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Uma gigantesca engrenagem oceânica pode estar preparando o caminho para um forte episódio de El Niño. Cientistas seguem monitorando uma gigantesca massa de água excepcionalmente quente denominada Onda Kelvin que avança sob a superfície do Pacífico equatorial e que lembra mecanismos observados antes de alguns dos mais intensos eventos já registrados.

No centro desta engrenagem climática está uma enorme “piscina” de águas muito quentes que avançou nas profundezas do oceano, abaixo da superfície do mar, do Oeste do Pacífico, perto da Indonésia, para Leste rumo à América do Sul.

Agora, após ter avançado por milhares de quilômetros e cruzado quase toda a extensão do Oceano Pacífico, de Oeste para Leste pela região equatorial, estas águas excepcionalmente quentes começam a chegar à costa Oeste da América do Sul, emergindo na superfície, junto aos litorais do Peru e do Equador.

Os dados mostram que esta Onda Kelvin é extremamente intensa. Em partes do oceano profundo, as temperaturas das águas chegaram a ficar 8°C acima da média histórica, um valor impressionante para o oceano, que normalmente varia muito lentamente de temperatura.

Especialistas da NOAA, a agência de clima dos Estados Unidos, já comparam o atual comportamento do Pacífico com esta Onda Kelvin ao observado antes do poderoso El Niño de 1997 e 1998, um dos mais destrutivos do século passado.

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Em 1997, a anomalia de temperatura da superfície do mar (pelo critério tradicional que é chamado de ONI) no Pacífico Equatorial Centro-Leste estava na metade de maio em +0,3ºC (neutralidade). Hoje, está em 0,9ºC. Em 1997, no fim de maio e durante junho o Pacífico aqueceu aceleradamente na superfície e no fim de junho a anomalia já estava em +1,0ºC (limite de El Niño fraco a moderado).

O El Niño de 1997-1998 provocou prejuízos globais estimados em dezenas de bilhões de dólares, com enchentes devastadoras em algumas regiões e secas extremas em outras. Já o super El Niño de 1877-1878 ficou marcado como um dos mais severos da história moderna e contribuiu para crises alimentares e mortes em massa em diferentes partes do planeta.

Veja em gráficos da MetSul como surge o El Niño de 2026

O processo atual de aquecimento do Pacífico equatorial começou a ganhar força quando os ventos alísios enfraqueceram e surgiram os chamados “estouros de vento de Oeste”. Essas rajadas sopram na direção oposta do habitual e ajudam a empurrar o calor acumulado no Pacífico Oeste para o Centro e Leste do oceano.

Um forte estouro de vento ocorrido no Pacífico em abril foi decisivo para criar a atual onda de Kelvin com águas superaquecidas nas profundezas do oceano e que agora começam a chegar à superfície. O fenômeno teria sido potencializado por ciclones tropicais na região, acelerando ainda mais o transporte de água quente sob a superfície do mar.

À medida que essa onda de calor submarina avança pelo Pacífico, ela modifica a chamada termoclina, a camada que separa as águas superficiais quentes das águas profundas frias. Com a termoclina mais profunda, diminui a ressurgência de águas frias perto da costa da América do Sul, favorecendo o aquecimento da superfície do oceano.

É justamente esse aquecimento das águas superficiais do Pacífico Central e Leste na faixa equatorial que caracteriza o El Niño. Conforme o oceano muda, a atmosfera também responde. Áreas de tempestades tropicais se deslocam de posição e alteram padrões globais de circulação atmosférica.

Veja nos gráficos a seguir da MetSul Meteorologia como se formou e se intensificou uma gigantesca massa de águas superaquecidas abaixo da superfície do mar e como ela se deslocou de Oeste para Leste com a chamada Onda Kelvin até atingir a costa Oeste da América do Sul agora no fim de maio, dando início ao processo de El Niño que pode levar a um episódio forte a muito forte (Super El Niño) do fenômeno.

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em janeiro de 2026

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em janeiro de 2026 | METSUL

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em fevereiro de 2026

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em fevereiro de 2026 | METSUL

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em março de 2026 com a formação do El Niño

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em março de 2026 | METSUL

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em abril de 2026 com a formação do El Niño

Recorte vertical das anomalias de temperatura do mar entre a superfície e 500 metros de profundidade no Oceano Pacifico em abril de 2026 | METSUL

Há um consenso entre os especialistas em clima que o cenário atual é preocupante porque os oceanos globais estão mais aquecidos devido às mudanças climáticas. Isso significa que um El Niño forte pode atuar sobre uma atmosfera já carregada de calor e umidade, ampliando extremos meteorológicos.

Outro quase consenso é que ainda há incerteza sobre a real intensidade final do evento de El Niño neste ano, embora os sinais atuais sejam muito fortes do potencial de um episódio forte a intenso durante o segundo semestre deste ano com impactos no clima ao redor do mundo e também no Brasil.

Os efeitos do El Niño no Brasil

Nenhum episódio de El Niño é igual ao outro e uma série de fatores atmosféricos em paralelo, que variam muito, determinam que as consequências sejam mais ou menos graves nos diferentes estados brasileiros. Um El Niño, por exemplo, pode causar mais chuva no Sudeste e outro tempo mais seco, uma vez que o sinal da precipitação na região em anos de El Niño pode variar muito.

Historicamente, no Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais.

No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.

METSUL

No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal.

Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.

No Sul do Brasil, o El Niño costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.