As condições no Oceano Pacífico já são de Super El Niño com um evento do fenômeno de El Niño de muito forte intensidade ocorrendo antes do habitual tal o nível de aumento do aquecimento oceânico, mostram dados de anomalias de temperatura da superfície do mar na faixa equatorial do Oceano Pacífico.

Mapa mosta língua de águas muito mais quentes que o nornmal na faixa equatorial do Oceano Pacífico que é um indicador das condições de Super El Niño

Língua de águas muito mais quentes que o nornmal na faixa equatorial do Oceano Pacífico é um indicador das condições de Super El Niño já atingidas | NASA

De acordo com o tradicional índice de monitoramento denominado de Índice Oceânico Niño (ONI), com base em dados da NOAA, a anomalia de temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 3.4, o Pacífico Equatorial Centro-Leste, onde se verifica se há El Niño ou La Niña, chegou à marca de +2,0ºC. Este é o valor mínimo usado para classificar um El Niño de muito forte intensidade, conhecido informalmente como Super El Niño.

O Pacífico atinge em 2026 o patamar de Super El Niño pela primeira vez desde 2023. A última vez em que condições de El Niño muito fortes foram atingidas foi justamente no evento do fenômeno de 2023-2024, mas há três anos a intensidade muito forte somente foi alcançada pelo índice ONI na semana de 22 de novembro, ou seja, em 2026 tal nível de aquecimento está ocorrendo quatro meses antes.

Aliás, nos registros modernos do ONI jamais se viu o patamar de Super El Niño ser atingido tão cedo. No Super El Niño de 1982-1983, a anomalia de temperatura da superfície do mar apenas alcançou +2ºC na chamada Região Niño 3.4 na semana de 24 de novembro. No Super El Niño de 1997-1998, a primeira semana com intensidade muito forte só ocorreu em 3 de setembro. E no grande evento de 2015-2015, o patamar de Super El Niño foi atingido pela primeira vez em 16 de setembro.

A NOAA, a agência de tempo e clima do governo dos Estados Unidos, passou a usar em 2026 um novo índice para monitoramento chamado de Índice Oceânico Niño Relativo (rONI). Por este índice, a anomalia de temperatura da superfície do mar está hoje na Região Niño 3.4 em 1,3ºC.

É por isso que a NOAA divulgou na semana passada que há 81% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte (Super El Niño). A agência norte-americana está fazendo uso do novo índice que mostra anomalias menores que no índice tradicional usado ao longo de décadas.

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E por que os dois índices? O tradicional Índice Oceânico de Niño (ONI) é a principal referência internacional para monitorar e classificar episódios de El Niño e La Niña. Ele é calculado a partir da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial, utilizando como base uma média climatológica de 30 anos que é atualizada a cada cinco anos.

O novo rONI (Relative Oceanic Niño Index) foi desenvolvido para corrigir um efeito provocado pelo aquecimento global sobre o ONI. Como os oceanos estão mais quentes hoje que décadas atrás, parte da anomalia medida pelo ONI pode refletir o aquecimento de longo prazo do planeta e não apenas a variabilidade natural do fenômeno El Niño. O RONI busca remover essa tendência de aquecimento de fundo.

Na prática, o RONI compara a temperatura da região Niño 3.4 com o restante da faixa tropical dos oceanos, avaliando o aquecimento relativo do Pacífico Equatorial em vez da anomalia absoluta. Por isso, em um mundo cada vez mais quente, os valores do rONI tendem a ser menores que os do ONI, especialmente durante eventos de El Niño.

Super El Niño muito cedo sinaliza um evento extremo

O atingimento do patamar de Super El Niño muito antes do que em outros eventos históricos e de grande magnitude é uma clara sinalização de que este episódio de El Niño será um dos mais intensos da história e muito possivelmente o maior dos tempos modernos, em ao menos 150 anos.

Nove dos dez modelos de clima sazonais de maior prestígio e utilização pela comunidade meteorológica internacional indicam que o fenômeno deverá alcançar uma intensidade sem precedentes nos próximos meses, superando os episódios históricos de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.

As projeções foram produzidas por instituições como o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF), o Centro Euro-Mediterrâneo para Mudanças Climáticas (CMCC), a Agência Meteorológica do Japão (JMA), o Bureau de Meteorologia da Austrália (BOM), o NCEP dos Estados Unidos, a Météo-France da França, o Serviço Meteorológico Alemão (DWD), o Met Office do Reino Unido (UKMET) e o Serviço Meteorológico do Canadá (ECCC). Estes modelos são considerados a principal referência para previsões climáticas de médio e longo prazo em todo o mundo.

O consenso entre os modelos chama atenção pela força projetada para o El Niño. Embora existam diferenças na magnitude exata prevista por cada sistema, praticamente todos convergem para um cenário de aquecimento excepcional das águas do Pacífico Equatorial, suficiente para colocar o evento em um patamar nunca antes indicado pelos modelos modernos de previsão sazonal.

Pelas projeções dos principais modelos climáticos, o pico de intensidade do El Niño medido pelo Índice Oceânico Niño (ONI) varia de +2,7°C a +5,3°C. O modelo italiano CMCC prevê +5,3°C, seguido pelo ECMWF e pela Agência Meteorológica do Japão (JMA), ambos com +3,9°C. O modelo canadense ECCC-2 projeta +3,8°C, enquanto o modelo do Bureau de Meteorologia da Austrália (BOM) indica +3,6°C e o NCEP dos Estados Unidos +3,5°C. O modelo da Météo-France estima um pico de +3,1°C, o serviço meteorológico alemão DWD projeta +3,0°C, o modelo ECCC-1 do Canadá aponta +2,8°C. Já o modelo do Met Office do Reino Unido (UKMET) prevê um máximo de +2,7°C.

Para colocar em contexto quão absurdos são estes valores, um levantamento da MetSul Meteorologia com base em dados semanais da NOAA e calculados pelo método ONI (Oceanic Niño Index) mostra que o maior valor de anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 entre os episódios de Super El Niño foi registrado no evento de 2015-2016, quando a anomalia semanal alcançou 3,0°C na semana de 18 de novembro de 2015.

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O segundo maior pico ocorreu durante o Super El Niño de 1982-1983, com 2,6°C na semana de 29 de dezembro de 1982. O evento de 1997-1998, apesar de ser considerado um dos mais poderosos já observados pelos seus impactos globais, atingiu um máximo semanal de 2,3°C, registrado nas semanas de 17 de dezembro de 1997 e 4 de fevereiro de 1998. Já o Super El Niño de 2023-2024 apresentou uma anomalia semanal máxima de 2,1°C na semana de 22 de novembro de 2023, valor inferior ao dos três grandes episódios anteriores, mas ainda suficiente para colocá-lo entre os mais intensos da série histórica da NOAA.

Impactos do El Niño já começam e vão aumentar nos próximos meses

O El Niño de 2026-2027 deverá alterar de forma significativa o clima do Brasil, mas seus impactos não serão uma repetição exata de episódios anteriores. Cada evento possui características próprias e seus efeitos dependem da interação entre o aquecimento do Pacífico e outros fatores atmosféricos. Os impactos tendem a se intensificar no decorrer deste segundo semestre e no verão, especialmente entre o fim do inverno e a primavera.

É no Sul do Brasil que os efeitos serão mais expressivos e extremamente preocupantes. De acordo com avaliação da MetSul Meteorologia, enquanto o Rio Grande do Sul foi muito afetado em 2023-2024, neste El Niño de 2026-2027 os estados de Santa Catarina e do Paraná também serão muito atingidos.

A chuva já aumenta muito neste mês de julho no Sul do Brasil e deve ter acumulados ainda mais extremos nos próximos meses com numerosos episódios de cheias de rios e enchentes. Haverá vários eventos extremos, principalmente na segunda metade do inverno climático agora (15 de julho a 31 de agosto) e na primavera meteorológica (setembro a novembro), mas também o verão e o outono de 2027 terão episódios de chuva muitíssimo acima do normal no Sul do Brasil.

Também crescerá muito a partir de agora a frequência de tempo severo na Região Sul com cada vez mais recorrentes episódios de temporais de granizo e vendavais, alguns muito severos com tornados e microexplosões atmosféricas.

Apesar do risco, não é possível afirmar que haverá uma repetição da tragédia de 2024 no Rio Grande do Sul. Mesmo que o El Niño de 2026-2027 seja mais intenso que o anterior, enchentes catastróficas dependem da combinação de diversos fatores meteorológicos e climáticos. Cada episódio de El Niño produz impactos distintos, e a magnitude dos eventos extremos só pode ser prevista em curto prazo.