Um desastre atingiu nesta quarta-feira (26) a região do Himalaia entre o Nepal e o Tibete, quando uma inundação repentina avançou pelo rio Bhote Koshi, no distrito de Rasuwa, no norte do Nepal. A correnteza destruiu casas, estradas, pontes e instalações de geração de energia, além de atingir áreas próximas à fronteira com a China. Centenas estão desaparecidas, incluindo turistas estrangeiros.

Moradores observam casas parcialmente submersas pela água barrenta após enchentes repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, Nepal | PRAKASH MATHEMA/AFP/METSUL
As causas do desastre ainda não são conhecidas, embora o governo do Nepal tenha citado um terremoto no Tibete. Uma das causas que será investigada é a ocorrência de um GLOF, fenômeno muito temido na região.
GLOF é a sigla em inglês para Glacial Lake Outburst Flood, expressão que pode ser traduzida como inundação provocada pelo rompimento súbito de um lago glacial. O fenômeno ocorre quando grandes volumes de água acumulados em lagos formados pelo derretimento de geleiras são liberados de maneira repentina, desencadeando uma onda de inundação extremamente destrutiva.
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Esses lagos podem surgir à medida que as geleiras recuam e deixam depressões que passam a ser preenchidas por água do derretimento do gelo e da neve. Em muitos casos, a contenção é formada por morainas, depósitos de pedras, sedimentos e detritos deixados pela própria geleira. Essa estrutura natural pode ser instável.
O rompimento pode acontecer por diferentes motivos. Um deles é a queda de grandes blocos de gelo ou rochas dentro do lago, provocando uma onda que supera a barreira. Chuvas intensas, aumento acelerado do derretimento, terremotos e instabilidades na própria barragem natural também podem desencadear uma GLOF.
Quando a barreira cede, a água armazenada durante meses ou anos pode ser liberada em questão de minutos. A enxurrada ganha velocidade enquanto desce pelos vales, carregando lama, pedras, gelo, árvores e outros materiais. O resultado pode ser uma inundação de grande alcance, capaz de destruir pontes, estradas, casas, instalações de energia e outras estruturas localizadas a jusante.
No Himalaia, as GLOFs já provocaram alguns dos episódios mais destrutivos desse tipo de inundação. Nepal, Índia e Butão estão entre os países mais expostos, devido à grande concentração de geleiras e lagos glaciais em áreas de alta montanha. Quando uma barragem natural se rompe, a água pode avançar rapidamente pelos vales, destruindo pontes, estradas, vilarejos e instalações de energia.
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Em outubro de 2023, uma inundação associada ao rompimento do lago South Lhonak, no estado indiano de Sikkim, atingiu o vale do rio Teesta, deixando dezenas de mortos e desaparecidos e provocando enormes danos à infraestrutura. O desastre evidenciou o risco representado pelo crescimento dos lagos glaciais em regiões ocupadas por comunidades e grandes projetos de infraestrutura.
O risco é particularmente importante em regiões montanhosas do Himalaia, dos Andes e de outras áreas com grande concentração de geleiras. Comunidades situadas em vales abaixo desses lagos podem ter pouco tempo para reagir quando ocorre um rompimento.
O aquecimento do planeta também aumenta a preocupação com o fenômeno. O recuo acelerado das geleiras favorece a formação e a expansão de lagos glaciais, aumentando a quantidade de água potencialmente disponível para uma inundação. Isso não significa que toda expansão de um lago resulte em uma GLOF, mas amplia a necessidade de monitoramento.