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Há um ano, em 29 de maio de 2025, nevava pela primeira vez naquele ano no Brasil e com acumulação, o que não é comum em maio. O fenômeno da neve foi registrado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Neve em São José dos Ausentes em 29 de maio de 2025

Neve em São José dos Ausentes em 29 de maio de 2025 | NILSON WOLFF

Houve registro de neve em São Francisco de Paula, São José dos Ausentes, Bom Jesus e Cambará do Sul, onde as cotas de altitude estão entre 1000 e 1200 metros na maioria dos locais. Nevou ainda no Planalto Sul Catarinense, onde as cotas passam de 1500 metros em alguns pontos.

A neve foi consequência de uma forte massa de ar frio de origem polar que chegou ao Sul do Brasil. As condições se tornaram favoráveis à ocorrência do fenômeno pela interação do ar muito frio com uma baixa fria com ar muito gelado em níveis médios de até 3000 a 5000 metros na atmosfera com a umidade proporcionada pela circulação de um ciclone extratropical que se formou na costa do Rio Grande do Sul.

Agora, em 2026, a neve ainda não apareceu com flocos e acumulação. Houve, no começo de maio, precipitação invernal em alguns municípios de altitude, mas foi leve, isolada e breve. Não é um fato que surpreenda, uma vez que normalmente não costuma nevar nos meses de abril e maio, apenas em poucos anos. A regra é que as áreas de maior altitude tenham neve principalmente entre junho e agosto com diminuição da chance a partir de setembro.

E o El Niño vai impedir a neve neste ano? A relação entre neve no Sul do Brasil e o fenômeno El Niño é mais complexa do que muitas vezes se imagina. Existe uma crença popular de que anos de El Niño impedem a ocorrência de neve, mas a literatura meteorológica e a climatologia histórica mostram que isso não é verdade.

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O que ocorre é que o El Niño tende a aumentar as temperaturas médias de inverno no Sul do Brasil e reduzir a frequência das incursões de ar polar muito intensas, diminuindo a probabilidade de episódios de neve. Ainda assim, quando massas de ar frio suficientemente fortes conseguem avançar sobre a região, a neve pode ocorrer normalmente.

Do ponto de vista dinâmico, o El Niño costuma fortalecer o transporte de umidade para o Sul do Brasil e favorecer precipitação acima da média. Isso é um fator importante porque a neve depende não apenas de frio intenso, mas também de disponibilidade de umidade.

Por essa razão, alguns dos episódios históricos de neve mais expressivos do Sul do Brasil aconteceram justamente durante eventos de El Niño. Dois casos clássicos que são sempre lembrados pela MetSul são os dos invernos de El Niño de 1957 e 1965, ambos com nevadas enormes e históricas. A de 1957, na segunda quinzena de julho. A de 1965, em agosto. Ambas ao redor do dia 20 de cada mês.

Os dois eventos ocorreram sob influência de fortes episódios de El Niño e registraram nevadas históricas. Em julho de 1957, São Joaquim, em Santa Catarina, teve uma das maiores acumulações de neve já observadas no Brasil. Já em agosto de 1965, uma grande nevada atingiu áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, sendo considerada uma das mais abrangentes do século XX.

De acordo com o novo sistema de monitoramento da NOAA para o Pacífico chamado de Índice Oceânico Niño Releativo, ou RONI, os índices no trimestre de inverno (junho a agosto) eram de +1,2ºC em 1957 e +1,4ºC em 1965.

Estudos sobre o ENOS (El Niño-Oscilação Sul) indicam que o principal sinal do El Niño no Sul do Brasil é o aumento da chuva e da frequência de sistemas frontais, e não necessariamente a eliminação do frio.

Embora a temperatura média da estação tenda a ficar acima da climatologia, continuam ocorrendo ondas de frio importantes durante alguns eventos. Assim, a ocorrência de neve passa a depender do sincronismo, a coincidência entre uma forte massa de ar polar e a presença de umidade suficiente durante a passagem de sistemas meteorológicos favoráveis.

Com maior umidade na atmosfera, especialmente na segunda metade do inverno, da segunda quinzena de julho à metade de setembro, cresce a possibilidade de acumulação maior na ocorrência de nevadas. Ou seja, menor frequência de frio diminui a chance de nevadas, mas maior umidade aumenta o potencial de acumulação grande no caso de uma massa de ar frio intensa, especialmente com ciclone.