão de chuva entre o Sul e o Norte do país. O mesmo ocorre com a temperatura.

Somam-se ainda os fenômenos de grande escala que impactam o clima em escala planetária. O El Niño, por exemplo, aumenta muito a chuva no Sul do Brasil e reduz significativamente na Região Nordeste. Por outro lado, a La Niña, que marca o começo deste verão, traz uma maior irregularidade e acentua o risco de estiagem no Sul e favorece mais chuva no Nordeste do Brasil.


Em maior deste ano, Pernambuco e outros estados do Nordeste sofreram gravemente com a chuva. Pernambuco enfrentou um dos maiores desastres da sua história com imagens que recordaram a catástrofe que se abateu sobre a cidade do Recife em julho de 1975, quando dois terços da capital pernambucana ficaram debaixo d´água com mais de cem mortos. Agora, em 2022, o desastre trouxe novamente mais de 100 mortos pela chuva, vítimas principalmente de deslizamentos de terra e queda de barreiras em cidades como Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes.

Foram mais de 500 mm em apenas uma semana e 250 mm em poucas horas na noite entre os dias 27 e 28 de maio, elevando os totais de chuva em maio de 2022 para quase 800 mm em pontos da cidade do Recife. Em comum entre os desastres de 1975 e 2022, a atuação com força do fenômeno La Niña no Oceano Pacífico.


Numa realidade muito distinta, no Sul do Brasil, começa um terceiro verão seguido em que há estiagem. São crescentes os prejuízos no interior gaúcho com a produção de milho. Em alguns municípios, a quebra do milho já é quase total e produtores recorrem ao seguro diante de suas perdas.

Os modelos de clima divergem muito em suas projeções de chuva para o Centro-Sul do país com as simulações computadorizadas apresentando sinais divergentes quanto à chuva no Sul, Centro-Oeste e o Sudeste. Para a maior parte do Norte e do Nordeste do Brasil, entretanto, os modelos têm razoável consenso quanto a chover mais do que a média no primeiro trimestre de 2023.

O mapa abaixo mostra a projeção de anomalia de chuva para o primeiro trimestre do novo ano na América do Sul a partir da média de duas dezenas de modelos de clima. O mapa da Universidade de Columbia, dos Estados Unidos, sinaliza claramente um padrão de chuva acima da média para o Norte e o Nordeste do Brasil.

Observando-se modelos, individualmente, nota-se como o padrão é divergente quanto à chuva no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste enquanto o sinal de chuva acima da média é claro para as áreas mais ao Norte do Brasil. Os mapas abaixo mostram as projeções de anomalia (desvio) de precipitação do NMME (média de modelos de clima dos Estados Unidos e Canadá) e do modelo de clima do Met Office, da Inglaterra.

O padrão de chuva acima da média previsto para áreas do Norte do Brasil coincidirá com uma época do ano em que tradicionalmente já chove mais. Enquanto na maior parte do Brasil os primeiros meses do ano é verão, na região amazônica há o que se chama de inverno amazônico, embora tecnicamente não seja inverno ao Sul da linha do equador.

Durante o inverno amazônico há um grande aumento dos índices pluviométricos na Amazônia, com a chuva ocorrendo com maior frequência e intensidade principalmente entre os meses de janeiro e março. Com a chuva, a sensação de calor é amenizada na comparação com outras épocas do ano, quando é mais seco e quente.

Quando é verão no Hemisfério Sul, a chamada Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que é um cinturão de instabilidade na faixa equatorial, se move mais para o Sul. Isso acaba trazendo mais chuva para os estados da Amazônia e mais ao Norte do Nordeste.

Sob este cenário, os primeiros meses do ano podem ser muito chuvosos e até excessivamente chuvosos com inundações e temporais frequentes em estados mais ao Norte do Brasil como Roraima, Amapá, Amazonas, Paraná, Piauí, Maranhã e Ceará, além de grande parte do Nordeste e Tocantins.

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