O tornado que atingiu o Noroeste do Rio Grande do Sul na tarde de terça-feira (28) provocou um cenário de destruição em diversos municípios da região e pode ter tido vento de até 300 km/h, de acordo com a avaliação preliminar da MetSul Meteorologia.

LUIS FREY
Os municípios mais afetados foram Senador Salgado Filho, Giruá, Santo Cristo e Cândido Godói, onde o tornado causou danos severos em áreas urbanas e rurais. Em diferentes pontos do trajeto, houve destruição de residências, galpões, empresas e estruturas agrícolas.
O tornado ocorreu durante a tarde, entre o fim da tarde e o começo da noite, enquanto a supercélula apresentava uma estrutura extremamente organizada e intensa, característica das tempestades capazes de produzir fenômenos violentos.
Os ventos arrancaram telhados, derrubaram paredes, destruíram silos, armazéns e pavilhões, além de causar grandes prejuízos em propriedades rurais. Árvores de grande porte foram arrancadas ou quebradas e postes caíram em diversos locais.
A passagem do tornado também interrompeu o fornecimento de energia elétrica e bloqueou estradas com árvores e destroços. Equipes trabalharam durante a noite e ao longo desta quarta-feira para liberar acessos e iniciar a recuperação das áreas atingidas.
Além dos danos materiais, o tornado deixou pessoas feridas. As vítimas sofreram principalmente cortes, contusões e outros ferimentos provocados pelo desabamento de estruturas e pela projeção de destroços durante a passagem do fenômeno.
As imagens registradas após o tornado mostram um cenário de devastação incomum, com bairros inteiros atingidos, edificações parcialmente ou totalmente destruídas e extensas áreas rurais com perdas significativas. Em alguns pontos, a destruição ficou concentrada em uma faixa estreita, característica típica da atuação de um tornado.
Avaliação preliminar é de um tornado F-3 superior com vento de até 300 km/h
A MetSul Meteorologia entende, em avaliação preliminar baseada na análise dos danos observados no Noroeste do Rio Grande do Sul, que o tornado pode ser classificado no limite superior da categoria F3 na Escala Fujita. A intensidade é comparável ao tornado de Rio Bonito do Iguaçu (PR), em 7 de novembro de 2025.
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Entre os elementos que sustentam esta avaliação estão o colapso estrutural total de moradias solidamente construídas, destruição de edificações de alvenaria, árvores de grande porte arrancadas e veículos deslocados pela força do vento. A classificação, entretanto, ainda poderá ser revista após uma avaliação técnica mais detalhada por grupos especializados em tempo severo como PREVOTS.
A equipe da MetSul ressalta que a intensidade do tornado poderá inclusive ser reavaliada para EF4 na Escala Fujita caso uma inspeção minuciosa dos danos confirme que a destruição observada corresponde a um padrão ainda mais extremo. A classificação definitiva depende da análise da qualidade das construções atingidas, dos tipos de estruturas destruídas e da distribuição dos danos ao longo da trajetória do tornado.

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As imagens aéreas e em solo do tornado que atingiu a área rural de Giruá revelam um padrão de destruição compatível com um tornado de alta intensidade. Observa-se o colapso quase completo de diversas edificações, com residências de alvenaria reduzidas praticamente a montes de escombros, perda total das coberturas e colapso de paredes estruturais. A distribuição dos danos também mostra um corredor relativamente estreito de devastação, característica típica da passagem de um tornado e diferente dos danos mais amplos produzidos por vendavais convencionais.
Um dos aspectos que mais chama atenção é o nível de destruição das moradias. Em algumas construções, restaram apenas partes de paredes e da fundação, enquanto telhados, estruturas de madeira, móveis e eletrodomésticos foram lançados a dezenas de metros. A quantidade de destroços espalhados e a fragmentação das edificações indicam vento com intensidade catastrófica, como de um furacão categoria 4 ou 5, embora tenha sido um tornado, fenômeno muito distinto. Também se observa dano severo à vegetação, com árvores de grande porte arrancadas, quebradas ou completamente desfolhadas ao longo da trajetória do tornado.
São evidências que reforçam a nossa avaliação preliminar de um tornado de categoria F3 na Escala Fujita, correspondente a um fenômeno capaz de produzir danos severos a devastadores. Entretanto, as imagens também mostram alguns pontos de destruição excepcionalmente intensa que impedem descartar uma classificação ainda mais elevada. O colapso quase total de determinadas edificações, aliado ao elevado grau de dispersão dos destroços, pode ser compatível com danos observados em tornados F4

RAQUEL UGGERI/PREFEITURA DE GIRUÁ

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A Escala Fujita é o método internacionalmente empregado para estimar a intensidade de tornados a partir dos danos deixados pelo fenômeno, uma vez que quase nunca existem medições diretas da velocidade dos ventos no interior do vórtice. A escala original varia de F0 a F5.
Um tornado classificado como F3 é considerado severo e capaz de produzir destruição muito significativa. Nessa categoria, residências bem construídas podem sofrer perda completa do telhado e de paredes, algumas casas podem ser totalmente destruídas, edifícios industriais e estruturas metálicas podem colapsar, árvores de grande porte são arrancadas pela raiz e automóveis podem ser levantados ou arremessados. A velocidade estimada dos ventos situa-se entre 254 e 332 km/h.
O que causou o tornado
O tornado foi produzido por uma supercélula de tempestade, o tipo mais intenso e organizado de tempestade convectiva existente. Esse tipo de sistema é responsável pela grande maioria dos tornados mais fortes registrados no mundo e, embora menos frequente no Brasil do que nos Estados Unidos, ocorre com relativa regularidade no Sul do país.

Tornado na imagem do radar de Chapecó | PREVISÃO MASTERS/DEFESA CIVIL DE SANTA CATARINA
A supercélula que cruzou parte do Noroeste gaúcho apresentava uma estrutura excepcionalmente bem organizada. A tempestade exibiu características raras de serem observadas no Brasil, semelhantes às encontradas nas Grandes Planícies dos Estados Unidos, onde a ocorrência de tornados intensos é muito mais frequente.

Tornado no Noroeste e a supercélula com mesociclone | REDES SOCIAIS
A formação do tornado foi favorecida por uma combinação de ingredientes atmosféricos extremamente favorável ao tempo severo e que havia sido alertada pela MetSul, que alertou para o risco de tornados no Noroeste.
Havia grande disponibilidade de calor e umidade nos baixos níveis da atmosfera, fornecendo a energia necessária para o desenvolvimento de nuvens de grande desenvolvimento vertical. A temperatura na tarde da terça chegou a 33ºC no Noroeste gaúcho.
Ao mesmo tempo, uma intensa corrente de jato em baixos níveis transportava ar muito quente e úmido para o Rio Grande do Sul enquanto uma frente fria avançava de Sul. Tal condição fortaleceu a instabilidade e aumentou significativamente o cisalhamento do vento, um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento de supercélulas.
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Vento em 850 hPa (jato de baixos níveis) no momento do tornado | METSUL
O cisalhamento do vento corresponde à mudança da velocidade e da direção dos ventos com a altura. Quando esse contraste é muito intenso, surgem movimentos de rotação horizontal na atmosfera que podem ser inclinados para a vertical pelas fortes correntes ascendentes da tempestade.
Dentro da supercélula, essa rotação deu origem ao chamado mesociclone, um núcleo rotativo persistente que diferencia esse tipo de tempestade das demais. É justamente a presença desse mesociclone que torna as supercélulas capazes de produzir fenômenos extremos como tornados, granizo gigante, vendavais destrutivos e chuva torrencial.
À medida que o mesociclone se intensificou, a circulação começou a se concentrar em uma área cada vez menor próxima à superfície. Esse processo aumentou rapidamente a velocidade dos ventos em rotação até que se formou o tornado, estabelecendo contato entre a base da nuvem e o solo.
O tornado percorreu uma faixa relativamente estreita por três municípios, característica típica desse fenômeno, mas com ventos extremamente violentos concentrados em uma pequena área. Por isso, enquanto alguns locais sofreram destruição catastrófica, áreas situadas a poucas centenas de metros registraram danos muito menores ou nenhum estrago.
Entenda o que é supercélula de tempestade
A supercélula é o tipo mais organizado e intenso de tempestade, caracterizada pela presença de uma corrente ascendente em rotação, conhecida como mesociclone. Diferentemente das tempestades comuns, que costumam ter ciclo de vida curto, uma supercélula pode persistir por várias horas, deslocando-se por grandes distâncias enquanto produz fenômenos severos. Esse tipo de tempestade é capaz de gerar chuva torrencial, granizo de grande tamanho, intensa atividade elétrica e rajadas destrutivas de vento.

ARTE DE LEANDRO MACIEL
A formação de uma supercélula depende de uma combinação de atmosfera muito instável, grande disponibilidade de umidade e forte cisalhamento do vento, que é a mudança da velocidade e da direção dos ventos com a altitude. Esse cisalhamento faz com que a corrente ascendente adquira rotação, permitindo que a tempestade mantenha sua estrutura organizada e se intensifique. Por essa razão, as supercélulas são consideradas as tempestades com maior potencial para produzir fenômenos extremos.
Os tornados estão frequentemente associados às supercélulas porque a rotação do mesociclone pode se concentrar e se estender até o solo, formando um funil giratório. Embora nem toda supercélula produza um tornado, a grande maioria dos tornados mais intensos e destrutivos do mundo se origina desse tipo de tempestade. Quando uma supercélula se desenvolve em um ambiente muito favorável, com forte instabilidade e intenso cisalhamento do vento, o risco de formação de tornados aumenta de forma significativa.