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A cidade de Nova York colapsou na noite de quarta-feira (1) sob chuva excepcional que estabeleceu recordes e com tempo de recorrência de séculos. A previsão já era de chuva extraordinária na região, mas a tempestade surpreendeu a população e espantou mesmo os meteorologistas norte-americanos. Expressões como “chuva épica” e “tempestade bíblica” frequentaram as manifestações dos meteorologistas da cidade de Nova York e das autoridades locais.

Via expressa inundada no Brooklyn, Nova York, nas primeiras horas desta quinta-feira | Ed Jones/AFP/MetSul Meteorologia

A rede Mesonet de Nova York e as estações de monitoramento da empresa de energia elétrica ConEdison na cidade de Nova York registraram chuva extrema em todos os boros com 213,3 mm em Staten Island, 200,6 mm no Bronx, 190,5 em Manhattan, 195,5 mm no Queens e 170,1 mm no Brooklin.


Os volumes foram excepcionalmente altos em curtos períodos, o que acabou trazendo precipitação com tempo de recorrência de séculos. Com base em dados da estação oficial do Central Park do National Weather Service, a chuva acumulada em uma hora de 80 mm em uma hora tem recorrência de 200 anos. O volume de 118,1 mm em duas horas tem tempo estimado de recorrência de 500 anos. Os registros de 132,0 mm em três horas e de 173,2 mm em seis horas igualmente possuem recorrência estimada de 500 anos.

O total de chuva ontem na estação de referência histórica do Central Park foi de 181,1 mm enquanto o normal para todo o mês de setembro é de 109,4 mm. Os registros meteorológicos na cidade de Nova York tiveram início em 1869. A estação teve na semana passada o seu recorde de chuva em apenas uma hora de 49,2 mm com a tempestade Henri e uma semana depois o recorde foi quebrado novamente com 80,0 mm em apenas 60 mm.

Os 118,1 mm de ontem em Nova York fizeram do 1 de setembro de 2021 o segundo dia mais chuvoso já registrado em setembro, somente superado por 210,3 mm de 23 de setembro de 1882. Em 21 de setembro de 1966 choveu em um dia 140,7 mm. Em 16 de setembro de 1999 caíram 127,5 mm. Em 8 de setembro de 1934 foram 123,4 mm.

Com a chuva de ontem, 2021 pode se tornar o ano mais chuvoso da história da cidade de Nova York. O recorde anual pertence a 1983 com 2046,2 mm, seguido de 2011 com 1849,3 mm, 1972 com 1702,5 mm, 2018 com 1664,9 mm e 1989 com 1653,7 mm. A precipitação acumulada de 2021 até agora está a menos de 50 mm de superar 1983.

O que aconteceu?

A cidade de Nova York teve um evento extraordinário de chuva porque experimentou uma situação meteorológica excepcional e fora do comum que será objeto de muitos estudos pela Meteorologia, No domingo, o furacão categoria 4 Ida tocou terra no estado da Louisiana com categoria 4, pressão de 930 hPa e vento sustentado de 241 km/h com rajadas de até 277 km/h.

O ciclone tropical, como é o normal ao avançar sobre terra, perdeu a alimentação da energia do calor latente das águas oceânicas e enfraqueceu, passando primeiro a uma tempestade tropical e depois a uma depressão tropical. Ontem, a depressão tropical Ida chegou ao Nordeste dos Estados Unidos. Normalmente, o sistema já provocaria chuva intensa na região, mas havia uma agravante. Uma corrente de jato (vento) ao Sul da região dos Grande Lagos intensificou a instabilidade. O resultado foi a chuva extrema na região entre a Filadélfia e o Sul da Nova Inglaterra com os acumulados extremos e históricos observados.

Cidade de Nova York teve o maior volume de chuva em uma hora de sua história e Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos emitiu um inédito alerta de emergência por inundações repentinas para a cidade | Ed Jones/AFP/MetSul Meteorologia

Com Ida, a região de Nova York estava recebendo aporte de umidade de origem tropical, o que favorece precipitações mais intensas. O deslocamento do ciclone tropical organizou um rio atmosférico com elevados índices de água precipitável do Golfo do México até o Nordeste dos Estados Unidos, onde, além da chuva, ocorreram tornados.

O efeito das mudanças climáticas

É um fato notável que em poucos dias a cidade de Nova York tenha batido seu recorde de chuva acumulada em uma hora duas vezes numa série histórica que começa em 1869. Igualmente espantoso são os tempos de recorrência da chuva ocorrida na noite de ontem que variam de 200 a 500 anos para precipitações de uma a seis horas.

A despeito de não ser incomum que sistemas tropicais enfraquecidos tragam chuva excessiva e inundações, as chuvas extremas se tornaram mais comuns desde 1960, especialmente no Nordeste dos Estados Unidos. Isso ocorre porque o aquecimento das águas do Oceano Atlântico ao longo da costa do Nordeste norte-americano está reforçando as tempestades e o ar mais quente é capaz de reter mais umidade, duas situações das mudanças climáticas causadas pelo ser humano. A frequência das chuvas mais fortes aumentou em 50% no Nordeste dos Estados Unidos desde a década de 60.

Nova York colapsou com chuva “épica” da noite da quarta-feira | Redes Sociais/Reprodução

A Física explica o processo que leva aos eventos extremos de chuva mais frequentes. Há um princípio físico conhecido como relação Clausius-Clapeyron que relaciona temperatura, pressão e vapor d’água. O princípio mostra que o ar mais quente pode reter mais vapor de água com cerca de 7% a mais de vapor de água por 1ºC. Quanto mais quente a atmosfera, mais vapor d’água reterá e mais vapor significa mais umidade disponível para se precipitar como chuva, o que leva a taxas de chuva mais altas. O mesmo, paradoxalmente, ocorre em tempestades de neve.

Em média, o planeta já aqueceu mais de 1ºC desde os tempos pré-industriais, de acordo com o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas divulgado no último mês. O documento do IPCC em suas projeções alertava para chuva mais extremas no Nordeste dos Estados Unidos. Em áreas terrestres, tem havido ainda mais aquecimento, e particularmente no Leste dos Estados Unidos, o que levou a um aumento perceptível de fortes chuvas que trazem inundações repentinas, de acordo com a mais recente Avaliação Nacional do Clima do governo norte-americano.

O relatório explica que o aumento das temperaturas controla “as mudanças no vapor de água por meio do aumento da evaporação e da capacidade de retenção de água da atmosfera”. Em escala global, o conteúdo de vapor d’água “aumenta aproximadamente seguindo a relação Clausius-Clapeyron (C-C), com um aumento de aproximadamente 7% por 1ºC de aquecimento”.


“As projeções dos modelos climáticos mostram que o aumento do vapor de água leva a aumentos robustos nos extremos de precipitação em todos os lugares, com uma magnitude que varia entre 4% e 8% por grau Celsius de aquecimento da superfície”, diz o IPCC. No entanto, existem “vários casos indicando que a precipitação muito extrema pode aumentar a uma taxa maior do que a taxa C-C”, observa o relatório. O aquecimento do clima também pode afetar processos “dinâmicos” na atmosfera, segundo o IPCC, como a frequência e intensidade dos ciclones, frentes e sistemas convectivos:

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O número de estudos sobre projeções de chuvas extremas em escala horária “é limitado”, observa o Painel Intergovernamental de Mudanças Climática da ONU. As simulações por modelos climáticos regionais, que são capazes de simular processos convectivos conhecidos como modelos de permissão convectiva, são “limitados e apenas disponíveis em algumas regiões por causa dos altos custos de processamento por computação”. O relatório, entretanto, destaca que “a maioria das simulações de permissão de convecção disponíveis projetam aumentos nas intensidades de eventos extremos de precipitação subdiária com uma quantidade semelhante ou superior à taxa de escala C-C”.

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